Samantha James
FAMILIA STERLING 3
Um heri Perfeito

Disponibilizao e Traduo: Yuna, Gisa, Mare e Rosie
Reviso: Maria F. Almeida
Reviso Final: Luna
Formatao: Gisa
PROJETO REVISORAS TRADUES


Depois de ser abandonada no altar, Julianna Sterling tinha tomado a firme deciso de nunca se casar e de no confiar nos homens nunca mais.
Anos depois,  caminho de Bath, sua diligncia  assaltada por um bandido mascarado, a carruagem sofre um grave acidente e ela fica inconsciente. O misterioso assaltante 
a salva e a leva at sua cabana para tratar dela. Para sua surpresa, Julianna se v fortemente atrada pelo seu captor, o visconde Dane Granville, que trabalha como 
agente secreto para a Coroa num caso de falsificao de dinheiro. Mas sua misso se complica quando Julianna cruza seu caminho e ento, decide liber-la.
De volta  Londres, Julianna trata de esquecer esse misterioso homem cuja identidade ignora, mas que despertou em seu interior, sentimentos desenfreados. A grande 
surpresa chegar no dia em que reconhece uma atraente figura numa festa da sociedade. E esta vez ser ela quem no o deixar escapar.
     
     
Prlogo
     Londres, 1814
     Os murmrios tinham comeado a circular na igreja. Algo estava errado... muito errado. Apenas uns minutos antes, estava convencida de que no podia existir 
um dia mais perfeito...
     O dia do seu casamento.
     Na abobada, os raios de sol iluminavam os vidros da igreja da igreja de Saint George, situada em Hanouver Square, inundando o interior da nave com uma luz efmera 
e cintilante.
      Era um sinal. Assim tinha decidido a menina Julianna Sterling ao descer da carruagem e a aproximar-se da igreja. Durante muito tempo, uma nuvem tinha coberto 
a vida dos Sterling. Por isso, ter sado num dia to maravilhoso devia ser um sinal da vida que a esperava, um bom augrio. Tinha a certeza que um dia to bonito 
e dourado como aquele, tudo tinha que sair na perfeio. A sua unio com Thomas Markham seria benzida, abenoada como nenhuma outra.
     E depois de uns momentos de espera... estava a comear a sentir os primeiros indcios de pnico. Thomas j devia ter chegado.
     Onde  que estava?
     Uma mo tocou-lhe no ombro. Julianna levantou o olhar e encontrou os olhos cinzentos do seu irmo mais velho. Se Sebastian tinha percebido o murmurinho que 
provinha dos convidados, parecia preferir ignor-los.
     - Pareces uma princesa - disse ele com voz rouca.
     Julianna esforou-se para sorrir. Usava um vestido de seda fina, de cor rosa plido - a sua favorita - coberto de cetim prateado. Os sapatos rosa a condizer 
calavam os seus ps. As mangas eram de renda de Bruxelas e a bainha do vestido tinha sido feito com bordados de botes de rosa brancos, enfeitados aqui e ali de 
fio prateado. Mas talvez o elemento mais espantoso do conjunto fosse o longo e elegante vu que caa pelas suas costas e se arrastava pelo cho.
     - Sinto-me como se fosse - admitiu suavemente, - muito obrigado, senhor. No posso negar que tu tambm ests espectacular.
     - E eu? - Perguntou outra voz, neste caso, a do seu irmo Justin, - por acaso no mereo o mesmo elogio?
     Julianna enrugou o nariz.
     - Desesperado,  o que ests - replicou - se precisas que seja a tua irm que te elogie.
     - Descarada! - Escarneceu Justin
     Rodeada pelos seus morenos e bonitos irmos, Julianna deslizou as delicadas mos, cobertas de luvas de renda, pelos braos deles. Durante vinte e trs anos, 
Sebastian e Justin tinham-na protegido de tudo o que tinham podido, e no que ela tivesse querido ou precisado, motivo pelo qual os amava ainda mais.
     Justin elevou uma sobrancelha e dirigiu-se a Sebastian.
     - Visto que normalmente  a me que se encarrega de preparar a filha para a sua noite de npcias, espero que tenhas ensinado  nossa irm tudo o que... como 
dizer de uma forma delicada?... precisa de saber...
     - Na realidade, pedi a Sebastian que deixasse essa honra para ti, Justin. Apesar de tudo, consta-me que s um homem de grande experiencia, no  verdade?
     Eram raras as ocasies em que se podia ver Justin incmodo. Julianna desfrutou do momento.
     - Alm disso - continuou com voz melosa, - no preciso. Embora no seja uma mulher de grandes conhecimentos, tenho muito orgulho na minha imaginao, para no 
falar do facto de me ter tornado numa viciada em ouvir atrs das portas quando era pequena, e quando tinham as vossas conquistas. Pode-se dizer que aprendi bastante, 
sendo assim, no creio que me v escandalizar neste assunto.
     Sebastian endireitou-se.
     - Que raio ests a dizer...?
     - Julianna! - Exclamou Justin. - Deixa que te diga...
     - Deixem de olhar para mim com essa cara de reprovao. - Pareciam to escandalizados que no conseguiu conter uma gargalhada. No podia imaginar que seria 
a ultima vez que se riria esse dia.
     Enquanto os irmos continuavam a repreende-la, deitou um olhar  nave da igreja. Desde criana, Julianna tinha sonhado em casar na igreja de Saint George, construda 
h quase cem anos e onde se tinha casado o filho do Rei, o prncipe Augusto. Graas a Sebastian, o sonho tornara-se realidade. Fora ele quem insistira em que o casamento 
se realizasse em Saint George.
     Julianna no se ops. No era apenas um sonho de criana. Sabia que para Sebastian, era tambm um sinal de prosperidade e xito. Tiveram que percorrer um longo 
caminho para que a sociedade voltasse a admitir o nome dos Sterling. Depois da morte do seu pai, havia sido Sebastian o responsvel de restaurar a respeitabilidade 
do seu apelido.
     Os bancos de ambos os lados do corredor estavam cheios de gente. Julianna reparou ento que algumas cabeas comeavam a virar-se e a olhar para o caminho que 
ia desde onde eles estavam, de p junto  porta para a frente do altar... onde Thomas j devia estar  espera da noiva. Julianna comeou a sentir um n incmodo 
no estmago.
     - Atrevo-me a dizer que metade da alta sociedade est aqui hoje - murmurou ela.
     - Creio que terias convidado toda a Inglaterra se Sebastian tivesse permitido. - Disse Justin, com um leve sorriso. Sebastian no fez comentrio algum.
     A igreja estava em silncio. Na galeria oeste, o organista pigarreava enquanto esperava o sinal do reverendo Hodgson, que comeava a apoiar-se primeiro num 
p e depois no outro.
     Uns minutos mais tarde, Sebastian tirou o relgio de bolso e abriu-o com expresso preocupada. A cerimnia devia comear  uma.
     Era uma e um quarto.
     Julianna no conseguia suportar olhar para dentro da igreja. Os rostos dos convidados tinham mudado a sua expresso interrogante para uma de condolncia. Os 
murmrios tinham dado passo a um silncio vergonhoso.
     Implorou a Sebastian com os olhos.
     - H algo errado - disse em voz muito baixa. - O Thomas j devia ter chegado.
     Justin no foi to generoso. A sua expresso era tensa.
     - Espero que tenha uma boa desculpa. Meu Deus, chegar tarde ao seu prprio casamento...
     - Justin! O Thomas  um bom homem, sensvel, o melhor homem do mundo. Sabes to bem como eu que tem um corao de ouro!
     - Ento, onde diabo est? - Grunhiu Justin.
     Julianna comeo a preocupar-se.
     - Ai! Deve ter acontecido algo grave, porque por nada do mundo perderia este dia.  um homem honrado... - a voz dela engasgou-se, - seno estaria aqui. Estaria 
aqui! Deve haver alguma razo...
     E havia. A porta lateral abriu-se. Trs pares de olhos voltaram-se para ela quando Samuel, o irmo de Thomas, apareceu de repente.
     Era muito prprio de Justin no estar com contemplaes.
     - Ol, amigo; onde est o Thomas?
     Sebastian aproximou-se dele tambm.
     Samuel deteve-se diante Julianna. No conseguia respirar. Era tanto o seu pesar que parecia suportar sobre os ombros o peso do universo.
     Havia algo errado, muito errado. Sentia. Sabia.
     - Samuel, diga-me, diga-me o que aconteceu!
     Foi s depois quando percebeu de que devia ter percebido... ele evitou olhar para ela.
     - Desculpe, Julianna, mas o Thomas partiu.
     O corao dela contraiu-se.
     - Partiu? - Disse ela sem poder acreditar no que ouvia.
     - Sim. Deram-me um recado h um momento. Ah! No sei como lhe dizer isto. Ontem  noite, entende, ontem  noite partiu para Gretna Green... com Clarice Grey.
     Samuel elevou os olhos para ela com ansiedade.
     - Julianna - aventurou-se, - ouviu o que eu disse?
     Julianna olhou para ele fixamente. Isto no podia estar a acontecer. Era um sonho. No, era um pesadelo! O corao estava to frio como a pedra que pisava.
     Atrs dela houve um grito abafado colectivo.
     - Gretna Green! - Disse algum. - Fugiu para Gretna Green com outra mulher!
     E ento o rumor estendeu-se por toda a igreja como uma chama, ate que os seus ouvidos ressoaram e no conseguia pensar sequer. Sentiu o golpe de milhares de 
olhos como pedaos de vidro que se cravavam na sua pele. Sentiu-se estril. Nua.
     No se lembrava como tinha sado da igreja. Sebastian e Justin conduziram-na para o exterior e meteram-na na carruagem, protegendo-a dos olhares descarados 
dos convidados, que tinham comeado a sair da nave.
     Quando chegaram a casa de Sebastian, ainda no tinha conseguido articular uma palavra. Justin continuava a conjurar, murmurando algo sobre um duelo, quando 
saiu da carruagem.
     Sebastian tocou-lhe no ombro.
     - Julianna? - Murmurou. - Jules, ests bem?
     - Estou muito bem - ouviu-se dizer com uma voz clara. Tranquilamente, virou a cabea para o irmo. - Mdico escndalo, no achas?
     Um sorriso fantasmagrico desenhou-se nos lbios de Sebastian.
     - Somos os Sterling, Jules. Talvez seja inevitvel. Mas soubemos lidar com os escndalos anteriores, no foi?
     Sabia que ele s a queria reconfortar. Mas claro, para ele era muito fcil de dizer. Apesar de tudo, era um homem. Era mais fcil para os homens. Os homens 
no eram etiquetados de solteires. Mas sim de garanhes. As alcoviteiras da cidade falariam para sempre nas suas costas de como tinha sido abandonada no altar no 
dia do seu casamento...
     Queria chorar, gritar, atirar-se nos braos de Sebastian e deixar que reconfortasse a sua dor. Como quando era criana. Ele era o nico que curava as suas feridas 
e arranhes.
     Mas esta era uma ferida que ele no podia curar.
     Tinha os olhos to secos que lhe doam. Olhou para ele, mordendo os lbios para conter o pranto. No queria pestanejar, porque se o fizesse, as lgrimas comeariam 
a rolar pelas suas faces. Sebastian procurou no rosto dela, uma e outra vez, e ela perguntou-se se acabaria pe descobrir a ferida do seu corao, o tormento da 
sua alma. Tentava ser corajosa e s-lo-ia. No choraria, pelo menos, no agora.
     Porque haveria tempo depois.
     Sebastian saiu da carruagem e ofereceu-lhe a mo. Julianna aceitou-a, saindo da carruagem tambm. Ao entrar em casa, sentiu o clido beijo do sol sobre a sua 
cabea. Rindo-se dela, insultando-a.
     Tinha perdido tudo, pensou. As suas esperanas de criana, os seus sonhos... queria enrolar-se sobre ela prpria e chorar a sua desgraa.
     Porque acontecera algo que a mudaria para sempre.
     Tinha sido desonrada para sempre.
     
     
Captulo 1
     Primavera, 1818
     Era uma noite perfeita para roubar.
     Por baixo de um espesso carvalho velho, a figura de um homem a cavalo inspeccionava o caminho. Era tarde, e embora um raio prateado tivesse conseguido passar 
pelas nuvens, a noite era to escura e cerrada como as profundezas do inferno. O vento soprava entre as folhas das rvores arrancando-lhes uma solitria e lamentvel 
melodia.
     Era o melhor para dissimular a sua presena. As sombras da noite eram o seu melhor aliado para a misso que o ocupava.
     Vestia-se de preto dos ps  cabea, e uma mascara escura ocultava-lhe o rosto por completo,  excepo do brilho dos seus olhos. Sentado no seu cavalo, Percival, 
parecia um homem habituado a cavalgar durante muito tempo, hirto como uma flecha, incansvel... e com a prudncia de algum que sabe que a sua presena deve passar 
despercebida a todo o custo at que chegue o momento de agir.
     Sob o risco de perder a sua vida.
     E o homem conhecido como Urraca no tinha vontade nenhuma de se encontrar com o seu Criador.
     Percival orientou as suas orelhas e uns dedos negros seguraram as rdeas. Com os joelhos apertados, tentou tranquilizar os movimentos do animal de grande porte. 
Acariciou-lhe suavemente o pescoo.
     - Espera - avisou-o.
     Embora por baixo da pele do cavalo os msculos continuassem duros e tensos, prontos para se pr em movimento, o poderoso animal tranquilizou-se ao sentir a 
mo do seu dono.
     O homem perscrutou na escurido em direco a Este. No era a primeira noite que se transformava em Urraca. E no seria a ultima. No at que conseguisse o 
seu propsito.
     Um leve sorriso apareceu por baixo da mascara de seda negra. Um tremor familiar de nervosismo percorreu as suas veias, a inevitvel excitao do momento. O 
seu corao comeou a bater com fora ao ouvir um som de cascos que se aproximavam e um segundo depois viu a dbil luz de um farol movendo-se ao longe.
     A vtima aproximava-se.
     Esperou para que estivesse visvel, ele no era um homem que se permitisse cometer erros. Nesse momento - diabo, que sorte do diabo! - A lua saiu de trs das 
nuvens. Urraca soltou as rdeas, e os cascos do cavalo pisaram a erva at se colocar no meio do caminho por onde tinha que passar a carruagem.
     O cocheiro, ao v-lo, levantou-se sobre a plataforma e puxou as rdeas para trs. O veculo deteve-se com o tilintar dos arreios e a voz elevada do cocheiro.
     Friamente, Urraca dirigiu as suas pistolas para o centro do peito do homem.
     - Mos para cima e d-me o que tiveres - disse ele duramente.
     
     
     Umas horas antes, Julianna levantava as saias e corria pelo jardim da hospedaria, tentando esquivar-se dos charcos do caminho.
     - Espere! - Gritou.
     Estava claro que o condutor no estava com muita disposio de esperar por ningum. Olhou para ela.
     -  melhor que se apresse, senhora - grunhiu ele. - J  quase noite.
     Noite. Sim, essa era precisamente a palavra do dia. Houve uma pancada quando carregaram o seu ba. Estava determinada a chegar a Bath, se no nessa noite, pelo 
menos na manh seguinte.
     Nada em relao quela viagem tinha corrido bem. Viajar em transporte pblico no estava previsto na agenda. Mas se ainda fosse pouco, tinha perdido a carruagem 
expresso que transportava o correio.
     Sem respirao, Julianna apanhou impulso para subir  carruagem. Acabava de se sentar quando a porta se abriu e o veculo comeou a mover-se.
     Havia trs passageiros no compartimento: uma mulher mais velha, outra com um grande chapu inclinado e um homem junto a ela, que Julianna sups ser o seu marido.
     Julianna ia sentada junto da mais velha.
     - Bom dia a todos. - Disse amavelmente.
     - Bom dia - respondeu a mulher mais velha.
     A outra mulher observou o seu vestido de riscas cinzentas com curiosidade.
     - Viaja sozinha, senhora?
     "Senhora?" Deus, com vinte e sete anos e j tinha comeado a envelhecer?
     -  verdade - respondeu Julianna sem se alterar. - A minha criada e eu amos a caminho de Bath. Acabei de comprar uma casa l, sabe? Mas ontem  tarde ficou 
doente e tivemos que parar para pernoitarmos na hospedaria. Esperava que hoje j estivesse melhor mas, lamentavelmente, no est. Esta tarde j estava claro que 
a pobre Peggy no estaria em condies de viajar para Bath, ento mandei-a voltar para Londres na minha carruagem.
     O facto de ter que viajar sozinha no a incomodava minimamente.
     - Foi muito simptico da sua parte, senhora - disse a outra mulher. - Mas nos no viajamos para to longe e os caminhos no so muito seguros  noite.
     O marido censurou as palavras dela.
     - Letcia! Isso no te diz respeito.
     - No me olhes assim, Charles. Sabes que  verdade! Anda por ai aquele horrvel malfeitor, o Urraca. Pergunto-me o que vir a seguir. Aquele homem sem piedade 
pode muito bem assassinar-nos nas nossas camas! - Deu um olhar de splica  mais velha. - Diga-lhe, me!
     A mulher mais velha agarrou as mos e balanou a cabea.
     -  verdade, Charles. - Disse com os olhos dilatados. - Ai!  um tipo horrvel, aquele Urraca.
     - V? - Letcia olhou para Julianna.
     - Agradeo-lhe a sua preocupao, senhora... - Julianna calou-se de propsito.
     - Chadwick, Leticia e Charles - apressou-se a dizer a mulher. - E a minha me  a senhora Nelson. Ouviu falar dele, no foi? Do Urraca?
     Julianna fez uma careta. Os jornais de Londres estavam cheios de notcias sobre o Urraca: estava a converter-se num bandido muito famoso. Talvez estivesse a 
ser inocente demais, mas na sua opinio, estava-se a exagerar a sua reputao com o objectivo de vender mais jornais. Na realidade, gostava de ter um encontro com 
aquele malfeitor, que tinha ficado famoso depois de ter roubado descaradamente o prprio secretrio do Primeiro-ministro, o conde de Liverpool. Liverpool. Decididamente 
uma faanha arrojada, se no estpida.
     Parecia-lhe bastante improvvel que pudessem ser atacados por semelhante personagem. Aquelas coisas no aconteciam a mulheres da sua condio. Se lhe tivessem 
perguntado, teria descrito a sua vida como desconsolada e ftil.
     Trs anos antes, Sebastian tinha contrado matrimnio e Julianna tivera que sair da residncia familiar. Custara-lhe muito superar a vergonha e o escndalo 
de ser abandonada no altar. Julianna considerava-se uma pessoa realista e sabia que a sua experiencia lhe deixara uma profunda cicatriz. Mas gostava de pensar que, 
pelo menos, se convertera numa pessoa mais sbia. Tinha passado algum tempo a passear pela Europa, temendo o dia em que tivesse que enfrentar a alta sociedade londrina.
     Pequena surpresa tivera ao voltar e descobrir que Sebastian se ia casar!
     Foi ento quando percebeu que era hora de enfrentar a vida com a cabea erguida. No podia continuar a esconder-se, porque isso no a levaria a lado nenhum. 
Os irmos Sterling foram sempre muito unidos, as circunstncias da sua infncia tinham influenciado a isso. O dinheiro que Sebastian lhe dava era o suficiente para 
viver com comodidade, mas tinha feito alguns investimentos por sua conta que lhe tinham permitido comprar uma casa modesta em Londres assim como a sua nova aquisio, 
uma encantadora casa solarenga em Bath.
     Julianna sentia-se orgulhosa dos seus feitos, descobrira nela uma coragem e uma dignidade que nunca pensara que pudesse ter. Tudo comeou naquela longa noite 
em que Thomas e Clarice voltaram de Gretna Green. Entristecido e arrependido, Thomas tinha ido explicar-lhe o sucedido:
     - Sei que o meu casamento com Clarice deve ter sido um trauma para ti. - Disse ele. - No tenho outra desculpa, excepto que... Clarice estava grvida de mim, 
Julianna.
     Espantada, Julianna ficou em silncio enquanto ouvia Thomas relatar como Clarice tinha ido a chorar na noite anterior aquela em que eles - Julianna e Thomas 
- se casassem.
     - No podia fazer outra coisa, Julianna. Clarice e eu somos amigos desde crianas. Deixmo-nos levar por um momento de fraqueza, um momento de solido. Errei, 
eu sei. Mas prometi a mim prprio que nunca o saberias. De facto, tanto Clarice como eu combinmos no continuar a ver-nos. Mas quando veio ter comigo e me confessou 
que estava grvida, no consegui recus-la. A honra e o dever obrigaram-me a fazer o correcto e a casar-me com ela. E foi o que fiz. Arrepender-me-ei at ao fim 
dos meus dias se te magoei, Julianna. Mas fiz o que tinha que fazer.
     "Se te magoei..." sabia que o tinha feito. Sabia que o amava loucamente... honra e dever! Claro, essas eram coisas que Julianna entendia, tanto como os seus 
irmos. Na verdade, foi isso que fez com que Justin no o desafiasse para um duelo. Ah, sim, entendera...
     Mas perdoar-lhe... isso no era to fcil.
     E nunca o esqueceria. Nunca.
     A dor e a amargura tinham desaparecido. Tinham-se reduzido a uma picada aguda no seu corao. Nunca voltaria a ser to estpida, to confiante. Preferia envelhecer 
sozinha a casar-se apenas porque a sociedade assim o exigia.
     Apesar das atrocidades que teve que passar na infncia - o abandono da sua me, a indiferena do seu pai, - Julianna nunca perdera a f no casamento. Uma me 
dedicada, sempre lhe dissera Sebastian, uma esposa doce e carinhosa sempre disposta a cuidar dos outros.
     Devia de ser verdade. Ah, sim, estava na sua natureza ser me e esposa. Talvez tivesse sido o facto de que a sua me os tivesse deixado para fugir com o seu 
amante o que tinha feito crescer em Julianna o desejo de ser tudo o que a sua me no tinha sido. Julianna estava convencida de que toda a srdida pantomima que 
os seus pais tinham vivido reforara a sua ideia que quando se casasse - e sendo criana, nunca duvidara de que no o faria, - f-lo-ia por amor e apenas por amor. 
Ah, sim, aquela necessidade de marido e filhos tinha crescido no seu interior conforme se ia tornado adulta. Desde sempre tinha planeado o dia do seu casamento.
     Mas. Estranhamente, j no lhe doa pensar naquele dia.
     O que mais lhe doa era saber que nunca teria um filho seu. No, no teria filhos.
     Porque no havia marido.
     E aquela dor era o que mais tempo tinha levado a superar... e sabia que a levaria guardado a sete chaves no seu peito at ao final dos tempos. Nunca experimentaria 
a alegria de amamentar um filho... o seu prprio filho. Porque arranjar um marido estava fora do seu alcance, ou para ser mais precisa, for dos seus sonhos. E por 
isso tambm tinha enterrado o desejo de ser me. Porque no era possvel.
     No, j no era to confiante com os outros, j no via apenas bondade naqueles que a rodeavam. E quanto aos "Urracas" que havia no mundo, bom, este tambm 
encontraria o que merecia.
     - Tenho a certeza de que todo o reino j ouviu falar do Urraca. - Respondeu sem lhe dar importncia.
     A senhora Chadwick olhou para ela.
     - No tem medo?
     - Medo de um homem que no conheo, que no consigo ver? - Sorrindo, Julianna abanou a cabea, divertida.
     Tinha ouvido toda a espcie de histrias sobre as faanhas daquele homem nos ltimos dias. A imaginao de um ladro de caminhos fazia-a tremer, mas no de 
medo. Na verdade, se se entregasse s suas fantasias, aquela ideia at lhe parecia romntica!
     - Embora, evidentemente, se aparecesse por esta porta - concordou, - reconheo que pensaria de outra maneira.
     - Ah, mas devia dizer que tem medo. Voc  um pouco valentona. Sem duvida nenhuma, ele ia sentir muito prazer em lhe baixar a vaidade. Isso e muito mais - respondeu 
a senhora Chadwick.
     Julianna levantou as sobrancelhas.
     - Ah, evidentemente - acrescentou a me de Letcia, - as historias que ouvimos... no so para repetir diante de ouvidos educados.
     O senhor Chadwick disse finalmente.
     - Mas que disparates esto a dizer?
     - No so disparates, Charles! - A mulher levantou o queixo. - Nenhuma senhora quereria cair nas suas mos, porque sem dvida, o seu destino seria pior do que 
a morte, e no acredito que precise de dar mais detalhes sobre o assunto! Aquele homem  o diabo em pessoa, at se diz que os olhos dele so como os do diabo, e 
toa a gente sabe.
     A insinuao no passou despercebida a Julianna, que deixou de sorrir.
     At quele momento, tinha desejado um pouco de aventura... no entanto, mordeu a bochecha e reconsiderou o assunto. Apesar de toa a notoriedade que rodeava a 
figura de Urraca, os jornais de Londres no tinham noticiado que assediasse as mulheres.
     A senhora Chadwick esfregou as mos enquanto olhava ansiosamente pela janela.
     - Ai! Espero que o condutor seja rpido. Quero estar em casa antes que anoitea. No me sentirei em segurana at que esteja na minha casinha junto ao fogo 
e com uma boa chvena de ch nas minhas mos.
     Charles Chadwick implorou com os olhos postos no cu.
     - Por amor de Deus, mulher, deixa de choramingar! Se o Urraca nos abordar, por Deus, garanto-te que serei eu prprio que te ponho em cima do cavalo dele para 
que te possa perder de vista!
     A senhora Nelson deu um grito abafado.
     - No te atreverias! - Disse a me. Trespassando com os olhos o seu genro.
     Julianna baixou o olhar, tentando conter as gargalhadas. Os quatro ficaram em silncio.
     Passaram por outras cidades, mas mais ningum subiu ao veculo. J estava a anoitecer quando a carruagem comeou a diminuir a velocidade. Letcia Chadwick j 
estava levantada do seu assento mesmo antes do carro parar diante de uma taberna.
     - Finalmente - quase cantou de emoo. Depois, virou-se para Julianna. - Desejo-lhe que tenha uma viagem em segurana.
     Julianna sorriu como despedida, agradecendo a rabanada de ar fresco que entrou ao abrir-se a porta. Era fresco e puro, sem rasto de p ou de fumo. Pensou que 
era estupendo estar fora de Londres. Tinha tomado a deciso de ir para Bath impulsivamente, mas usufrua da oportunidade de descansar e afastar-se do ritmo frentico 
da temporada, que estava agora no seu pleno apogeu.
     O trio desembarcou. Julianna perguntou-se pelo estado passional do casamento: sem duvida no se encontravam num mar de rosas. Nesse momento, viu que Charles 
Chadwick segurava a sua esposa pelo brao, protector, para cruzar a rua. Letcia olhou para ele, com um leve sorriso nos lbios. Uma dor estranha subiu-lhe pela 
garganta, uma dor assim era...
     Olhou para o outro lado. Nenhum outro passageiro subiu ao veculo pelo que a carruagem no demorou a seguir viagem. O condutor gritou, e continuaram o caminho. 
As rodas agitavam-se e chiavam conforme iam ganhando velocidade.
     No passou muito tempo para que a escurido envolvesse tudo. Deu por si a olhar nervosamente pela janela, observando o lado do caminho para ver se via algo 
atrs de cada arvore e arbusto. Depressa se comeou a sentir enjoada. Ah, que estupidez, assustar-se daquela maneira pelos comentrios dos Chadwick!
     Tentou descontrair-se. Por fim, com o movimento montono da carruagem foi adormecendo. O balano do carro fez com que os seus olhos se fechasse, pouco depois.
     O que se lembrava depois era de sentir como batia contra o cho. Acordada, abriu os olhos e tocou no ombro sobre o qual cara. Que diabo...? O pnico f-la 
tremer; estava tudo negro dentro da carruagem.
     E fora dela tambm.
     Ia a levantar-se de novo e sentar-se nas almofadas quando um som de vozes masculinas chamou a sua ateno. O condutor... e mais algum.
     - Baixe a arma, pe... peo-lhe! - Gaguejou o condutor. - No h nada de valor a bordo, juro-lhe. Tenha piedade - balbuciou o homem, - imploro-lhe, tenha piedade!
     Um formigueiro passou pela sua espinha dorsal. A porta abriu-se e deparou-se com os canos brilhantes de duas pistolas. Ergueu os olhos e encontrou-se com os 
do homem que as segurava.
     Os olhos eram a sua nica parte visvel na cara. At na escurido, no havia possibilidade de confundir a cor. Brilhavam como o fogo cintilante e dourado, um 
fogo do outro mundo.
      Os olhos do diabo
     - Ento no tem nada de valor, no ?
     Uma corrente de ar frio inundou o interior da carruagem. Mas nada comparado com o frio que sentiu ao ouvir aquela voz... suavemente poderosa, como se o ao 
rasgasse um tecido de seda, pensou aturdida.
     Ela sempre detestara as mulheres atarantadas e frgeis. Contudo, quando ele ps os olhos nela - em toda ela, atrevido e irreverente! - Sentiu que ia morrer 
ali mesmo.
     Ficou com pele de galinha. No se conseguia mexer, muito menos falar. Nem sequer conseguia engolir para desfazer o n que lhe asfixiava a garganta. O medo impedia-a 
de pensar. Tinha a boca seca. A nica coisa que conseguia pensar, era em que se a senhora Chadwick ali estivesse, sentir-se-ia muito satisfeita consigo prpria ao 
ver que os seus medos eram verdadeiros. Porque por algum motivo Julianna teve a certeza de que era ele...
     O Urraca.

Captulo 2
     Dane Quincy Granville no contava com a reaco do cocheiro; muito menos com a sua audcia. Ouviu-se o som de um chicote e um grito desvairado. Os cavalos saltaram. 
De forma instintiva, Dane saltou para trs, e quase caiu ao cho. O veculo saiu disparado para uma curva no caminho.
     Que estpido! O cocheiro no conseguiria nunca fazer aquela curva. Era demasiado apertada, ia depressa demais...
     A noite explodiu. Houve um estrondo terrvel, o som da madeira a chiar e a partir-se... o grito desvairado dos cavalos. Depois, nada.
     Dane recuperou-se do espanto no mesmo instante e correu para Percival. Chegou a cavalgar ao lugar por onde tinha desaparecido a carruagem e puxou pelo lombo 
do cavalo para poder descer a p pela ribanceira. Afastando os ramos dos arbustos, parou a uns metros para observar o veculo. Tinha dado a volta e descansava contra 
o tronco de uma velha arvore.
     Uma das rodas ainda continuava a girar quando ali chegou.
     Os cavalos estavam mortos. O condutor tambm. Tinham o pescoo partido e o do condutor estava torcido formando um ngulo estranho com o corpo. Dane viu-lhe 
o pulso, mas j tinha visto mortes suficientes na sua vida para saber que era tarde demais.
     Milagrosamente, a porta do compartimento mantinha-se enganchada nas dobradias. Furioso, Dane retirou-a e olhou para o interior.
     A moa continuava ali, enrolada numa bola no tecto. Com o corao apertado, aproximou-se dela e levantou-a nos seus braos para a levar para fora.
     O corao batia-lhe com fora ao ajoelhar-se no chao molhado. Observou-a preocupado.
     - Acorde! - Gritou-lhe, como se a sua vontade bastasse para... apertou os dentes, tentando espalhar com a sua lama, a sua prpria vida nela.
     A cabea caa-lhe sem foras sobre o ombro.
     - Diabo, mulher, acorde!
     Sentiu uma dor intensa no centro do estmago. Se o condutor no tivesse perdido a cabea daquela maneira. Se no tivesse sido to estpido! No os teria ferido, 
a nenhum deles. No campo de batalha de Bruxelas tinha visto tantos mortos que o horrorizava ver mais algum. Deus sabia que aquilo lhe tinha mudado a forma de ver 
as coisas, de enfrentar a vida. E agora, tudo o que queria era...
     A mulher deixou escapar um fraco gemido.
     Uma estranha gargalhada saiu do peito dele, um som quase quebradio. Embora tivesse imaginado muitas vezes que isto podia acontecer...
     Mas aqui no poderia ver as feridas dela. Estava demasiado escuro. Devia partir. Agora. No se podia permitir ficar muito tempo naquele lugar, porque se o descobrissem, 
tudo teria sido em vo.
     A jovem no despertou enquanto revirava a carruagem para tirar uma maleta e uma bolsa. Uns segundos mais tarde chamou Percival com um assobio. Com a moa nos 
braos, agarrou as rdeas e cavalgou na noite.
     Veloz como tinha aparecido, Urraca desapareceu entre as sombras.
     
     Continuava inconsciente enaqunto ele a levava aos ombros para uma pequena cabana. Os seus passos eram to seguros na escurido como  luz do dia. Entrou em 
casa e deixou a moa na cama situada ao fundo da diviso.
     Reacendeu o fogo com rapidez e depois voltou para onde ela estava. As suas mos deslizaram com movimentos peritos ao longo todo o corpo dela, procurando algum 
osso partido.
     Tinha uns quantos golpes e arranhes. A ferida pior parecia ser um feio cote na cabea. Nessa zona a pele estava rouxa e esfarrapada. Ao apalp-la com os dedos, 
a mulher estremeceu de dor. Dane foi buscar uma tigela de gua quente e vrios panos de linho. Voltou para a cama e limpou a ferida, percorrendo o corpo da moa 
com os olhos enquanto trabalhava.
     Os seus pensamentos eram contraditrios. No demorou muito em reconsiderar a primeira impresso. A mulher que jazia na cama era jovem, embora no demasiado. 
O seu corpo era leve, os ombros estreitos. Devia pesar pouco mais do que uma criana, pensou distrado, mas embora tivesse um corpo delicado, j no era uma criana, 
decidiu com um sorriso sombrio. Usava um vestido de seda s riscas, abotoado at ao queixo. Um tecido caro e um gosto caro, suspeitou. Tanto a sua roupa como a delicadeza 
das suas feies indicavam que era uma mulher rica e priveligiada, uma senhora de bem. Impaciente, desapertou os botes. Como  que as mulheres conseguiam respirar 
com semelhante vestimenta?
     Centrou-se no seu rosto. O ponto do seu queixo, embora delicado, delatava um temperamento muito decidido. Um temperamento que no lhe podi falhar, pensou. Suspeitou 
que teria uns olhos maravilhosas, e desejou v-los abertos. Podia ver cada pestana, espessa e negra, descansando sobre a curva das suas faces. Perguntou-se de que 
cor seriam. Azuis, decidiu, j que a sua pele era da cor mais pura do marfim. Havia uma qualidade de magia na forma do seu rosto, na inclinao das sobrancelhas. 
Tinha perdido o chapu. O cabelo caa despenteado pelos ombros estreitos, uma cabeleira abundante e de cor castanha.
     Dane revirou os olhos para se concentrar nos seus pensamentos. Que diabo fazia uma mulher como ela a viajar sozinha, sem criada nem dama de companhia? No momento 
em que a pergunta cruzou a sua mente, deparou-se a examinar-lhe a mo.
     No usava anel, nem de casada nem de comprometida.
     O que s podia significar que no havia marido nem noivo que sperasse.
     Dane sabia muito bem que se algum tivesse podido ver a sua expresso, no teria visto outra coisa seno indiferena. Contudo, internamente, os sentimentos 
eram outros. Uma convico ia amadurecendo no seu interior, um aperto subtil nas suas entranhas, embora a sua mente se mantivesse curiosamente alheia. O seu corpo 
era pouco exuberante, a boca, por sua vez, ah!... No era o tipo de mulher que costumava gostar. Quando tocava numa mulher, queria saber que o era. Gostava das curvas 
quentes e maduras, a exuberncia feminina ds mos. Esta - fosse quem fosse - era pequena demais, leve demais. Na verdade, pensou medindo inconscientemente o comprimento 
do belo pescoo, estava quase esqueltica. Ento, porqu aquela estranha e perturbadora sensao na parte inferior do seu ventre?
     Surpreendeu-se ao perceber de que estava a agarrar a mo dela: nem sequer se lembarava de a ter agarrado! Deixou-a cair como se o queimasse e, nesse mesmo instante, 
viu-se a cobrir-lhe os ombros com uma manta.
     No foi apenas o seu comportamento que achou estranho.
     Uma bola peluda e suave subiu sem esforo para a cama e enroscou-se aos ps da moa. Dane elevou as sobrancelhas surpreendido, ao ver que o gto que o ignorava 
e ronronava com prazer junto da desconhecida.
     - Maximilian, pequeno traidor! O que  isso? Tenho que te lembrar que esta criatura  uma estranha e tu sempre desprezaste os estranhos. Na realidade, pensava 
que desprezavas toda a gente menos a mim.
     O gato miou com os seus grandes e oblquos olhos verdes.
     Dane suspirou.
     - Est bem, est bem. Admito. - Disse Dane em voz alta. -  muito bonita... ainda que, pensando bem... sim,  muito atraente.
     O ronronar do gato tornou-se mais intenso. Dane agarrou nele e colocou-o nas costas com um sorriso nos labios.
     Instantaneamente, o seu sorriso desvaneceu-se e a sua expresso ficou preocupada. A mulher continuava sem se mexer. Continuava em silncio. Ateriormente, tinha 
visto feridas na cabea. Podia acontecer que nunca despertasse.
     E se assim fosse... o que faria ento? Isso complicaria muito as coisas.
     No queria que ela morresse. No queria que ningum morresse! Mas Dane no se sentia nada agradecido pelo facto de o destino a ter cruzado no seu caminho. A 
presena dela era uma complicao insperada e, evidentemente, nada bem vinda. Suspirou. No podia fazer nada par mudar o facto de ela estar ali. No, no podia mudar 
nada.
     Maximilian olhou para ele, esticando-se, e colocou-se sobre os seus ombros.
     Dane levantou o brao para lhe coar o pescoo.
     - A nica coisa que podemos fazer  esperar, no , meu amigo?
     Esticando o seu corpo ao longo das costs de Dane, Maximilian ronronou como nico sinal de acordo.
     
     Quase ao mesmo tempo, Julianna mexeu-se. Algum sentido inato que ela desconhecia enviou picadas de alarme por toda a sua pele. Havia algo errado. Sentia a cabea 
como se a tivessem duplicado de tamanho. No se queria mexer, porque era como se tivessem enchido os seus membros de chumbo. Mas havia algo mole por baixo dela. 
Estava numa cama, descobriu, e algo a cobria e a mantinha quente. Tentou abrir primeiro um olho e depois o outro, e descobriu que estava rodeada de sombras. Depressa 
lamentou ter-se tentado mover, porque ao faz-lo foi como sentir uma lmina de uma faca na cabea. Abafando um grito, ficou outra vez imvel. Que raio...?
     Pouco a pouco, reviveu a cena do caminho. As suas memrias vinham de forma muita lenta, quase martirizante, como se avanassem penosamente sobre areia molhada. 
O brilho das pistolas passou pelos seus olhos. Recordou o movimento inesperado da carruagem, como tinha tentado levantar as mos para se segurar...
     E depois nada.
     Mas agora estava aqui, naquele lugar estranho.
     E ele tambm estava: Urraca.
     A olhar apara ela.
     Quase podia sentir como se eriava o cabelo na sua nuca e uma gota de suor caa pelo seu lbio superior. Esforou-se por ver alguma coisa atravs da escurido 
que cobria tudo. Nem sequer havia uma vela que enchesse o vazio, apenas a tnue luz das brasas moribundas da fogueira. Julianna ficou paralizada. Duas coisas revelaram-se-lhe 
no espao de um segundo. Havia algo estranho na sua silhueta, percebeu. Os ombros eram estranhos e disformes... por amor de Deus, tinha uma corcunda!
     Isso... e o facto de j no ter a mscara.
     Fez-se-lhe um n no estmago. Sem se mover, tentou v-lo com mais clareza. Maldio, no conseguia distinguir seno o perfil do seu nariz, a curva pronunciada 
das sobrancelhas. Era como se a diviso fizesse parte de um pesadelo, como se ele estivesse no seu pesadelo. A sua mente parecia capaz de registar apenas a escurido 
e as sombras, sombras que pareciam ondular e partir-se em cada esquina, rodeando-o como se o pretogessem. De facto, era como se nvoa a envolvesse, escura e impenetrvel.
     Por baixo de umas cobrancelhas negras e espessas, os olhos dele brilhavam na escurido, dourados e luminosos; os olhos do diabo, os olhos do demnio, como tinha 
dito a senhora Chadwick.
     Ento deu um passo em direco a ela.
     Um ar frio percorreu-lhe as costas ao sentir o escrutnio dos olhos dele. O ritmo atordoante da sua cabea igualava o do corao. Os seus pensamentos retorciam-se 
como os ramos das rvores no bosque. Ele inclinou-se sobre ela como um monstro negro.
     - Ento j est acordada, senhora.
     "Senhora. No sua senhora", pensou Julianna. Abriu os lbios, preparando-se para lhe dizer exactamente o que era, mas notou a sua lngua pesada e dormente.
     - No tente falar - disse-lhe uma voz suave, baixa, at melodiosa. - Tem um grande golpe. De facto, caiu e bateu como uma bola num jogo de crianas.
     Amabilidade? Conselhos? De um ladro de caminhos?
     - V para o inferno - ouviu-se a murmurar.
     E pagou por isso. Ai, como pagou por isso! A dor passou de um lado da cabea para o outro e voltou. Conteve um gemido. Sentia-se fria e hmida, enjoada.
     - Nobres palavras, senhora. Mas acho que voc sabe pouco sobre o inferno.
     Queria discutir, mas de repente Julianna no encontrou nem a fora nem a forma de o fazer. Fechou os olhos com fora e sentiu como o mundo se desvanecia ao 
seu redor. A escurido e a confuso enrolavam-se l fora. Sentiu como caa no esquecimento outra vez. Lutou contra ele, mas foi intil. Num canto remoto e longnquo 
sentiu que a cama se afundava...
     - No - o suave protesto foi seu.
     - No se preocupe, no lhe fao mal.
     Tentou falar novamente. Tentou com todas as suas foras. Mas o seu corpo, a sua mente, negavam-se a obedecer-lhe. E ento, o duro e pesado corpo daquele homem 
tombou unto a ela. Uma parte dela estava horrorizada. No conseguiu evitar de recordar o que a senhora Chadwick tinha dito. " muito capaz de nos assassinar a todos 
nas nossas camas." Isto no podia estar a acontecer, decidiu confusamente. Ela - uma solteira honrada - no podia estar deitada numa cama junto a um homem... e no 
era um homem qualquer. Era um famoso malfeitor.
     Um corcunda, pensou com um arrepio.
     Devia de ser um sonho. Ou melhor, um pesadelo! Quando acordasse, tinha a certeza de que ele teria desaparecido.
     
     Ao despertar, viu que a luz do sol inundava tudo. Os raios dourados faziam com que tudo parecese mais acolhedor, e aquela sensao tranquilizou-a. Com cuidado, 
experimentou mexer a cabea. Desta vez no lhe doeu. Pelo que arriscou abrir os olhos.
     Nesse momento ouviu o chpinhar de gua. Seguiu com o olhar o som. Urraca estava de p junto a um lavatrio, vestido apenas da cintura para baixo. Tinha a cabea 
baixa e os msculos dos seus braos definiam-se provocantes ao apoiar-se na mesa.
     A boca de Julianna ficou seca ao ver o peito nu. Devia ter estado a sonhar na noite anterior, porque no havia nada disforme no seu corpo, nem um pedao de 
imperfeio. Nao, reafirmou-se debilmente, no havia corcunda que ofendesse os seus olhos ou a sua sensibilidade. A verdade  que no havia nada na figura dele que 
no fosse perfeito. Cada palmo dele era belo e slido, musculoso e forte. Entre a mata encaracolada e escura do plo do seu peito, as gotas de gua brilhavam como 
pequenas pedras preciosas.
     Como se sentisse o olhar, ele levantou a cabea lentamente.
     Os olhos deles encontraram-se pela primeira vez.
     Veio-lhe  cabea que o cabelo escuro era demasiado comprido para a moda.e aqueles olhos que tinha comparado com os do demnio era agora de cor de avel, to 
brilhantes que pareciam de ouro.
     Nesse instante, Julianna tremeu. No tinha a certeza do que era mais perturbador, se v-lo meio nu ou saber que aquele homem tinha dormido junto a ela toda 
a noite. Ainda que lhe custasse o seu orgulho, no afastou os olhos dele.
     Ao falar, a voz dele foi como o whisky escocs que o seu irmo Sebastian bebia, seco mas coberto de um toque de suavidade.
     - Bom dia.
     - Bom - sussurrou ele com uma sobrancelha arqueada, - fez uma boa sesta. Tanto assim , que tinha medo que no acordasse.
     Julianna no disse nada, limtando-se a olhar para ele enquanto se sentava na cama.
     - Imagino que teria ficado contente se no tivesse voltado a acordar.
     - Porque diz isso?
     - Vi a sua cara. - A afirmao saiu da sua boca sem pensar, de forma espontnea.
     Ele ficou em silncio durante um bom tempo. Quando falou, a sua voz foi to dbil como estremecedora.
     -  verdade;  verdade.
     Julianna observou-o tentando decifrar a sua expresso. Uma tarefa impossvel.
     - Suponho que continue a doer-lhe a cabea. Deu uma grande pancada.
     A mo de Julianna tocou automaticamente a parte de trs da sua cabea. Descobriu um grande galo que a fez estremecer de dor.
     Ele ergueu as sobrancelhas.
     - Achou que eu lhe estava a mentir?
     Julianna olhou para ele com um olhar que tentava ser superior.
     - No sou mentiroso, sabe?
     - Como? Voc  um ladro de caminhos, senhor. Suspeito que  muitas coisas, todas elas desprezveis.
     - Ah, ento voltou a ficar mal-humorada, estou enganado?
     Julianna levantou o queixo.
     - Onde est o cocheiro? - Perguntou. - Prendeu-o aqui tambm?
     Algo passou pelo rosto dele, algo que a fez sentir frio nas entranhas.
     - Ele partiu. - Limitou-se ele a dizer.
     - Partiu? - Repetiu Julianna. - O que quer dizer?
     Ele olhou-a fixamente.
     Os lbios dela abriram-se.
     - o qu? Disse ela debilmente. - Quer dizer que est... morto?
     - Sim.
     Julianna dilatou os olhos. A sua expresso revelava tudo o que as palavras no podiam dizer.
     - Eu... santo Deus, quer dizer que voc... voc... - no conseguia completar o que pensava.
     Ele entendeu-a perfeitamente.
     - Eu no lhe fiz nada. - Disse ele debilmente enquanto vestia a camisa. - J estava morto quando cheguei junto dele.
     - Ah. - Julianna desviou o olhar. Os seus olhos encheram-se de lgrimas, mas conseguiu cont-las antes que ele as pudesse ver.
     Por baixo das mantas, algo se esfregou contra as suas pernas. Algo que no conseguia ver. Com um grito, saltou da cama.
     - H ratos!
     Ele segurou-a para que no tentasse sair dal a correr.
     -  s o Maximilian.
     - Como? Deu-lhe nome? - Ela estava confusa.
     Para sua surpresa, deitou a cabea para trs e desatou a rir com um som baixo que era estranhamente reconfortante... coisa que ainda a confundiu mais.
     Com um movimento do queixo, ele assinalou a cama que ela acabava de deixar vazia.
     - Olhe - disse ele.
     Julianna olhou para trs e viu uma cabea negra brilhante e duas orelhas erguidas que saam debaixo das mantas. Depois seguiu-se um corpo peludo e comprido. 
Um gato, pensou divertida, sentindo-se primeiro espantada e depois como uma verdadeira estpida. Uns olhos verdes observavam-na com curiosidade. O animal inclinou 
a cabea para um lado, como se estivesse a perguntar-lhe alguma coisa.
     - Apresento-lhe o Maximilian - disse o ladro. - Parece que gosta de si, coisa que verdadeiramente me surpreende. Geralmente, o Maximilian  uma criatura de 
gostos exigentes.
     - Claro, se gosta de si - replicou Julianna.
     - Ah, rapariga descarada.
     - Rapariga! - Julianna soprou. Nunca na sua vida lhe tinham chamado rapariga. Ningum se atrevia afaz-lo! Que ele se tivesse atrevido, punha-a furiosa. Julianna 
suspirou profundamente e preparou-se para lhe responder da forma mais mordaz.
     No entanto, reparou em duas coisas. Para comear, que continuava agarrada a ele, de facto estava abraada a ele da forma mais indecente! Em segundo lugar, a 
sensao que experimentava ao sentir a sua pele por baixo dos seus dedos era embaraosa.
     De repente, sentiu que a temperatura dele subia uns graus e que se lhe endurecia a parte inferor do abdmen.
     Tentou afastar-se, mas aparentemente, parecia que ele tinha outras intenes.
     Agarrou-a com mais fora e abanou ligeiramente a cabea. A presso no a magoava, mas Julianna conseguia sentir as mos fortes e masculinas sobre os seus ombros.
     - Ia sozinha na carruagem - disse ele bruscamente. - Porqu?
     Julianna olhou para ele directamente nos olhos.
     - Tenho uma idade, senhor, que j no preciso de uma dama de companhia.
     - E viaja sempre sem criada?
     - A minha craida ficou doente, pelo que a mandei de volta para Londres.
     - E para onde ia?
     Julianna levantou o queixo.
     - Para Bath - disse ela sem se alterar, - para minha casa.
     - Quem  que est  sua espera? - Lanava as perguntas umas atrs das outras como um peloto de fusilamento.
     - O meu marido. - Respondeu ela depressa.
     Ele revirou os olhos. Antes que o pudesse deter, agarrou-lhe o pulso e levantou a mo dela.
     - No usa anel, nem nunca o usou. - Observou-a tranquilamente. - Voc, senhora, no  casada nem comprometida.
     Ela olhou para ele consternada. Ele estava enganado, pensou. Uma vez tinha usado o anel de noivado de Thomas...
     - Pergunto uma vez mais. Quem  que a espera?
     O pnico apoderou-se dela. Julianna tentou disfar-lo.
     - J disse, o meu mari...
     - Minha querida senhora - olhou para ela propositadamente, - sou um homem de instintos. No  em vo que a minha prpria vida depende disso! A minha vida depende 
do que possa ler no rosto das pessoas... e o que leio no seu  que voc  uma mentirosa. O meu instinto diz-me que ningum est  sua espera. Sendo assim, peo-lhe 
que no me insulte tentando enganar-me.
     Julianna sentiu-se como se um peso enorme lhe oprimisse o peito, por todos os santos, ele tinha razo. Peggy pensaria certamente que j tinha chegado a Bath. 
Os criados de Bath no esperavam por ela. Se algum dos seus irmos a fosse visitar ou perguntassem por ela aos seus chegados, ele diriam que estava em Bath.
     Ningum sabia onde estava. Ningum.
     - Como se chama?
     Julianna abriu a boca. O seu primeiro impuldo foi dizer-lhe que o seu irmo era o marqus de Thurston. Mas reconsiderou o assunto. Se soubesse o seu verdadeiro 
nome, poderia pedir o resgate facilmente. Ao mesmo tempo, poderia mat-la enquanto o conseguia.
     Ainda que a sua mente pensasse com rapidez, manteve-se surpreendentemente tranquila, at corajosa, ao responder.
     - Sou a menina Julianna Clare. - Era verdade. Omitiu o apelido deliberadamente. Conteve a respirao e esforou-se em olh-lo nos olhos. No era tonta. Se afastasse 
o olhar, ele veria como um sinal de que estava a mentir.
     - E o seu, senhor? Como se chama?
     A resposta dele foi muito mais curta do que a dela. Ainda no lhe tinha soltado a mo, mas preferiu fazer uma pequena vnia aproveitando que a segurava entre 
as dele. Urraca era educado! No sabia muito bem se se sentia insultada ou impressionada.
     Pode chamar-me Dane.
     Nenhum dos dois conseguiu enganar o outro. Julianna tinha a certeza de que a omisso do seu apelido tinha sido propositada.
     Ele ergueu-se completamente. Outro movimento propositado, suspeitou. Apesar da sua determinao de no parecer covarde, havia uma repentina perspiccia no seu 
olhar que a fez deter. Havia algo pouco refinado e dscontrolado naquele homem, algo que de repente fez com se secasse a boca e com que o seu corao batesse rapidamente.
     Julianna ergueu os olhos - durante o que lhe pareceu uma eternidade - at que sentiu que o pescoo se ia partir pelo esforo. Encontrar um homem to alto como 
os seus irmos era bastante raro. Lutar no serviria de nada. Era um homem grande e forte, um homem com todas as letras. quela distncia, at parecia mais imponente 
do que lhe tinha parecido na noite anterior com a mscara e as pistolas. As suas feies eram brutalmente atraentes, a sua mandibula pronunciada, o nariz esculpido 
em perfeita sintonia com os ossos das suas faces. Era viril demais para ser lindo, um artista teria tentado suavizar aquelas feies inflexveis. Mas de alguma maneira, 
a rigidez do seu rosto colavam perfeitamente com a generosidade dos seus olhos, de cor dourado brilhante, contornados por umas pestanas escuras e densas.
     A sua reaco para com ele era intensa. Ele era intenso. Mas, de repente, ficaram espessamente enevoados: escuros e impenetrveis. Fizeram-na tremer.
     Pensou nele com renovada precauo. Apesar de tudo, era um perigoso malfeitor. Um demnio. Pelo que sabia, um violador de mulheres
     Para piorar as coisas, ele sorriu lentamente, como se lhe estivesse a ler o pensamento.
     - O que vai fazer comigo? - Perguntou ela friamente.
     Ele elevou uma sobrancelha.
     - Uma boa pergunta - parecia divertido. - No sei, entende? Vou aceitar as rdeas.
     Julianna no conseguiu evitar. Ainda que se tivesse dito a si prpria que no se humilharia, que no seria uma covarde, no conseguiu evitar em ficar plida.
     - Sim - disse ele suavemente. - Vejo que entendeu o "xis" da situao. O que vou fazer congigo? No a posso deixar ir embora, no acha? - Abanou a cabea. - 
E, contudo, no gosto da palavra "refm".
     Julianna sentiu um calafrio nas costas.
     - Prefere a palavra "prisioneiro"? As duas significam o mesmo, no acha?
     - Suponho que sim. - Acariciou-lhe o queixo, como se stivesse a reflectir sobre o assunto. - Consideremos que voc ... minha convidada. Sim, minha convidada.
     - Se fosse sua convidada - observou Julianna friamente, - podia ir embora quando eu quisesse. No entanto, no posso, no ?
     Algo passou no rosto dele, algo que no conseguia decifrar. Mas tinha a certeza de que no era um sentimento de culpa.
     - No - disse ele depois de um momento. Parecia como se se arrependesse de lhe dizer, ainda que sorrisse ligeiramente ao diz-lo.
     Ah! Estava a comportar-se como um pretensioso? Julianna comeou a sentir-se inexplicavelmente furiosa, mais furiosa do que tinha estado em toda a sua vida, 
ao ver que tentava brincar com ela.
     Sem hesitar, deu um passo para o rodear, e encaminhou-se para a porta de sada.
     O sorriso dele ficou mais claro.
     - Onde diabos acha que vai? - Seguiu-a para a deter. Julianna desfez-se dele e chegou  porta. Embora rpida, ele era mais e agarrou-a por trs fazendo-a virar 
sobre os seus passos.
     Mas Julianna estava fora de controlo. Lutou com todas as suas foras, balanando os braos selvagemmente. Ouviu uma pancada surda ao bater com o cotovelo em 
algo slido. O formigueiro era insuportvel, mas no lhe prestou ateno. A maldio que ressova em cima da sua cabea no fez seno afianar a sua determinao 
em bater-lhe de novo.
     Foi impossvel. O que soube a seguir era que caa sobre um colcho. Abafou um grito ao ver que um longo e duro corpo a seguia para baixo. Ficara em cima dela, 
pelo amor de Deus!
     Vencida, mas no derrubada. Presa pelo peso do corpo dele e uns fortes dedos enrolados na sua cintura, pensou na hiptese de lhe cuspir na cara, um estratagema 
que nunca na sua vida teria usado!
     Sobre ela, o malfeitor, Dane, apertou os dentes.
     - Nem penses - preveniu-a.
     - Maldito pervertido! - Vociferou ela com um arrogncia que nunca teria pensado que fosse capaz. - No h-de vencer! Ho-de apanh-lo e enforc-lo. Vo mat-lo 
e depois cortam-no s rodelas. As autoridades apanharo o seu corpo e...
     - j terminou? - Perguntou ele.
     Ela observou com satisfao o corte que ele tinha debaixo do olho. Sem dvida, pensou, ele no se mostraria to presunoso a partir de agora.
     - No...
     - Ah, claro que sim. Meu Deus, voc  uma harpia. Uma gata selvagem.
     - Como se atreve!
     Continuou como se ela no tivesse dito nada.
     - Deus,  uma pequena chupadora de sangue, no  verdade? E pensar que a primeira vez que a vi, pensei que era uma senhora distinta e gentil. Mas agora comeo 
a ver porque  que voc est solteira.
     -  preciso insultar-me?
     Uns olhos dourados e frios olharam-na fixamente.
     - No  um insulto,  a realidade. E agora que tenho toda a sua ateno, parece-me justo que lhe diga, gatinha...
     - No me chame assim!
     Ele abanou a cabea.
     - No  inteligente subestimar o inimigo, gatinha, e creio que devia ter em conta o meu conselho. Tenho mais experiencia do que voc nestes assuntos.
     - No me diga?
     Dane sorriu, embora no de uma forma perticularmente bondosa.
     - Sou um ladro. Um foragido. Um homem procurado pela Coroa. No pode adivinhar o que vou fazer a seguir, pois no?
     Julianna respirou fundo. Comeava a ter frio.
     - No me vai magoar.
     - O que a faz ter tanta certeza? Lembre-se de que viu a minha cara.
     Julianna no gostou que lhe lembrasse.
     - Trouxe-me para aqui - disse com muito mais segurana do que na realidade sentia, - podia ter-me deixado na carruagem. E embora gostasse de poder dizer outra 
coisa, no tenho nada de valor comigo, salvo o colar que uso. Nem jias, nem...
     - Talvez a tenha trazido para aqui por outra razo.
     - Que razo? - Percebeu tarde demais o quanto era estpida aquela pergunta. Tinha sido uma estpida por no ter considerado essa possibilidade, pelo menos no 
seriamente.
     Aparentemente, ele tinha-o feito. Ou pelo menos, fazia-o agora.
     Viu como ele olhava para o pescoo da forma mais irreverente, Julianna respirou com dificuldade ao descobrir que a sua ateno no estava na renda do seu vestido. 
Olhou para baixo e surprendeu-se ao ver a sua prpria pele; na luta, o decote do vestido tinha-se movido e os seus seios apareciam agora quase a descoberto. Tentou 
tapar-se, mas ele segurava-a com fora e no deixava que se mexesse.
     - Talvez a tenha trazido para aqui para o meu prprio... - fez uma pausa significativa, com uma expresso de desfaatez - divertimento. Apesar de tudo, estamos 
sozinhos nesta cabana, gatinha, s tu e eu.
     Julianna ficou sem respirao. Ficou com um n na garganta. O ar no lhe entrava nos pulmes. Ficou branca e apertou os lbios para que no tremessem.
     Que estpida tinha sido! Era verdade que tinha desejado um pouco de aventura? Agora a nica coisa que desejava era engolir as suas palavras.
     Mas se o que ele queria era amedront-la, no o conseguiria. Os seu orgulho era mais forte. Engoliu dolorosamente.
     - Se essa era a sua inteno, faa o que quiser. No vou resistir. - Disse ela com bastante dignidade. - Mas tambm deve saber que no sentirei prazer nisso.
     Algo passou pelo seu rosto.
     - Voc  muito corajosa. Ainda que no tenha de se preocupar. No a condenarei a um destino pior do que a morte. A sua virtude est a salvo... pelo menos por 
enquanto. Noutra ocasio, talvez. De momento, tenho outras coisas com que me preocupar.
     Estava a rir-se dela. Estava a mago-la. Mas deixou-a ir e, ao faz-lo, um tremor glido atravessou-a. No instante em que ficou livre, Julianna colou-se  cabeceira 
da cama, o mais longe possvel dele.
     Ele vestiu uma camisa e moveu-se para apanhar um trapo negro de um prego da parede, assim como uma mscara de seda negra... a mesma indumentria da noite anterior, 
pensou Julianna. Dobrou-os cuidadosamente e colocou-os numa pequena bolsa, e puxou o cordo com fora para a fechar.
     - Vai sair? - Perguntou ela. Com os joelhos dobrados pelo peito, observava-o com curiosidade.
     - Ah, no se preocupe. - Disse ele suavemente. - Eu volto, prometo.
     - Como? Vai assaltar mais carruagens? Vai sequestrar mais mulheres?
      - Creio que no. A cama ficaria concorrida demais com trs, no lhe parece? No entanto, a ideia merece pelo menos uma considerao.
     Conseguiria ver o rubor nas suas faces? Tinha a embaraosa sensao de que sim, e que alm dissi estava a desfrutar com ele.
     - Voc  desprezvel. - O tom de voz era de acordo com o sua amargura.
     - J me tinha dito isso. - Disse ele.
      - E no tenho inteno de dormir consigo nesta cama.
     Ele sorriu com maldade.
     - Dormiu comigo esta noite, gatinha. - Aquele tom sedoso era to embaraoso como inquietante.
     - E no o farei de novo! - Replicou ela acalorada.
     Ele riu-se, o patife!
     - A sua indignao  muito moralista! Pelo seu comportamento dir-se-ia que era a primeira vez que partilha a cama com um homem.
     Julianna no tinha vontade de responder a um comentrio como aquele. Mas ficou sem ar quando ele voltou a aproximar-se dela. Era tudo o que podia fazer para 
no saltar da cama. Milagrosamente, manteve-se firme.
     Ele teria sorrido? Estava a rir-se dela? Com aquela indignante e estranha expresso, inclinou-se sobre ela.
     - Deve ficar a saber que estamos no meio do bosque, muito longe da povoao mais prxima. E no, no tenho inteno de lhe dizer onde estamos. Pode gritar quanto 
quiser, porque no lhe servir de nada. Ningum a pode ouvir, entende? - Tocou-lhe no nariz. - E agora, adieu, minha pequena gata selvagem.
     Ela retirou-lhe a mo violentamente.
     - Deixe de me chamar assim!
     Com arrogncia, ele encaminhou-se para a porta. Ah, no podia ser menos! Era um bruto arrogante! Julianna ainda no tinha acabdo com ele.
     - No se surpreenda se no estiver aqui quando voltar! - Espetou-lhe.
     Ele deteve-se. Virou-se lentamente, com uma sobrancelha arqueada. Parecia que se divertia com a situao.
     - Talvez o golpe na cabea lhe tenha afectado o ouvido. Vou dizer mais uma vez, no h forma de fugir daqui. E embora no queria ter que a prender, f-lo-ei 
se essa for a nica forma de a convencer. Juro, no entanto, que seria muito desagradvel.
     - No se atreveria - disse ela com toda a arrogncia de que era capaz.
     O sorriso dele desvaneceu-se.
     - No? No vai sair daqui, gatinha, e farei o que for preciso para o evitar. Quanto mais depressa se convencer disso, melhor ser para os dois. Tem que entender 
que a pacincia de qualquer homem tem um limite, e a minha pacincia tem. No me ponha  prova, porque vai arrepender-se.
     As palavras dele foram claras e directas, a violncia arrogante e o tom de voz no dava margem para erros. Virou-lhe as costas, abriu a porta e desapareceu, 
fechando a porta atrs dele com fora. O que ouviu a seguir foi uma chave a girar na fechadura.
     Julianna abafou um grito e encolheu-se junto da parede, com o corpo a tremer como se fosse gelatina. Se estivesse em p, teria cado ali mesmo, porque as suas 
pernas continuavam a tremer! Aquele sabor cido do medo na sua boca era desconhecido.
     Tinha-lhe reservado um final maquivelico? Ia viol-la? Assassin-la? Por todos os santos, no tinha acabado de a ameaar?
     Ai, se ao menos pudesse saber! Apesar de se ter atreviso a desafi-lo, apesar do muito que ele se tinha rido dela, a verdade  que estava aterrorizada.
     Ele tinha deixado as coisas muito claras.
     No o esqueceria. Estava  merc de um foragido sem piedade. Um malfeitor. Urraca. Segundo sabia... o assassino mais perigoso.

Captulo 3
     Dane no mentira. A menina Julianna Clare estivera inconsciente tanto tempo que ele pensara que no acordaria. Na realidade, estava contente por a sua ferida 
no ser to sria. Apesar de parecer frgil, era cheia de vitalidade, para no falar no facto de ser linda.
     Cuidadosamente, tocou o olho. A pele ao redor estava negra e dorida. Meu Deus, a rapariga tinha-lhe feito sangue! Estava verdadeiramente surpreendido, indignado 
e, ao mesmo tempo, admirado pela sua coragem.
     Ento, assobiou para chamar Percival. A quem estava a enganar? A ningum seno a ele prprio, aparentemente. A moa era mais que linda, era muito mais...
     Era uma beleza. Tanto, que o fazia sentir-se de uma forma que no se sentia h muito tempo. Tinha-a visto dormir, com a luz da manh reflectida no seu cabelo 
despenteado sobre a almofada como se fosse ouro fundido pelo sol. Teve que se armar de vontade para se levantar da cama nessa manh.
     Selou Percival e continuou a reflectir sobre o assunto. A encantadora Julianna era, sem duvida nenhuma, uma mulher educada, de boa famlia. As suas roupas vinham 
das melhores lojas de Bond Street, a menos que estivesse enganado, e Dane tinha a certeza de que no estava. A jovem j no era nenhuma debutante. Ah, sim, tinha 
passado os primeiros alvores da juventude. Se tivesse que adivinhar, diria que rondava os vinte e cinco anos.
     Mas era virgem. Pura, no que se referia a homens. Dane apostava a sua vida em como isso era verdade.
     E essa certeza excitava-o imenso.
     Montou Percival e voltou a olhar em direco  cabana. Pertencia  sua famlia, mas recentemente comeara a utiliz-la para outros fins.
      Ah, como desejava que a menina Julianna Clare fosse feia e pouco adorvel! Recordou como tinha saltado da cama - directamente para os seus braos - quando 
sentiu Maximilian entra as mantas. Praticamente, tinha cado sobre a sua "perna"! Uma sensao muito perturbadora, decidiu quase aborrecido.
     Deu uma plamada no lombo de Percival. Pensar que ela o afectava fisicamente. Fazia com que o seu sangue corresse espesso e pesado pelos seus msculos. Era estranho, 
porque Dane era um homem que se orgulhava de poder controlar as suas emoes. Tendo em conta o trabalho que tinha, no ser de outra forma...
     E, no entatnto, a sua mente continuava sem lhe obedecer.
     Tinha estado certo a respeito dos olhos dela. Eram incrveis. Azuis, de uma cor cobalto puro e brilhante. Tinha que se lembrar a si prprio que aqueles olhos 
no brilhavam de paixo e que a boca suave no pedia para se encontrar com a sua. Em vez disso, eram frios, e a lngua to gelada como o vento mais seco do inverno. 
Apesar da sua situao, a pequena tinha sido muito desafiante. Era, admitiu com alguma dvida, uma mistura fascinante de fora e delicadeza.
     Para dizer a verdade, gostava da inteligncia dela, do facto de que o seu crebro no estivesse envolto com musselina. Noutras circunstncias ... recusou a 
ideia quase no mesmo instante. As circunstncias eram as que eram. No havia forma de as mudar. Ele era prtico e se alguma coisa tinha aprendido er que os sonhos 
eram para os estpidos. A pacincia era a sua melhor virtude; de outra forma, no poderia dedicar-se ao que se dedicava. Esperar, pensar, tentar adivinhar... tinha 
o seu carcter, tambm, e embora sasse em raras ocasies, quando o fazia costumava pr-se em perigo.
     Era tambm um homem de aco e, neste caso concreto, teria simplesmente que se adaptar. Claro, no seria a primeira vez! Recordou-se a si prprio que era um 
homem que podia enganar e mentir com facilidade, ameaar e intimidar, capturar e ganhar... tudo o que fosse necessrio.
     Suspirou. Claro que tinha visto a forma em como se encolhera junto da cabeceira. Se ela via nele um monstro, muito melhor. Se ela se convencesse de que era 
perigoso, as coisas seriam mais fceis. E ainda que ele gostasse de agir de forma contrria - beijar aqueles lbios doces e rosados de Julianna - no o faria.
     A moa tambm no precisava de saber que a sua reputao como Urraca dificilmente se ajustava  realidade. Tinha uma reputao a manter. No como mulherengo, 
mas sim como ladro.
     Porque se Dane tinha apredido alguma coisa na sua vida, era isso: o medo podia ser uma boa coisa. Mantinha os sentidos alerta e preparados. Ah, sim, o medo 
era bom desde que no se transformasse num comportamento malvado capaz de destruir tudo o resto e mantivesse um homem com vida...
     A morte - e morrer - era algo inevitvel na vida. Tinha percebido isso em Waterloo, ao ver os corpos mortos e mutilados no campo de batalha. Uma batalha que 
o obssecava e o obssecaria para sempre.
     Morrer era a nica coisa da qual tinha medo.
     Ningum o sabia, claro. Dane desafiava-a, desprezava-a... negava-a.
     No era nenhum heri. Simplesmente, tinha tido sorte.
     Ah, sim, a moerte e morrer, aterrorizavam-no. Mas essa era a sua cruz. O seu prorpio demnio.
     O seu inferno privado.
     
     O corao de Julianna continuava a bater com fora quando ele fechou a porta por fora. Comeara a doer-lhe a cabea. A necessidade de fazer descansar a cabea 
entre as suas mos e chorar era insuportvel. Mas quando Thomas a deixou no altar, tinha chorado at j no ter mais lgrimas, at que os seus olhos ficaram secos 
e vazios. Aquelas lgrimas no tinham solucionado nada. Nem o fariam agora.
     Mudara desde essa altura. No seria fraca. Porque era melhor ser forte. No teria pena de si prpria nem lamentaria a sua situao.
     O melhor que podia fazer era aproveitar o tempo que estivesse sozinha para encontrar a melhor maneira de sair dali... encontrar uma maneira de sair, ponto.
     Mas primeiro tinha uma necessidade mais imperativa. Ao ver um balde numa esquina apressou-se a fazer uso dele. Depois de o esvaziar, voltou-se e deitou uma 
vista de olhos ao espao que a cabana dispunha. Surpreendeu-a descobrir que a cama na qual estava reclinada era bastante confortvel. E agora que tinha tempo de 
a examinar, viu que a cabana tambm tinha um tamanho bastante adequado, estava em excelentes condies e, o mais surpreendente de tudo, estava limpa. Havia um par 
de cadeiras com braos diante da chamin de pedra. Perto delas, uma mesa com duas caderas. Foi ento quando reparou no prato que havia no centro da mesa. Estava 
esfomeada, descobriu, pelo que cruzou at  mesa e sentou-se para comer. Fosse qual fosse a inteno de Urraca, no devia ser a de a matar de fome.
     Por baixo do pano encontrou queijo e po. Serviu-se de um bom naco. Tinha que admitir que no tinha provado uma refeio melhor, servida na porcelana mais delicada 
e o melhor vidro. At havia uma pequena garrafa de vinho, e de excelente qualidade, certamente.
     Enquanto satisfazia a fome, a sua mente continuava a imaginar um plano, procurando as possibilidades, enfurecendo-se pelas limitaes. Urraca no era o ladro 
que ela tinha imaginado: embora ela no tivesse conhecido antes homens do seu calibre! Mas ele tinha razo, pensou enquanto terminava o ltimo bocado de queijo. 
No devia subestimar o inimigo. E se ele era inteligente, tambm no a subestimaria a ela.
      Limpou a boca e olhou para o enorme armrio que havia  frente dela. Com um olhar comprovou que estava bem sortido. Guardava at a maleta que tinha arranjado 
para a sua viagem para Bath.
     Julianna no conseguiu evitar. Fs um pequena esgar de prazer. Olha. Olha, o seu captor tinha tido o cuidado de trazer as suas coisas.
     "Tem cuidado - disse-lhe uma voz. - no esqueas colocou um preo sob a tua cabea."
     Foi um pensamento muito incmodo. Sem dvida, tinha trazido as suas coisas apenas com o intuito de ver se continham alguma jia ou algo de valor. Uma vez mais, 
percorreu a diviso com os olhos. Havia algo esquisito nela. A sensao veio-lhe lentamente, e depois sentiu-se como uma idiota por no se ter apercebido antes. 
Aquela no era, pensou, a cabana de um homem de fracos recursos. O mobilirio era robusto e bem acabado, no havia um colcho no chao, mas uma autntica cama; a 
roupa de cama, at o vinho, eram tudo um sinal de conforto.
     Estava claro. No era apenas um ladro, mas um ladro de xito.
     Sacudindo as mos, ps-se de p. A dor de cabea tinha comeado a diminuir, mas ainda se sentia furiosa por t-la encerrado em casa, o cretino! Aproximando-se 
da porta, bateu e empurrou e puxou-a tudo o que conseguiu, sem xito.
     Tranquilamente, examinou as janelas. Eram quatro, duas de cada lado da porta. Em seguida desiludiu-se ao ver que eram pequenas e altas demais para fugir por 
elas. Nem sequer subindo a uma cadeira conseguiria alcan-las.
     Maldio! Ele tinha razo. A ausncia dele no lhe dava nenhuma oportunidade para escapar.
     Foi ento que descobriu um saco de sarapilheira na esquina junto ao armrio. Com as mos nos cordoes deteve-se, para reconsiderar um momento se se sentia culpada. 
Era como se estivesse a investigar em casa de algum sem ter permisso... "que  exactamente o que estou a fazer", repreendeu-se
     Mas as circunstncias assim o requeriam. Assim, abriu os cordes e olhou para o interior.
     A bolsa estava cheia de notas, o ladro!
     Maximilian esfregou-se contra ela.
     - Devias dizer ao teu dono que h formas mais seguras de ganhar a vida do que a roubar.
     Como resposta, o gato roou a palma da sua mo com a cabea, procurando uma carcia.
     Com um suspiro, Julianna foi sentar-se na cadeira diante do fogo. Maximilian procurou silnciosamente o seu colo, abanou a barriga varias vezes procurando a 
postura mais cmoda e depois deitou-se com os olhos fechados.
     Julianna acariciou-o, satisfeita de o ter como companheiro. Talves devesse sentir-se envergonhada, mas se esta ia ser a sua priso temporria, estava satisfeita 
de que pelo menos fosse confortvel. Porque seria temporria, prometeu-se. Era certo que no ia a lado nenhum, pelo mens, ainda no. E visto que tinha todo o tempo 
do mundo para procurar uma forma de escapar, dedicar-se-ia precisamente a isso, a encontr-la.
     
     Julianna passou o resto do dia em silncio.  noite, a dor de cabea tinha desaparecido completamente e sentia-se muito melhor. No tinha forma de saber a hora, 
salvo pela cor do cu que via atravs da janela. A noite j era cerrada, e durante um tempo conseguiu ver a lua que brilhava no alto.
     E Urraca ainda no tinha voltado.
     A sua mente estava inquieta. E se o tinham apanhado? Capturado? E se o tinham apanhado durante o assalto? Ningum nunca saberia que ela continuava naquela cabana, 
fechada!
     O pensamento persistia. Por muito que no gostasse daquele vilo, no tinha desejo nenhum de ver o pescoo dele rodeado por uma corda. Por estranho que parecesse, 
quando por fim se meteu na cama, foi aquele pensamento que a manteve acordada. Depois de um tempo, acendeu uma vela que estava junto  cama e ficou a observar fixamente 
o tecto. Maximilian tinha aberto cminho por entre as mantas e aninhara-se dentro delas. Comeava a dormir quando ouviu o som da fechadura da porta.
     A porta abriu-se completamente. Uma brisa fresca acompanhou a entrada dele na cabana.
     Julianna despertou inteiramente.
     Trazia um grande saco apoiado no ombro. Segurava-o como se no pesasse mais do que uma bolsa de penas, e colocou-o do outro lado da diviso junto ao outro.
     Depois virou-se.
     - Ento est acordada! Teve um bom dia?
     Julianna olhou para ele com desprezo. O seu novo amigo, Maximilian, j a tinha abandonado. Saltou da cama quando ouviu o som da porta. Da mesa, subiu para os 
ombros do seu dono e enroscou-se neles. Num lugar longnquo da sua mente, recordou que era aquilo que tinha visto da primeira vez que despertou... o que a tinha 
feito pensar que o seu captor era corcunda!
     Agora, dois olhos dourados observavam-na. Usava a sua arrogncia como se fosse uma medalha de honre, estava ali, na curva do seu queixo, na abertura dos seus 
lbios que sorriam com tanta confiana.
     Vestido de preto dos ps  cabea, a sua viso era impressionante. Enchia cada esquina da diviso de uma forma que lhe era completamente desconhecida, de uma 
forma que tinha pouco a ver com o tamanho, embora a sua altura e envergadura fossem difceis de ignorar! Se a cabana fosse cem vezes maoir, no haveria diferena. 
Havia algo nele que a fazia tremer como um pudim. Gostasse dele ou no, a sua presena era poderosa e absorvente. Pedia que olhassem para ele... no, exigia!
     No era nenhum janota. Mas tambm no era esmerado. Conseguia cheirar o vento no seu cabelo, a terra na sua pele. Era bastante bonito... ele, um malfeitor! 
Surpreendeu-se ao aperceber-se disso. Ocorreu-lhe a estranha sensao de que apesar do seu aspecto selvagem, aquele homem teria encaixado perfeitamente nos sales 
mais elegantes da alta sociedade londrina. Era uma sensao que a perturbava e confundia.
     O mais surpreendente de tudo era que se sentia consumida por uma profunda fascinao.
     Ah, ao diabo com ele! O que lhe estava a acontecer? A pancada na cabea devia ter-lhe afectado os sentidos!
     - Minha querida Julianna, surpreende-me. - Tirou a mscara e a capa, e pendurou-as no prego da parede.
     - Meu querido Dane - respondeu ela docemente, - e porqu? - Se pensava que se podia rir dela, enganava-se.
     Ele aproximou-se, enviando sinais de alarme sobre a pele dela.
     - Nestas circunstncias, podia muito bem ter deparado com uma mulher histrica. Mas voc no suplicou ao nosso Criador, no pediu ajuda. Em vez disso, parece 
muito tranquila.
     Julianna olhou para ele.
     - Como sabe? Tem algum do lado de fora a espiar-me?
     Ele deitou a cabea para trs e comeou a rir como se ela tivesse dito alguma coisa verdadeiramente engraada, um som que lhe teria sido agradvel se ela no 
fosse o objecto de tanto divertimento.
     - Voc deixou bem claro que no fazia sentido gritar. - Lembrou-o.
     -  verdade. Ainda assim, como se sente to confiante, qualquer pessoa diria que est habituada a ser... - calou-se.
     - O qu? Pensa que fui sequestrada antes? Dificilmente. Alm disso, que necessidade h em gastar mal as energias com melodramas inteis?
     - Claro - ele sorriu. - Mas magoa-me que pense to mal de mim.
     As sobrancelhas castanhas ergueram-se, interrogadoras.
     - Ah, vamos l - disse, em jeito de explicao. - Ainda no me agradeceu por a ter salvo.
     Julianna bufou, com um som pouco feminino. Se pensasse bem, ultimamente estava a fazer coisas muito pouco femininas. Era um comportamento estranho que deveria 
analisar cuidadosamente... ou no?
     O safado ps-se de p junto a ela, com as mos na cintura e uma pose arrogante. E pensar que se tinha preocupado pela sua segurana!
     - Um salvador no encerra a pessoa que salva - repreendeu-o - nem a avisa que gritar no servir de nada.
     - Poderamos discutir sobre isso at ao amanhecer, mas assim no dormiramos, no acha? E embora me arrependa de ter sido to mau anfitrio e t-la deixado 
sozinha tanto tempo, reconheo que estou muito cansado.
     Aproximou-se da cama. Julianna ps-se em alerta ao ver que tirava Maximilian dos seus ombros e desapertava a camisa. Exposta a nudez do seu peito aveludado, 
o corao dela comeou a bater de forma descontrolada. Molhou os lbios.
     - Sugiro uma soluo mais simples. Deixe-me ir embora e no ser necessrio discutirmos.
     Ele no respondeu, e sentou-se para tirar as botas.
     Julianna tinha-se aninhado do outro lado da cama.
     - Por favor - disse de novo, com uma suplica na voz, - deixe-me ir embora.
     - No.
     Tanta confiana surpreendeu-a. Nem sequer tinha tido a educao de olhar para ela!
     - Porque no?
     Ele no respondeu.
     Julianna respirou fundo.
     - Posso pagar-lhe. O meu pai... era um homem rico. Tenho dinheiro suficiente ...
     - No quero o seu dinheiro.
     Ele estava a ficar impaciente. Ela fez um gesto para os dois sacos da esquina.
     - Peo-lhe que me perdoe se no acredito!
     Ele revirou os olhos.
     - Ah - disse suavemente, - vejo que andou a investigar um pouco, no  verdade, gatinha?
     "Gatinha", de novo. Que homem to desagradvel!
     - Pedir no  um acto criminoso. Roubar !
     - Comeo a crer que a devia ter atado e amordaado. Agora, se no se importa, gostava de dormir um pouco. - Levantou a ponta da manta.
     Julianna olhou para ele perplexa.
     - No tem medo que eu fuja enquanto dorme?
     O olhar dele devia servir como ameaa. Deteve-se, agarrou na chave que tinha posto sobre a mesinha de cabeceira e guardou-a no bolso das calas. Sem deixar 
de sorrir, meteu-se na cama junto a ela.
     Bandido arrogante! Julianna deu a volta furiosa dando-lhe as costas e pondo o maior espao possvel entre eles. Com a chave no bolso, havia pouco que fazer 
para escapar. Esperaria pelo momento oportuno para sair dali... embora necessitasse da chave! Como demnios ia consegui-la?
     No se apercebeu de que estava a mover-se e a dar voltas na cama at que ele lhe disse:
     - Por amor de Deus, ser que no pode ficar quieta nem um segundo?
     Julianna ficou gelada. Investigando entre as sombras, viu que os olhos dele brilhavam em direco a ela, observando-a como uma faca afiada.
     - Umas horas de descanso  tudo quanto peo. No pode conceder-mas?
     Julianna no disse uma palavra. Invadiu-a uma sensao de impotncia. Deu um suspiro fundo e prolongado, e depois afastou os olhos do olhar acusador.
     Ele elevou-se num cotovelo ao seu lado.
     - O que se passa? - Perguntou. - No est a pensar em choramingar, pois no?
     Ela cravou os dedos na manta e ficou a observar as formas do tecto. Era uma estupidez, mas queria chorar!
     O tempo passava penosamente.
     - Desculpe - disse ele com bastante formalidade. - Esqueci-me de lhe perguntar como se sente esta noite.
     De novo a boa educao! Quem teria esperado uma coisa dessas de um malfeitor? Julianna tremeu quando ele lhe ps a mo no ombro.
     - Estou bem - resmungou ela.
     - A srio? - Uns dedos elegantes roaram-lhe a testa. - Est um pouco plida, querida. Tem a certeza de que est bem?
     - Sim. - Disse orgulhosa. - No.
     - Ah, gosto de mulheres que tm as ideias claras.
     Julianna humedeceu os lbios.
     - Bom - disse com a voz a tremer, - di-me muito a cabea.
     - Vai sentir-se melhor pela manh. Tente dormir.
     As maneiras dele eram absurdas, mas havia uma doura na sua voz. E nas nas mos quando roaram a sua testa... o toque foi inesperadamente amvel. Mas depois 
deu meia volta para lhe dar as costas e baixou a cabea.
     Diabos! A chave estava mais longe do que nunca. No havia forma de a conseguir sem o acordar. Sem dvida, era dos que dormiam com um olho aberto.
     A cabea de Julianna era um remoinho de ideias. Discutir com ele no erviria de nada. Suplicar, tambm no. Teria que imaginar outro estratagema, porque se 
negava a passar mais uma noite deitada junto daquele animal. No sabia porqu, mas tinha pensdo que um homem como ele seria insensvel s lgrimas. E, no entanto, 
ela teve a estranha sensao de que a perspectiva do choro o tinha incomodado... o que faria ele se desatasse a chorar? Deixava-a ir embora? Ou ficaria ainda mais 
furioso?
     Julianna no estava com vontade nenhuma de tentar essa alternativa... nem de o tentar a ele.
     Tempo. Precisava de tempo para pensar. Tempo para planear a forma de escapar. Pensou no seu irmo Sebastian, que era excelente com os planos. Tinha que haver 
uma forma de sair dali...
     De alguma forma... algum caminho.
     
      
Captulo 4
     Dane estava confuso. E preocupado tambm. No podia evitar. Desde que a criatura tinha despertado nessa manh, permanecera estranhamente quieta. Plida e tranquila 
todo o dia. E to dbil que nem conseguia pr-se em p! Teve at que a ajudar a sentar-se na mesa para comer. Evidentemente, ele insistira para que ficasse na cama 
o resto do dia.
     Para sua surpresa, no houve oposio.
     No podia evitar. Aquela deblidade repentina preocupava-o. Tinha vrias ndoas negras e arranhes do acidente. Mas era possvel que a pancada na cabea fosse 
pior do que pensara ao princpio?
     Nessa tarde cavalgou para longe da cabana e parou antes para olhar para trs. Maldio! No conseguia evitar sentir-se culpado por deix-la ali sozinha.
     Amanh, decidiu. Se no a visse melhor no dia seguinte, iria procurar um medico.
     Phillip no ia gostar da volta dos acontecimentos, mas... no podia fazer outra coisa.
s dez em ponto dessa noite, encontrou-se com ele a quilmetros de distncia, num lugar afastado e solitrio. A sua adorvel hspede ainda continuava a rondar-lhe 
a cabea.
     Houve um ranger de ramos. Dane virou-se.
     - Phillip!
     O seu amigo Phillip Talbot saiu das sombras.
     - Ou te ests a tornar descuidado - disse ele - ou as minhas habilidades melhoraram.
     Dane limitou-se a erguer uma sobrancelha. Conhecera Phillip pouco depois da guerra, e no precisaram de muito tempo para se tornarem bons amigos. Por baixo 
da maneira afvel de Phillip e das suas feies agradveis, escondia-se um homem de grande inteligncia. Dane admirava profundamente a sua ateno com os pormenores, 
a sua habilidade para se adiantar ao imprevisvel. 
     Sobretudo, confiava profundamente nele... e o mesmo acontecia a Phillip em relao a ele.
     Uma afinidade indispensvel nos assuntos que os ocupavam.
     Phillip observou o rosto dele.
     - O que diabo aconteceu contigo? - Perguntou surpreendido.
     Dane amaldioou a lua que ousou aparecer naquele preciso momento. Tinha esquecido o seu olho negro. Privado da sua mscara, a pancada era perceptvel para todos.
     - Um pequeno acidente - disse sem lhe dar importncia.
     Phillip no ficou convencido.
     - Algum te bateu na cara. Quem foi?
     Em poucas palavras, Dane contou-lhe o incidente com a carruagem ocorrido duas noites antes. Phillip ficou calado durante um momento depois de Dane ter terminado.
     - Que m sorte! - disse ele. - Lamento que tenha havido uma morte.
     - Tu mais do que ningum sabes que algumas coisas acontecem sem que possamos evitar.
     Phillip concordou.
     - O assunto da rapariga complica tudo. Que raio vais fazer com ela?
     - Ainda no tenho a certeza - admitiu Dane, - mas hei-de pensar em alguma coisa. Ela no sabe de nada, nem suspeita sequer, e espero que continue assim. Algum 
dia a moa contar aos seus netos como foi sequestrada e como viveu para o contar. Por agora, no posso permitir que v com a histria s autoridades.
      - Talvez possamos embebed-la e lev-la para o norte. Quando regressasse  civilizao tudo estaria acabado.
     Dane abanou a cabea.
     - No seria prudente envolver mais algum. Isso, na minha opinio, aumentaria as possibilidades de nos descobrirem. - Calou-se. - Mas o que me dizes de ti? 
O que investigaste da nossa presa?
     - Est a cobrir bem as suas trilhas. Que outra coisa se pode esperar de algum que, sendo como ns,  capaz de assassinar duas almas inocentes e fazer com que 
parea um acidente?
     - Sim, foi muito inteligente. Uma noite chuvosa e uma carruagem em fuga... duvido que algum deles conseguisse ver o que lhes caa em cima. O nico crime daquela 
pobre mulher foi ouvir o seu marido quando falava com aquele rato. - Disse Dane, furioso. - Tudo o que queria era evitar que o marido voltasse para a priso. E o 
sacana ainda teve o descaramento de continuar com os planos.
     - Descaramento. Sim, esse  culpado, no ? - Phillip calou-se, depois estudou o seu amigo. - E tu, meu amigo? O Urraca tambm est a conseguir uma boa reputao. 
- Observou. - Devias ouvir o que se diz por a sobre t, Dane. As pessoas esto prestes a pedir a tua cabea.
     - Isso  inevitvel. No podemos levar a cabo uma investigao abertamente. Isso avisaria o nosso verme, j para no falar nas dificuldades que o Ministerio 
do Interior iria passar. - Dane encolheu os ombros e sorriu levemente. - O Urraca cavalgar at que aquele sacana esteja entre as grades.
     Phillip olhou para ele circunspecto.
     - Isto no  um jogo, Dane. O que fars se decidir disparar contra ti?
     - Nesse caso, ser melhor que seja rpido e me desvie, no achas? - piscou-lhe um olho.
     Phillip suspirou.
     - Sejamos srios! O que vais fazer se te apanharem? Se o fizessem, talvez te apanhassem antes que o Ministrio pudesse intervir.
     - Tens to pouca confiana em mim? - Dane deu-lhe uma palmada no ombro. - Conheo os riscos, Phillip. H uma razo pela qual tu fazes o que fazes e eu fao 
o que fao.
     Phillip suspirou.
     - Admiras isso, no ? A aventura? O perigo?
     Tinha sido assim uma vez. Mas agora... agora no tinha a certeza. Era um homem de aco, no um homem que se pudesse sentar e esperar pelo momento. No tinha 
a pacincia de Phillip. Mas a excitao j no era to satisfatria como antes... bem, no tinha a certeza.
     O olhar que Phillip lhe dirigiu era inescrutvel.
     A brisa roou o cabelo castanho claro de Phillip.
     - Sabes? - Disse lentamente, - gostava de estar no teu lugar embora apenas por uma noite.
     - Tu? Um malfeitor? Um aventureiro?
     - Tenho que admitir, invejo-te desde h algum tempo.
     Dane no conseguiu evitar. Sorriu abertamente e levou a mo ao olho negro.
     - Isto no  para ser invejado.
     - Mesmo assim. Creio que gostaria do perigo, da velocidade do sangue nas veias, a antecipao de nunca ter a certeza do que acontecer depois e, no entanto, 
ter que estar preparado para o que for, sem medo. Tenho a certeza de que no pode ser aborrecido.
     Dane levantou as sobrancelhas. Sem medo? Ah, se soubesse... e, embora o considerasse esperto e capaz, Dane nunca teria imaginado que Phillip, o estratega, desejasse 
aquilo.
     - Por acaso isso no  vida? - Murmurou. - O desafio de cada novo dia? Tenho que admitir que a minha vida  menos empolgante do que tua, Dane.
     Dane olhou para ele com curiosidade.
     - Ah, bom - disse Phillip. - Talvez um dia. Por agora temos muito trabalho para fazer.
     -  verdade - admitiu Dane e assobiou para chamar Percival.
     - Eu tambm devia ir. - Phillip matou um insecto pousado em cima do seu casaco e depois olhou para Dane. - Quando  que nos voltamos a ver?
     - Vejamos como vai funcionar o jogo durante um tempo, sim? Contacto contigo para Londres.
     Phillip observou Dane enquanto saltava para o lombo de Percival.
     - Pelo xito - disse Phillip com um dbil sorriso.
     Dane inclinou a cabea.
     - Amn - murmurou.
     Com um breve comprimento, saiu a galope a meio da noite.
     
     Uns quilmetros mais longe, em Londres, as ruas de Westminster estavam quase desertas. Numa casa pequena, com fachada de tijolo, Nigel Roxbury entrou num pequeno 
escritrio e agarrou um monte de papis do centro da mesa. Na esquina, um relgio de pndulo marcava com agressividade os segundos.
     Vestido com um casaco negro, a sua cara era pouco notvel,  excepo da pala que usava num olho. Astuto, calculista e duro eram os adjectivos que os seus amigos 
o definiam, no entanto, ele tinha-se por uma pessoa bastante sensata. No aspirava a ser rico. Deus sabia que exercia a profisso errada. No visitava bordes, no 
jogava nem bebia em excesso. Mas era um grande admirador de antiguidades, da simplicidade e das linhas.
     Olhou para o relgio. Quase meia-noite. Onde diabo estaria...
     Ento ouviu uma pancada.
     Caminhou a passos largos para a porta e puxou-a para a abrir. Com um sacudir de saias, entrou uma mulher, afastando o vu que cobria a sua cara.
     Embora fosse mais velha do que ele uns dez anos, percebeu que tinha envelhecido com a maior elegncia. A pele ainda rosada e suave, as feies elegantes e refinadas, 
e enfeitava o cabelo com pequenas missangas de prata. Usava um vestido da ltima moda parisiense e o seu corpo era to delgado como o de muitas jovens.
     - Bem vinda, minha senhora! - Conduziu-a ao escritrio. - Ah, deve ter algo para mim!
     Ela entregou-lhe uma pequena caixa. Impaciente, levantou a tampa e retirou o recheio de palha amarela. A luz da lmpada iluminou a suave superfcie dourada.
     - Maravilhoso! Absolutamente maravilhoso!
     Sentando-se diante dele, a visitante colocou a saia sobre os joelhos.
     - Essa pea vale uma fortuna.
     - E eu pagarei uma pequena fortuna por esta e outras peas que me traga.
     - Sim? - disse, questionando. - Pergunto-me como  que um homem como voc pode comprar estas coisas.
     - Ah, vamos! - Repreendeu-a. - Julga-me pela aparncia? Porque  que apenas os ricos devem pagar pelos seus caprichos? Durante vinte anos sonhei com estes tesouros. 
O seu falecido marido, Armand, e eu partilhvamos a fascinao pelo esplendor do Egipto. Ah, ele era um homem generoso que permitia os outros satisfazer os seus 
desejos. Escolheu doar a sua coleco ao museu. Acho, no entanto, que eu no sou to magnnimo.
     - No  a sua paixo que me incomoda - disse a mulher friamente, - mas a forma que tem de ir atrs dela.
     - Ah, refere-se  sua participao no assunto. Vamos, umas quantas peas roubadas dos tmulos dos velhos destinadas ao mercado da arte! No posso competir com 
os coleccionadores privados ou com os compradores dos museus, no acha? Que sorte tive que voc conhecesse o ajudante do director do museu, o Francois...!
     - Sim - cortou-o, - e tenho de lhe pagar.
     Os olhos dele pestanejaram.
     - Acho que houve um pequeno problema.
     Ela olhou-o furiosa.
     - Tnhamos um acordo!
     - E vou cumpri-lo. - Disse ele irritado. - Houve apenas um atraso na transferncia de fundos.
     - Transferncia de fundos. - Repetiu ela.
     A expresso de Roxbury endureceu.
     - Aquele maldito ladro, o Urraca, continua a roubar-me. - Disse bruscamente - e o Franois insiste em que lhe pague com ouro.
     - Entendo. Ento, talvez haja algum atraso com a mercadoria da prxima vez.
     - No seria muito inteligente tentar ameaar-me, minha senhora. Voc sabe com quem est a lidar. Nenhum de ns quer perder o que tem, pois no? - Com um dedo 
percorreu a cabea da estatueta, admirando uma vez mais o seu valor. - Ambos temos muito a ganhar com isto. Como voc disse,  um acordo que convem aos dois, no 
 verdade?
     Ela levantou o queixo.
     - Eu no pretendo ganhar nada com isto.
     - Ah, mas f-lo- - contradisse-a, - e voc sabe o que aconteceria se me tentasse enganar. Uma palavra minha, e no poderia dar a cara em lugar nenhum da Europa. 
O seu segredo seria descoberto e perderia a situao que tem agora. O seu casamento com Armand Lemieux seria exposto ao escndalo se revelasse que voc j era casada. 
Perderia tudo o que ganhou com a sua morte. Seria o fim para si, e sabe disso muito bem.
     - Eu amava o Armand!
     - E evidentemente tambm amava o que lhe deu, no  verdade? Mas estou curioso. E o meu irmo James? tambm gostava dele? Ele morreu, minha senhora. Afogou-se 
e voc sobreviveu. Eu conhecia os planos dele, sabe? Sempre me perguntei porque se apaixonou por Roxbury, um homem que no pertencia  classe seleccionada. James 
sempre se considerou a si prprio como um homem do mundo, mas seria? Confesso que foi ele quem me ensinou a apreciar as coisas mais refinadas da vida. - Acariciou 
a estatua com os dedos. - Ah, ele sim, sabia viver a vida! Pediu-me que lhe guardasse o segredo quando adivinhei o vosso. O que no faria um homem pelo amor de uma 
mulher! - Ironizou. - Embora voc se arranjasse muito bem sem ele, no? A verdade  que como mulher de Armand Lemieux foi beneficiada.
     - Voc  um homem velhaco e mesquinho. E bastante cruel.
     - Obrigado, minha senhora.
     - No era nenhum elogio.
     - Mesmo assim, aceito-o como tal. - Acariciou a estatua mais uma vez e depois colocou-a de lado. - Quando chega a prxima pea?
     A mulher aproximou-se da porta.
     - Digo-lhe depois.
     Os olhos dele brilharam.
     - Esperarei impaciente o nosso prximo encontro.
     Para seu regozijo, ela no partilhou da mesma sensao.
     
     J estava a amanhecer quando Dane chegou  cabana. Tinha sido uma noite frustrada. Tinha esperado durante horas para que passasse a carruagem, mas a sua espera 
foi em vo. Frustrado, acabou por voltar para a cabana.
     Pensativo, tirou a sela a Percival e colocou-o no estbulo que tinha construdo junto da cabana. Iria o culpado atrs dele?, perguntou-se. Estava a pensar em 
Phillip. Queria emoes fortes, no era? Por muito que Phillip lhe tivesse dito que gostaria de estar no seu lugar, sabia muito bem que o seu amigo no passaria 
uma noite to miservel como a que ele tinha passado, esperando para nada.
     Ainda restavam algumas brasas vivas do fogo da tarde. Dane colocou um tronco na chamin e ficou de p diante dela, observando como as chamas reavivavam. Por 
fim, caminhou para onde jazia a cativa.
     Dormia profundamente, com a cara voltada para a parede. Dane respirou aliviado. Graas a Deus. Sem dvida ia incomod-lo de manh, feroz e amarga, o que o fazia 
perguntar-se... o que ia fazer com ela?
     Com um suspiro, sentou-se para tirar as botas. Estava cansado demais para procurar respostas. De momento, no tinha nem o desejo nem a inteligncia necessria 
para batalhar com uma lngua como a dela. Estava esgotado. Sentado, tirou a camisa e as botas. Algumas horas de descando era tudo o que precisava. Depois, estaria 
pronto para enfrentar um novo dia... e com tudo o que se pudesse deparar.
     Levantou uma das pontas da manta e deslizou no espao diminuto da cama que sobrava, com cuidado para no a acordar. No pareceu que tivesse acordado, pelo que 
fechou os olhos, confiante. O sono chamava-o e no seu sono, viu-a a ela. A adorvel Julianna. Vagamente, sentiu como o seu corpo se deslizava junto a ele. Ah, era 
linda e doce, o seu cabelo maravilhoso roou-lhe o peito ao voltar-se. Desfrutou ao ver que ela punha a sua mo diminuta em cima do seu estmago.
     No conseguiu evitar um sorriso. Ficaria bem, com ela. De facto, pensou, seria delicioso. Na sua imaginao, podia sentir como a mo dela deslizava para baixo... 
cada vez mais para baixo. Como se ela procurasse o seu membro e quisesse toc-lo e explor-lo. Para sentir como se endurecia debaixo dos seus dedos.
     Em alguma parte recondita da sua mente, lamentou a barreira das calas. Em considerao a Julianna, no as tinha despido nas ltimas noites. Ela abriu os dedos, 
aventurando-se. Hesitando, devagar...
     Com rispidez, saltou para fora da cama.
     A bela moa j estava de p. Recuava. Os olhos eram envolventes, puros, brilhantes, carregados de fogo azul.
     Deteve-se. Segurava entre as mos uma das suas pistolas, apontada directamente para o centro do peito dele.
     - No se mexa! - Gritou ela. - Fique onde est.
     Dane ficou paralizado. Por todos os diabos! Tinha-se descuidado. Tinha sido um insensato e agora ia pagar por isso. Ah, deveria ter imaginado! Sentira a malcia 
na inclinao do queixo.
     - D-me a chave - disse ela em voz baixa.
     Ento comeou a entender. Maldio! No estava doente nem tinha ficado fraca.
     Maldio, isso era o que acontecia quando baixava a guarda. Deveria ter sido mais esperto. Ele era inteligente! Nunca voltaria a ser to confiado.
     - V - disse ele. - Parece que a substimei. No estava doente, pois no?
     Ela apertou os lbios.
     - Foi tudo uma armadilha. Uma forma de me desarmar, suponho - deteve-se. - Imagino que pensa que  muito inteligente.
     - A inteligncia no tem nada a ver com isto. Voc no me teria deixado ir embora! - a voz dela era acusadora.
     Os olhares cruzaram-se
     - Estava preocupado consigo, gatinha.
     - Preocupado! Deixou-me sozinha durante horas.
     - Com muita pena minha. - Apressou-se ele a dizer. E de facto, assim era. Mas se no tivesse aparecido no encontro com Phillip, as coisas ter-se-iam complicado. 
Tudo ficaria estragado.
     - Porque devo acreditar no que diz? Segundo me disse,  um ladro. Um bandido!
     Uma presuno lgica, sups.
     - ... e agora quero a chave!
     Dane negou com a cabea.
     - E para onde iria? J lhe disse, estamos no meio do bosque, longe de qualquer povoao. Prefere perder-se por a a estar comigo? No lhe farei mal. A voz dele 
era tentadora. - Se essa fosse a minha inteno, j o teria feito.
     Dane olhou para ela, calculando silnciosamente a distancia que os separava. Ficou de p talvez a dez passos de distncia. Era uma mulher bem-educada, de boa 
familia. Era um milagre que soubesse por onde se segurava a pistola.
     - Se quer a chave, ter que vir busc-la. Ter que se aproximar. E quem teria ento a vantagem, h?
     Ela pestanejou.
     - No vai disparar - predisse ele.
     - Claro que sim! Acha que me conhece? No me conhece em absoluto, senhor! Agora, levante as mos!
     Diabos! Levantou as mos com o olhar fixo no cano que estava ao nvel do seu peito.
     - Sim. Mas viu alguma vez um homem morto?
     - Sim. O meu pai.
     - Talvez devesse dizer de outra forma. J alguma vez viste algum morrer? J alguma vez viste como se dispara contra um homem?
     - Basta! - Disse nervosa. - Sei muito bem o que tentas fazer!
     - No  uma viso muito agradvel - continuou ele. - Francamente,  horrvel. Garanto-te, depende muito onde se acerta. Uma ferida na cabea...
     - Pare!
     - Ests a suar, gatinha. Posso ver daqui. Acho que se eu levasse um tiro, desmaiavas. Ela comeava a vacilar. Talvez fosse a orgulhosa teimosia, mas tinha a 
certeza de que o seu instinto no o tinha abandonado completamente.
     Olhou para ela com uma expresso aborrecida.
     - Pensava que querias disparar.
     - E disparo! - Engoliu em seco. Ela hesitava e com ela a arma que segurava.
     - Ento, dispara - desafiou-a.
     Ela deu um passo atrs.
     - Fique onde est! - Disse ela a tremer.
     Confiando em si prprio, Dane deu um passo para ela.
     Julianna fechou os olhos, afastou a cabea... e disparou.

Captulo 5
     Aconteceu tudo de uma forma estranha... no era a dor, mas o espanto que lhe enevoou a mente. O corao parecia falhar e depois comeou a bater violentamente. 
Era como se um calor asfixiante se estendesse pelo seu peito. No conseguia respirar. Era assim que acontecia...? Por todos os santos, aquela mulher conseguira o 
que o exrcito de Napoleo no tinha conseguido fazer. As pernas tremeram. Diabo! No ia desmaiar como uma mulher. Deus, no o faria! No entanto, o medo apoderou-se 
dele, aquele medo secreto que ningum conhecia. Um milho de coisas passaram pela sua cabea naquele instante.
     Ainda sem acreditar no que tinha acontecido, levantou o olhar para ela. Mas no estava... Deus, ia morrer... e aquela maldita rapariga dedicava-se a procurar 
nos seus bolsos.
      procura da maldita chave.
     
     
     O som foi ensurdecedor. Ao ouvi-lo, Julianna deixou cair a pistola e depois ouviu claramente o rudo que fez ao cair no cho. No conseguia ver nada e o acido 
cheiro a fumo envolvia tudo e picava-lhe na garganta. S quando se desanuviou um pouco o ambiente  que o conseguiu ver.
     O tiro tinha-o prostrado de joelhos no cho.
     Uma nvoa estranha parecia rode-la e viu-se como se estivesse no meio de uma bruma cinzenta de inverno. Antes de perceber o que se passava, j estava ao lado 
dele procurando as chaves no bolso.
     No foi difcil encontr-las.
     O pequeno objecto brilhava na sua mo ao ser iluminado pela luz que entrava pela janela. Ficou a observ-la durante um tempo, e depois levantou-se, quase tropeando 
com a pressa. Desatou a correr para a porta e tentou meter a chave na fechadura, mas caiu ao cho estrondosamente. Com um grito, baixou-se para a apanhar. Ao levantar-se 
novamente, no conseguiu evitar olhar para o homem que jazia no cho.
     Foi ento quando perecebeu que aquele pequeno momento mudaria a sua vida para sempre.
     Dane tremia, com uma expresso de profunda incredulidade. Julianna ficou paralizada ao v-lo naquele estado, nu, vulnervel. Era como se suplicasse.
     No tinha a certeza do que a tinha impelido a fazer aquilo. Via tudo  roda. Tinha fechado os olhos... mas nem sequer se lembrava de ter apertado o gatilho. 
O que percebeu foi que uma horrvel detonao tinha ressoado nos seus ouvidos.
     Ela, que sempre se considerara uma alma amvel... acabava de disparar para um homem!
     A culpa foi aumentando dentro dela, uma sensao que comeou a deixar enjoada. O que tinha feito? O seu comportamento tinha sido atroz. Apenas tinha querido 
assust-lo... que estupidez! Como se um bandido pudesse ter medo dela!
      Felizmente, ele no estava morto. Pelo menos, ainda no. Voltou a olhar para ele com ateno.
     Ele tambm olhava para ela. Com os dentes apertados, tentava manter-se direito.
     - V-se embora! - Disse ele com fora. - Saia daqui, maldio.
     Mas ela no podia. No conseguia abandon-lo ali.
     O esforo ao dizer-lhe que se fosse parecia ter acabado com as ultimas foras que lhe sobravam. Ento, caiu ao cho.
     Ajoelhada junto dele, Julianna sacudiu-lhe o ombro so, como se isso o pudesse despertar.
     - No! - Gritou desesperada. - No!
     Rodeou-o com os braos e tentou coloc-lo de boca para cima.
     Ele olhava para ela com uns olhos que indicavam descontentamento.
     - Porque  que continua aqui?
     - Eu disparei contra si. - Disse ela em tom choroso. - Agora quero salv-lo-
     
     
     Ele estava certo. Havia sangue, muito sangue. Dane ps-se de lado, deixando a descoberto a mancha vermelha que contrastava com o branco da sua camisa. Enchendo-se 
de coragem, Julianna moldou os dedos entre os botes da camisa para a abrir e deixar  vista a ferida. O sangue era abundante e rodeava parte do seu corao, espesso 
e escuro como carmim. Ao v-lo, um sabor amargo a fel atravessou-lhe a garganta.
     - Julianna. Julianna.
     O som do seu nome f-la voltar o olhar novamente para o rosto dele.
     Dane tentava sentar-se.
     - Vais ter que me ajudar, gatinha.
     Julianna respirou profundamente. Tentando conter os nervos, passou um ombro por baixo do dele e rodeou-lhe as costas com o brao. A verdade,  que no era de 
muita ajuda, ele era grande demais para o poder segurar. Se conseguiu conduzi-lo at  cama, foi mais pela prpria ajuda dele do que pela a ajuda que ela lhe prestava. 
Ao deitar-se na cama, Julianna percebeu do quanto estava plido: ele, que tinha a pele to morena. Algumas gotas de suor Caim-lhe pela testa.
     - tens de parar a hemorragia. H uma cesta de roupa no armrio. Podes utiliz-lo.
     Julianna apressou-se a obedecer, tirando um pano branco limpo e pressionando-lhe o ombro com ele.
     - Aperta com fora - disse ele. - j sei que no s mais do que uma pequena criatura, mas tenta, est bem, gatinha?
     - No gosto que me chames assim! - Ela respirava com fora devido ao nervosismo. O seu protesto foi em parte um soluo, em parte uma repreenso. Com um olhar 
quase desafiante, inclinou-se para ele e utilizou a parte interna do pulso para fazer mais fora sobre a ferida. Dane inspirou profundamente.
     Era como se tivessem passado horas antes que finalmente a hemorragia cessasse. Julianna podia ver o buraco por onde a bala tinha entrado. A pele que o rodeava 
estava negra pele efeito da plvora. Nunca teria imanginado que seria assim. Aquela aspecto emocionou-a profundamente.
     Dane deixou sair o ar dos pulmes e ergueu o olhar para ela. Lamentava ter que lhe dizer aquilo, mas no havia outra forma.
     - Acho que o teu trabalho ainda no terminou, gatinha. Vais ter que tirar a bala.
     - o qu? - Disse ela sem acreditar.
     - A bala continua no meu ombro.
     Ela olhou para ele sentindo-se a pessoa mais miservel do mundo. Sugeria que...
     - Talvez estejas enganado. Talvez.
     Ele negava com a cabea.
     - Se tivesses dado um tiro certeiro, teria sado pelas costas. Mas no o fez.
     Julianna olhou para ele horrorizada. Abanou a cabea com fora.
     - No, eu no sei...
     - E quem mais seno tu? s a nica que consegue. Eu,  claro que no consigo. Alm disso, disseste que me ias salvar.
     Em que estava a pensar para dizer uma coisa daquelas? O corao de Julianna comeou a bater nas costas. Duramente, com muita fora...
     - tu consegues, eu sei que consegues.
     Queria ter tanta f na sua habilidade como ele parecia ter nela.
     - Como  que podes saber? Nem sequer me conheces.
     - creio que s uma mulher de grande coragem. E tens um pulso firme, no tens?
     Julianna engoliu em seco.
     - diz-me o que devo fazer.
     - No armrio encontrars uma tigela. L dentro vers tudo o que precisas... e traz a garrafa de aguardente tambm. - A voz dele comeava a mostrar sinais de 
debilidade.
     Julianna fez como ele lhe pediu.
     Santo Deus, era como se estivesse  espera que algo parecido lhe acontecesse. Julianna abriu uma pequena maleta de pele. Num dos bolsos tinha uma faca afiada, 
uma lmina em forma de gancho e tesouras. No outro encontrou agulhas e fio.
     Ela olhou para ele incrdula.
     - Material mdico? - Perguntou espantada.
     Ele esboou um sorriso.
     - Digamos que gosto de estar preparado. - Na verdade, Dane sentia-se como um estpido. No tinha estado preparado para que ela disparasse. Talvez a ferida lhe 
tivesse afectado o juzo, mas no conseguia sentir-se zangado com ela. O que tinha feito requeria uma grande dose de coragem.
      Julianna tambm no estava surpreendida, quando parou para pensar. Fora ele quem escolhera uma vida perigosa.
     Ouviu atentamente as indicaes dele. Depois de pulverizar a faca com aguardente, encheu-se de coragem e segurou-o com fora. O corao batia-lhe com tanta 
fora que nem conseguia pensar.
     Dane deteve-a com a mo.
     - Espera!
     Julianna deteve a faca a poucos centmetros do peito dele. Ele agarrou na garrafa e bebeu vrios golos. Quando ia a pois-la novamente no seu lugar, deteve-se.
     - Talvez queiras beber um pouco, tambm.
     Que se atrevesse a pensar nisso dizia muito do estado em que se encontrava. Olhou fixamente para a faca que tinha na mo.
     - Creio que no, senhor. Se o fizesse, como achas que poderia manter o pulso firme?
     A voz orguhosa quase o conseguiu provocar. No entanto, parecia que uma nvoa se tinha instalado em cima da sua cabea, embora no soubesse se era provacada 
pela aguardente ou pela dor.
     Deitou-se de costas e disse tranquilamente.
     - Estou pronto - foi tudo quanto ele disse.
     Rezando tudo o que sabia, Julianna comeou a trabalhar.
     
     Apenas uma nica vez, Julianna atreveu-se a olhar para o seu rosto, e foi um erro, porque ao faz-lo, quase deixou cair a faca. Estava to plido como a neve 
e os olhos mantinham-se fechados. Perguntou-se se teria desmaiado; e de facto, esperava que assim fosse. Mas depois viu-o engolir em seco, e viu a tenso dos tendes 
na sua garganta.
     As lgrimas amontoavam-se nos olhos dela, brilhantes e hmidas. Era incrvel que conseguisse suportar a sonda dos instrumentos no seu peito. Encontrou carne 
e msculos colados ao osso duro. Estava a ser muito corajoso, e saber disso, doa-lhe profundamente.
     Uns minutos mais tarde, a bala caiu na tigela. Mas comeara a sangrar de novo e a sonda tinha amolecido a abertura por onde a bala tinha entrado. No tinha 
outro remdio seno coser a ferida. Respirou aliviada quando finalmente terminou.
     Dane tremeu da cabea aos ps. Os olhos dele abriram-se.
     - J est. No foi assim to mau, pois no? - A voz dele era rouca, apenas um fiozinho de voz. E tentava sorrir corajosamente.
     Julianna no conseguia. No conseguia respirar. Tinha um n na garganta e o sangue dele, ainda quente, colado aos dedos.
     As paredes da cabana comearam a girar ao seu redor e o estmago comeou a girar com elas. Desatou a correr e vomitou fora da cabana para se desfazer daquele 
mau estar que a oprimia.
     Com os braos segurava-se ao peito, balanando-se uma e outra vez, para a frente e para trs. Sentia-se como se o mundo estivesse louco e ela com ele.
     Tudo o que tinha querido era sair de Londres por uns dias. Como se, um pouco de excitao animasse a sua entediante vida!
     Mas isto no. Nunca isto.
     Umas lgrimas quentes comearam a cair pelas suas faces. Por fim, limpou as faces com as costas da mo e esfregou ligeiramente a boca com a ponta do vestido 
antes de voltar a entrar.
     Os olhos de Dane nunca deixaram de observar aquele rosto branco.
     - Ests melhor? - Murmurou ele.
     De p junto a ele assentiu, ainda incapaz de falar. Tentava controlar com todas as suas foras tantas emoes contidas e era como se ele se apercebesse disso, 
observando-a intensamente.
     - Ests bem, no ests?
     Ela levantou a cabea.
     - porque no deveria estar? - Disse com toda a dignidade de que foi capaz.
     Ele sorriu.
     - Claro, porqu? - E o sorriso desapareceu. - s uma pessoa inquietante, no achas? Primeiro ds-me um tiro e depois pes-te a chorar.
     Julianna no sabia o que dizer, pelo que preferiu ficar em silncio.
     Dane abriu a boca. Ia a dizer mais alguma coisa, mas calou-se. Tinha os olhos turvos e desfocados. Julianna percebia como tentava manter-se acordado, sem conseguir. 
Fechou os olhos e sucumbiu ao cansao e  dor.
     Ou pelo menos foi isso que ela pensou.
     De repente, os olhos dele voltaram a abrir-se.
     - Percival. Esqueci-me dele. - Parecia bastante agitado. - Algum tem de tratar dele.
     Julianna franziu a testa.
     - Percival?  teu amigo?
     Ele olhou para ela como se fosse louca.
      - Percival  o melhor cavalo que um homem pode ter - declarou ele. - Mas... precisa que lhe dm de comer.
     Com um gemido de dor, tentou levantar-se. Julianna obrigou-o a deitar-se outra vez.
     - No te preocupes! Eu fao-o.
     - Tu?
     - Sim, eu - disse ela com firmeza. - Prometo.
     A sua convico pareceu convenc-lo. Em segundos j estava a dormir.
     Julianna abanou a cabea enquanto o tapava. Um sorriso inesperado aflorou nos seus lbios. Aqui estava ele, ferido e exausto, e a nica coisa com que se preocupava 
era com o seu cavalo.
     Tpico dos homens!
     
      
Captulo 6
     Dane durmiu o dia todo. Julianna teria jurado que no movera uma s parte do corpo em todo esse tempo. Aproximava-se da cama e, de vez em quando, inclinava-se 
sobre os seus lbios para comprovar que continuava a respirar.
     Enquanto ele dormia, ela dedicou-se a arrumar e a limpar a cabana. O vestido que trouxera na viagem estava sujo e rasgado, a parte de frente cheia de manchas 
de sangue de Dane. Atirou-o ao fogo junto com os panos ensanguentados da operao e vestiu outro.
     Ao anoitecer, saiu para inspeccionar os arredores da cabana. Dane no mentira ao dizer que estavam no meio do bosque. O cu que os cobria era de um azul sereno 
e escuro. Havia um riacho prximo, a julgar pelo murmrio da gua que chegava aos seus ouvidos.
      Descobriu que teria de ser ela a ocupar-se das necessidades de ambos. As mais imediatas eram sem duvida, a comida, a gua e manter o fogo da fogueira. Era 
primavera e, embora os dias comeassem a ser quentes, as noites ainda eram frias. Teria que tratar do fogo, decidiu. Se ele se apagasse, no tinha a certeza de o 
poder voltar a acender. Envergonhava-a bastante ter de admitir que nunca na sua vida tinha preparado um, que no sabia como o acender.
     Havia uma pilha de lenha mesmo ao lado da porta, pelo que viu que era a suficiente para manter a fogueira toda a noite. Encontrou Percival numa pequena construo 
anexa  cabana. Metade dela tinha sido transformado em estbulo. A surpresa que teve foi enorme ao ver o imponente animal negro. Aproximou-se dele cautelosamente 
e deteve-se a uns passos dele.
     Era um garanho lindo. Olhava para ela com ateno, examinando-a com os grandes e expressivos olhos e com as orelhas empinadas. O seu plo era de cor azeviche, 
brilhante, reluzente  luz do crepsculo. Mantinha-se orgulhoso, com os elegantes e poderosos msculos em tenso.
     Julianna tinha a sensao de estar a ser julgada e desejou com todas as suas foras passar na prova. Levantou lentamente a mo e passou suavemente os dedos 
sobre as linhas do seu pescoo. A pele tremeu sobre a sua mo. Julianna conseguia sentir o seu poder, mas no mostrou nenhum sinal de violncia.
     - Meu Deus, s um grande exemplar, no s? Exactamente como o teu dono. - O cavalo resfolegou e abanou a cabea orgulhosamente. Ela continuou a acarici-lo, 
falando-lhe em voz baixa, em tom suave, deixando que se acostumasse ao seu cheiro e  sua presena.
     No demorou muito tempo para que o animal procurasse com o nariz a palma da mo dela. Depressa voltou a fazer o mesmo.
     Julianna riu-se.
     - O que ? Procuras o teu torro de acar? Desculpa, Percival, mas acho que hoje no tenho nada para ti.
     Procurou ao seu redor e descobriu uma porta perto da parede exterior. Na pequena diviso encontrou o que procurava: um saco de rao. Agarrou o balde que estava 
junto dele e encheu-o at ao topo. Sem hesitar, entrou no estbulo, com a certeza de que o animal j a tinha aceitado, pelo menos, era o que esperava!
     O animal relinchou ao ver que ela vertia a rao no comedouro. Dando-lhe palmadinhas no pescoo, Julianna retrocedeu e viu o bebedouro meio de gua. O poo 
no estava longe.
     Depois de encher com gua limpa e fria o bebedouro de Percival, virou-se e viu que Maximilian tambm tinha entrado no estbulo e brincava nariz com nariz com 
o imponente Percival. A imagem f-la sorrir. Estava claro que o par se conhecia h muito tempo.
     Aquele sorriso no durou muito tempo no seu rosto. Sem saber porqu, uma sensao de pesar envolveu-a, tinha vontade de chorar... novamente! As recordaes 
atormentavam-na. Sentia-se mal por ter fingido estar doente. O equvoco no batia certo com a sua personalidade. O que  que Dane tinha dito antes de lhe acertar?
     "Estou preocupado consigo, gatinha."
     Estava? Estava mesmo? E depois, quando se voltou... a sensao de culpa era insuportvel. No se tinha preocupado com ele, mas com ela. Que espcie de homem 
era? Perguntou-se. E porque se importava tanto? O pouco que sabia dele no era precisamente louvvel: era um fugitivo, um ladro.
     Contudo, tudo dentro dela lhe dizia que no era um homem cruel, que era um homem com alma.
     E ela no era uma mulher sem conscincia.
     Mordendo o lbio olhou para Percival, que sorvia sedento do recipiente com gua. Podia ir-se embora. Deveria ir. Agora podia faz-lo, s tinha que montar Percival 
e... podia se livre de novo.
     Mas aquela determinao tinha-a abandonado. No podia deixar Dane. Simplesmente, no conseguia.
     Maximilian rondava aos seus ps. De repente, encaminhou-se para o interior da cabana, que estava entreaberta. O gato parou ali e olhou para ela suplicante... 
como se estivesse  espera dela...
     Julianna suspirou.
     - Sim, Maximilian, j vou.
     
     Durante a noite Dane debateu-se entre o calor da febre e uns violentos calafrios. Ao despertar, olhou para ela fixamente com os olhos dourados e vidrados. Julianna 
tinha a desconcertante sensao de que a atravessava com o olhar, como se nem sequer ali estivesse. Doa-lhe no poder ajud-lo, doa-lhe tanta solido. No tinha 
remdios. Tudo o que podia fazer era limpar a ferida e esperar.
     Estava esgotada, mas tinha medo de dormir, medo que ele pudesse precisar dela. Ao meio-dia do dia seguinte, tomou uma deciso. Se no estivesse melhor na manha 
seguinte, procuraria ajuda. Tinha que haver alguma povoao perto, um caminho. Uma quinta, talvez. Devia haver algo que ela pudesse fazer.
     "Mas e se algum descobria que era o famoso Urraca? - avisou-a uma voz no seu interior. - O que fars ento? Como te sentirias?"
     Como um traidora, de certeza. No fazia sentido, porque no lhe devia nada. Tinha cuidado dele o melhor que pudera. No entanto, no conseguia explicar aqueles 
sentimentos estranhos por ele. Era quase parecido a ... lealdade. Ah, no tinha sentido! E isso, tambm era uma coisa que no percebia.
     Havia uma coisa da qual tinha a certeza: no podia deix-lo morrer.
     Avivou o fogo e decidiu que passaria a viglia junto da sua cama. Aproximou uma cadeira para o poder ver melhor. A cor escura das sobrancelhas e a madeixa de 
cabelo que caa pela sua testa contrastava com a palidez da sua pele. Levantou-se para retirar aquela madeixa rebelde, um gesto muito terno.
     - Tens que ficar bem, Dane. Tens de o fazer.
     Quase sem pensar, viu-se a si prpria agarrando-lhe a mo que tinha fora das mantas. Um gesto que ele pareceu agradecer: ela teve a impresso de que a sua expresso 
era muito mais calma se o acariciasse. Mais do que uma vez esteve quase a sucumbir ao sono, mas obrigou-se a permanecer acordada.
     Foi Maximilian o primeiro a perceber... o animal deu um salto at  cama e esticou-se junto do seu dono.
     Demorou um tempo a perceber que Dane tinha os olhos abertos e olhava para ela curiosamente. Mas desta vez o seu olhar era limpo e claro.
     - Ainda continuas aqui. Pensei que estava a sonhar.
     A voz dele soou rouca e enferrujada
     - Como  que te sentes? - Perguntou ela.
     Ele tentou dizer-lhe com o olhar. O castanho dourado dos seus olhos contrastava com a barba a nascer do seu queixo. At parecia perigoso, com aquela mandbula 
forte e escura. A sua expresso era a de uma pessoa esgotada.
     Fechou os olhos. Os dois ouviram a sua respirao irregular.
     - Quanto tempo? - Conseguiu ele dizer.
     - Desculpa?
     Abriu os olhos e molhou os lbios com a lngua.
     - Quanto tempo estive inconsciente?
     - Desde ontem de manh.
     Olhou em direco  janela, atravs da qual o sol vertia uma luz preguiosa sobre a diviso.
     - Todo o dia? - abanou a cabela. - No  possvel.
      Julianna sorriu compadecida.
     - Mas  verdade.
     Dane no disse nada. Baixou o olhar para ver as suas mos. Julianna apressou-se a retirar as dela, sentindo como o rubor lhe subia s faces.
     Embora no pudesse esconder uma expresso de espanto, preferiu no dizer nada a esse respeito. Julianna ficou-lhe profundamente agradecida. O corao comeou 
a bater com fora. Em algum canto da sua cabea, perguntou-se como seria sentir a dureza dos lbios dele sobre os dela... ah, diabo de homem! O que teria para a 
afectar daquela forma? Ela no era das que costumavam ter pensamentos lascivos sobre os homens. E porque tinha que ser precisamente este? No fazia ideia nenhuma...
     Aquele pensamento foi bruscamente interrompido ao ver que ele se levantava e afastava a manta para o lado.
     - Que raio est a fazer?
     - Que raio te parece que estou a fazer? - Respondeu ele.
     Julianna levantou-se. A cadeira caiu para trs, com o impulso, com uma sonora pancada. Ela no se importou.
     - No penses que te vais levantar - admoestou-o. - Ouviu-me, senhor?
     Ele parecia to zangado quanto ela.
     - Minha querida Julianna,  impossvel no o fazer. - Com uma esgar ps os ps no cho. - E nestas circunstancias, parece-me ridculo que continues a chamar-me 
de senhor. O meu nome  Dane.
     - Muito bem. Ento, Dane. Agora diz-me, Dane: onde pensas que vais?
     Ele murmurou uma furiosa maldio.
     Julianna no se assustou.
     - No h necessidade de perder a educao!
     - Querida, claro que h necessidade. No  minha inteno ofender-te. No entanto, no sei como dizer isto, mas... nesta situao, parece que um homem tem certas 
necessidades. - Calou-se, observando a reaco dela.
     - Necessidades? - Abriu a boca incontroladamente, com os olhos a brilhar de fria. - Como  que podes sequer pensar nessas coisas...?
     - No - interrompeu-a - esse tipo de necessidades. - Olhou para ela tentando fazer com que ela o entendesse. - Posso esperar que sejas amvel o suficiente para 
me deizar a ss por uns minutos?
     Julianna ficou paralizada de vergonha.
     - Ah - sussurou ela. - Ah! - Engoliu a saliva, com o rosto vermelho como uma ma, e voou at  porta. Esteve quase a dizer-lhe que a chamasse se precisasse 
de ajuda mas... como  que isso teria soado?
     Deixou passar um tempo que ela considerou prudente para utilizar o penico. Depois bateu  porta, sentindo-se ainda bastante estpida. No teve resposta. Tentou 
escutar atravs da porta e depois bateu novamente, com mais fora, desta vez.
     - Dane? - Chamou por ele.
     No obteve resposta. Preocupada, abriu a porta e olhou para dentro. Ele estava de p junto da mesa, com uma expresso preocupada no seu rosto, enquanto se abraava 
a si prprio com uma mo. A vergonha dela desapareceu ao v-lo branco como a cera. Parea prestes a desmaiar. Ela aproximou uma cadeira e ajudou-o a sentar-se.
     - Vejo tudo  roda.
     - Pe a cabea sobre a mesa. - Suavemente ajudou-o a baixar a cabea.
     Depois de um tempo naquela posio, pde finalmente levant-la. Ela sentiu-se aliviada ao comprovar que alguma cor tinha voltado s faces dele.
     - Jesus - murmurou ele.
     - Como te sentes? - Perguntou Julianna.
     - Frgil como uma criana. - Admitiu ele.
     - Perdeste muito sangue - disse ela compreensiva. - Ainda te levar uns dias para recuperar as foras.
     Ele suspirou.
     -  verdade - murmurou ele secamente. - Aparentemente as coisas mudaram. Estou completamente nas tuas mos. Posso confiar em ti?
     Julianna no conseguiu evitar o sorriso que aparecia nos seus lbios.
     - Claro que podes - disse alegremente. - Agora volta para a cama, se...
     Calou-se ao ver o olhar de reprovao dele.
     Agarrou-o pelo brao para o ajudar.
     - Volta para a cama, Dane.
     Desta vez no houve protestos.
     Mais tarde encontrou-se a reflectir consigo prpria...
     As coisas tinham mudado, evidentemente. O Urraca estava completamente nas suas mos. Era um estranho pensamento para se ter em conta. Bom, no completamente 
nas suas mos, decidiu. Frgil ou no, havia uma aurola de fora que o rodeava e que nada nem ningum conseguia esconder. A cama parecia invadida pela extenso 
do seu corpo. No se enganou ao v-lo imvel, quase adormecido. A viso do seu peito nu era perturbante e no conseguira afastar os olhos dele durante todo o dia. 
Mais de uma vez sentiu como o seu rosto queimava e tinha que entreter os olhos com outra coisa qualquer.
     Ao procurar no armrio, tinha encontrado alguma carne seca. Nunca poderia recuperar as foras se no comesse, pensou Julianna. Mas sabia que tambm no seria 
adequado comer demasiado naquele momento.
     Havia vrias panelas de diferentes tamanhos penduradas perto da chamin. Ps-se em pontas dos ps para alcanar a mais pequena e solt-la do gancho onde estava. 
Encheu-a com gua do poo e colocou-a num gancho suspensa sobre o fogo. Depois meteu dentro dele um bom pedao de carne e um pouco de sal. Sacudindo as mos deu 
um passo atrs e esperou. Depois de dar de comer a Percival, trazer mais lenha para casa e encher o balde de gua, Julianna voltou para junto do fogo. Levantou a 
tampa para ver como estava a cozedura e cheirar o seu contedo. O liquido parecia escuro e turvo, nada apetitoso, na verdade. Ah, o que teir dado por um bolo e uma 
taa de chocolate!
     As sombras da noite irromperam na diviso. Julianna acendeu vrias velas e voltou  panela. Nesse momento, Dane acordou.
     - O que  isso? - Perguntou ele.
     - Sopa. Pensei que gostarias. Queres um pouco?
     Ele concordou.
     Julianna encheu cuidadosamente uma tigela de madeira e aproximou-a da cama. Dane levantou-se para se sentar, com as costas na cabeceira. Ao faz-lo, sentiu 
como se agulhas de gelo se cravassem no peto e ao longo do brao esquerdo. Deixou de se mover e apalpou o brao com a mo direita.
     - Por todos os diabos... - amaldioou -... acho que no consigo segurar a maldita tigela!
     - Est bem - deteve-se diante dele, - posso dar-te de comer, se quiseres...
     Dane franziu a testa, com a boca muito tensa.
     - No est nada bem. No quero que tenhas que me alimentar como a uma criana!
     Julianna gelou. No sabia se lhe atirava a tigela  cabea. E Dane percebeu.
     No entanto, antes que ele dissesse mais alguma coisa, ela disse:
     - Pode ser que amanh te sintas melhor para te sentares  mesa. Mas agora, tenho uma ideia.
     Ento, aproximou-se da cama e deu-lhe um copo com a sopa quente.
     Ele aceitou com um movimento de cabea. Sem pensar, bebeu um golo. Os seus olhos turvaram-se e teve que reprimir a tosse. Por todos os cus. Teria deitado o 
sal todo na sopa? Ergueu os olhos por cima do copo e viu que os dela o observavam ansiosamente, na espectativa, sem outro desejo que o de lhe agradar.
     E pronto, pensou ele amargamente, a besta de novo em aco.
     Horroroso como era, bebeu at  ltima gota.
     Colocou o copo de lado e voltou a deitar-se.
     - Desculpa - disse em voz baixa. - No devia ter perdido a cabea daquele modo. No  culpa tua.
     Ah, mas era. E ambos sabiam disso. Julianna lutou por conter as leves e estpidas lgrimas. Devia ter-se retirado antes que ele a visse, mas ele apressou-se 
a agarrar-lhe os dedos.
     Abanou a cabea ligeiramente.
     - Eu... no  nada - disse ela incmoda.
     Dane franziu a testa a aproximou-se para a ver melhor.
     - Pareces cansada - disse ele.
     - Estou bem - ela tentou sorrir. - A srio.
     Mas Dane conseguia ver por trs daquele escudo de valentia.
     - Ests esgotada, no ests?
     - E porque  que dizes isso?
     Ora. A moa era teimosa e persistente. Tentou de outra forma.
     - Quando foi a ultima vez que dormiste?
     - No me lembro.
     Ele arqueou uma sobrancelha.
     - Mas dormiste?
     - Um pouco. - Mentiu ela.
     - No dormiste nada - disse ele com toda a firmeza.
     - Claro que dormi! - Insistiu ela. - Dormi aqui! - Assinalou a cadeira que tinha perto dela.
     Dane revirou os olhos emitindo um som de desaprovao.
     - Est bem. No vais dormir a esta noite.
     Ela retirou a mo e p-la na cintura.
     - Evidentemente tu no ests em condies de o impedir - disse ela.
     - Ah, no? - Dane deu-lhe um sorriso enquanto assinalava com o olhar o copo vazio. - A tua sopa deu-me foras.
     Ela pestanejou. No tinha a certeza do que estava a dizer.
     O seu paciente manteve o olhar com determinao e mostrou com clareza a sua inteno ao retirar a manta.
     - No te atrevas! - era um protesto inflamado e violento.
     Dane deteve-se, questionando-a com o olhar.
     - Ah, tu s insuportvel! - Gritou ela.
     Dane suspirou.
     - Por acaso preciso de te lembrar que no estou em condies de tentar nada contigo? O que pensariam as pessoas de mim se soubessem que deixei uma mulher dormir 
numa cadeira enquanto eu ocupava a cama?
     Encarou os olhos dela hesitantes. Mas ele conseguia sentir que comeava a ceder.
     - Diro, sem duvida nenhuma, que s um canalha, e de facto,  verdade.
     Dane levantou a ponta do lenol.
     - No far bem a nenhum de ns se no descansares.
     - Seria completamente inadequado eu dormir contigo nessa cama.
     Ele grunhiu.
     - Mas menina, j o fizeste.
     - E acho que no  muito simptico da tua parte que mo recordes. - Era verdade. Mas na altura no tinha podido escolher, sendo ele o Urraca e ela a sua prisioneira. 
Mas agora... agora, sim, tinha opo.
     A sua deciso comeava a enfraquecer. Era uma loucura, disse a si prpria. Ela no conhecia aquele homem. Tudo o que conhecia dele era repreensvel!
     Voltava a ter os dedos entrelaados com os dele. Sentiu como ele lhe acariciava a mo, puxando-a suavemente.
     - Vem - convidou-a. - Vem dormir comigo, gatinha.
     Ela abriu os olhos de espanto.
     - Se no estivesses ferido, creio que te esbofeteava pela tua insolncia.
     Dane fez um som que foi meio riso, meio gemido enquanto ela se metia na cama. O homem que no reconhecesse a maravilha desta mulher devia estar morto.
     - Ah, gatinha! Se no estivesse ferido, creio que o merecia.
      
     
Captulo 7
     Julianna j estava de p quando Dane acordou na manh seguinte. Tentava apanhar o cabelo diante do espelho oval da parede perto da porta. Ela voltou-se para 
ele ao ver que tinha acordado.
     - Bom dia - murmurou, tentando sorrir.
     - Bom dia - respondeu ele.
     O desejo atravessou-o ao ver que se aproximava dele. Tinha um simples vestido de mousselina branca. Os olhos de Dane seguiram o delicado lao azul que marcava 
a forma do seu corpo. Por baxo do tecido, divisavam-se os seus seios redondos e elevados, a sua pele branca e suave. Queria toc-los... acarici-la, para ver se 
era to suave como parecia. E quando se sentou e se inclinou sobre o ombro dele para o examinar, teve que fazer um esforo para poder retirar os olhos do decote 
que se abria diante dos seus olhos. Nem sequer a dor aguda do seu ombro ao ser tocado podia desvanecer aquele desejo penetrante e repentino que se tinha apoderado 
dele ao v-la. O cheiro a rosas penetrava no seu nariz. Deus, ela era doce e fresca, e ele... sentia-se to desmazelado!
     No percebeu de que enquanto ele se permitia admir-la, Julianna tambm estava a admirar o que via. Em toda a sua vida, nunca tinha visto ningum to msculo. 
Era muito perturbante, decidiu irritada. Porque diabo a pertubava daquela maneira?
     Sentou-se, tentando manter a vista na ligadura. Impossvel! Com o pescoo e o peito descoberto, parecia maior do que nunca. O tamanho daquele homem era surpreendente. 
Os seus braos eram longos e musculosos, cobertos por um fino pelo escuro e sedoso. At os seus pulsos eram grandes, os dedos elegantes e robustos. Quando roou 
com os seus dedos na pele do peito dele, fez-se-lhe um n no estmago.
     Os musculos do seu ventre contraram-se. Uma estranha e desconhecida emoo revolveu o seu interior. Quase com desespero, tentou acalmar a pulsao. Teria sido 
necessrio que houvesse camadas e camadas de roupa entre eles. Camisa, casaco, jaqueta, gravata. No estava habituada quilo. No estava habituada a tocar num homem, 
ponto. Mas a verdade  que nada se intepunha entre eles, nada excepto uma pele masculina muito intimidante...
     Julianna tentou recuperar o flego, o tom de voz.
     - Vamos verificar isto, est bem?
     -  necessrio? - A expresso dele era sombria, fez uma careta de dor quando ela comeou a retirar a ligadura do ombro.
     Ela inalou profundamente quando por fim viu a ferida. Revolveu-se-lhe o estmago ao ver a pele negra e perfurada pelo fio dos pontos.
     - Est feio, no est?
     Julianna examinou-o mais detalhadamente. Estava curado e pouco sujo de sangue.
     - Na realidade, no - aventurou-se a dizer. - Est arroxeado e negro, mas creio que  assim que devia de estar. Sinceramente, tem melhor aspecto do que esperava.
     J tinha colocado uma tigela com gua quente no cho e uma pilha de ligaduras limpas em cima da mesa. Dane contraiu-se quando comeou a limpar a ferida, embora 
tivesse que reconhecer que estava a ser muito cuidadosa. Olhou para os dedos dela enquanto trabalhava. Eram lindos e pequenos, como o resto dela. Apenas sentia as 
suas mos no seu corpo. Falava-lhe com uma voz doce e melodiosa que contrastava com a aspereza da sua lngua... uma contradio intrigante!
     Vigiou-a enquanto dobrava o tecido num quadrado.
     - s muito eficiente, j trabalhaste num hospital?
     Julianna pestanejou.
     - Deus, no.
     - Ests a brincar?
     - Um pouco.
     - Porqu?
     - Bom, na verdade, a nica experiencia que tenho  com animais.
     Desde a infncia, sempre se tinha preocupado em cuidar das criaturas maltratadas: um coelho orfao, um co com a pata ferida numa armadilha... como tinha desjado 
ficar com eles depois de curados! Tinha implorado e suplicado.
     Mas o pai sempre se negara.
     Do seu irmo Justin tinha herdado aquele ar desafiante e teimoso, com o qual tinha curado o cachorro s escondidas do seu pai e o tinha mantido escondido na 
casa do cais. Sebastian e Justin tinham-na ajudado, levando secretamente comidao ao cachorro. E quando ficou curado, Prudence, da aldeia prxima a Thurston Hall, 
acolhera-o na sua casa.
     O seu pai teria ficado furioso se tivesse sabido. No  que algum deles se importasse, mas...
     - Que tipo de animais? - Perguntou ele.
     Julianna encolheu os ombros.
     - Alguns coelhos. Uma vez, um pssaro com a pata partida. - No conseguia esconder o sorriso da sua boca. - Mas parece-me que tu s o mais animal de todos.
     - Obrigado. Agrada-me saber o que pensas realmente de mim.
     - No te queixaste durante uns dias - lembrou-o.
     -  verdade - olhou para ela enquanto dobrava cada uma das ligaduras e as ia colocando no seu lugar, - mas parecia que algum te tinha ensinado bem.
     Julianna estava concentrada no seu trabalho, e a sua voz era meio ausente.
     - Para dizer a verdade, Sebastian curava-me as feridas e os arranhes quando eu era pequena.
     - Chamas o teu pai pelo seu nome de baptismo?
     - No, claro que no. Sebastian  meu irmo.
     Dane olhou para ela admirado.
     - O teu irmo curava-te as feridas?
     - Devias conhecer o meu irmo.  um homem muito protector.
     - Onde estava a tua me?
     O sorriso dela desapareceu. Era a pergunta lgica, sups.
     - Nem me lembro da minha me.
     - Sinto muito. - Deteve-se. - Morreu quando eras criana?
     - Sim. Ela... ela fugiu com outro homem - revelou-lhe sem pensar. - Morreu ao cruzar o Canal. Os dois morreram num acidente.
     Ele olhava para ela fixamente.
     - Santo cu!
     - Sim, foi uma grande desgraa.
     - E o teu pai?
     - Tambm morreu h uns anos. - Enterrou os dedos entre o tecido do seu vestido. O sorriso dela era um pouco forado quando ergueu a cabea. - No sei porque 
te conto isto. Normalmente, nem penso nisso.
     Dane ficou em silncio durante uns segundos. Depois perguntou:
     - Quantos anos tens, Julianna?
     Ela revirou os olhos.
     - Isso, senhor, no lhe diz respeito.
     - Ah, v l - disse ele sem lhe dar importncia. - Quantos anos tens?
     Julianna olhou para ele com os lbios apertados.
     - Muito bem. Tentarei adivinhar. Vinte e oito?
     - Claro que no! - Disse ela entre dentes.
     Ofendera-a. Devia ser mais jovem. Dane voltou a tentar.
     - Vinte e sete?
     Ela no confirmou nem negou, o que significava que tinha acertado. Tinha vinte e sete.
     - Porque no te casaste?
     - Essa  uma pergunta que no se deve fazer a uma senhora!
     Ele insistiu.
     - s por acso uma bomia intelectual?
     Julianna conseguia sentir o rubor a subir s suas faces.
     - Tens que continuar a insultar-me?
     - No  minha inteno insultar-te.  estranho que uma beleza como tu no se tenha casado. J devias ter pelo menos trs crianas a puxar a tua saia.
     Crianas. Lembrou-se dos filhos dos seus irmos. Os gmeos de Sebastian, Geoffrey e Sophie, e a nova filha de Justin, Lizzie. Amava-os com loucura, mas no 
eram seus. E de repente, sentiu aquele desgosto no estmago.
     A falta doa-lhe. No conseguia evitar. Tinha pensado milhares de vezes e ainda continuava a doer-lhe.
     A sua mente voltou irremediavelmente para Thomas. A audcia voltou a destro-la, mas tentou que ele no reparasse. "Se ao menos... - pensou. - Se ao menos..." 
no seu interior, sabia que Thomas no era homem para ela, que nunca tinha sido, mas havia alturas em que pensava em como poderia ter sido.
     - Fazes perguntas que no te dizem respeito. - Disse-lhe incomodada.
     - Talvez. Mas e se te disser que sou um homem que elogia a sinceridade e a honestidade?
     - Tu? Um foragido? - Respirou fundo. - Diz-me ento, porque  que tu no te casaste. Ou s casado?
     - No sou.
     Ela olhou para ele devastada.
     - Talvez ningum te queira.
     - Isso  possvel. Mas ainda no pedi ningum em casamento.
     - No creio que nunhuma mulher te aceitasse. - Atacou-o. - Com a tua condio de ladro, no acredito que possas oferecer uma vida estvel.
     No se importava que ela se metesse com ele. Merecia-o, pensou. Tinha estado a ironizar, embora tambm lhe tivesse perguntado por curiosidade. No entanto, ela 
respondera na defensiva, como se estivesse magoada, pelo que no a pressionaria mais. Visto que a encantadora Julianna era particularmente sensvel no que respeitava 
 idade e ao estado civil, e visto que a conversa podia muito bem derivar em discusso, Dane decidiu mudar de assunto.
     Levou uma mo ao queixo.
     - J alguma vez fizeste a barba a um homem?
     A expresso perturbada dela foi tudo o que precisava de saber. Descobriu tambm que estava aberta a qualquer tipo de desafio que se lhe apresentasse.
     - Confiarias em mim com uma navalha na tua garganta?
     A pergunta apanhou-o desprevenido. Dane no conseguiu evitar. Percorreu com o olhar o corpo dela. De repente, no tinha a certeza...
     - Talvez no sejas um homem honesto - disse ela docemente, - mas  evidente que s corajoso.
     Enquanto ela segurava o espelho, ele barbeava a barba crescida do seu rosto e pescoo. Depois de limpar os restos de sabo, olhou para ela.
     - Est melhor assim?
     Ela moveu a cabea, concordando.
     - Muito melhor. - Pronunciou. Voltou a colocar os instrumentos de barbear no armrio e voltou para junto dele com os lbios apertados. - Suponho que tenhas 
fome.
     -  verdade. Mas no quero mais daquela maldita sopa.
     Julianna abriu a boca espantada e depois fechou-a com um protesto. Parecia verdadeiramente ofendida.
     - Deverias saber que me custou imenso fazer aquela sopa.
     - E eu aprecio muito o teu esforo. Sinceramente. Mas tenho uma fome feroz, gatinha.
     - Sim, imagino que sim - a sua fria desapareceu. Parecia preocupada, - mas ontem comi o po que sobrava. E...
     Mordia o lbio.
     - O que ? - Perguntou ele.
     Ela olhou para ele relutantemente.
     - Creio que te devo dizer que nunca cozinhei nada na minha vida - confidenciou ela em voz baixa.
     - A srio? - Ele fingiu surpresa. - Nunca teria imaginado!
     Ela entrecerrou os olhos.
     - Ests a brincar comigo'
     - Longe disso. Tenho f em ti. Agora, se me quiseres ouvir por uns minutos, tenho uma sugesto para te fazer. L fora, na esquina norte da cabana h um pequeno 
armazm...
     Uma hora depois, toda a cabana cheirava a guidaso de carne e verduras. Julianna revolveu-o, provando um pouco enquanto deitava especiarias na panela. Depois 
quis deitar sal, mas Dana deteve-a.
     - Cuidado com o sal, gatinha.
     
     Ao chegar a noite, Julianna estava esgotada. Retirou o cabelo que lhe tapava os olhos com a mo. O que diriam Sebastian e Justin se a vissem agora? Perguntou-se 
enquanto carregava a gua e a lenha. Estava suja, despenteada... certamente no acreditariam!
     Mas a verdade  que ela estava orgulhosa de si prpria.
     Dane observou-a enquanto se sentava na beira da cama.
     - Cansada? - Perguntou ele.
     - Um pouco. - Admitiu.
     - Desculpa. Incomodei-te com as minhas perguntas sobre o casamento, no foi?
     No podia dizer que a sua cruz fosse fcil. Ele tinha estado a queixar-se, grunhindo, amaldioando pela sua inactividade e reprovando-a por no o deixar levantar-se 
da cama. No entanto, surpreendeu-se ao descobrir que nem uma nica vez durante todo o dia tinha pensado em Londres. Nem uma nica vez tinha desejado estar noutro 
stio qualquer. Para dizer a verdade, tambm no tinha tido tempo! Gostava de estar ocupada. E... gostava de se sentir til.
     Embora ele no fosse mais do que um bandido!
     Encolheu os ombros e tirou os sapatos. Ai, como lhe doam os ps! Tinha a certeza de que no se tinha sentado uma nica vez em todo o dia.
     Dane acomodou o brao sobre a almofada.
     - Minha querida Julianna, se faz com que te sintas melhor dir-te-ei que se tirares as meias no far com que perca o controlo dos meus desejos.
     Julianna franziu a testa. Aquela capacidade dele para descobrir o que ela estava a pensar, perturbava-a, e alm disso, a sugesto parecia-lhe bastante inadequada. 
Como era possvel que tivessem adquirido tal grau de confiana?
     J descala, esfregou os ps e apagou as velas, deslizando por baixo das mantas.
     Descansavam juntos, ombro com ombro. O nico som perceptvel era o do fogo a crepitar.
     Foi Dane o primeiro a falar.
     - Imagino que isto  uma mudana bastante grande, em comparao  vida confortvel a que ests habituada. Porque tinhas uma vida bastante relaxante, no era?
     - Sim, mas tambm no sou nenhuma preguiosa.
     Ele gaguejou.
     - Tambm no quis dizer que o eras. - Deteve-se. - O que estarias a fazer agora se no estivesses aqui?
     Ela ficou a pensar.
     - Bom - disse ela, - se estivesse na minha casa de Bath, estaria provavelmente a dar um passeio pelo campo. Se estivesse em Londres, preferia estar num baile. 
- Ao sorrir descobriu o duplo significado das suas plavras. - De qualquer maneira, suponho que os meus ps estariam to doridos como agora.
     Dane riu-se.
     - Obrigado. Isso faz com que me sinta muito melhor. - O silncio caiu entre os dois, mas no foi um daqueles silncios incmodos e assustadores.
     - Julianna?
     - Sim?
     - Porque ficaste, menina Julianna Clare? - Calou-se. Algo passou pela sua cabea. - Nunca pensei que ficasses.
     "Menina Julianna Clare." A sensao de culpa fez com que o seu sorriso desaparecesse. O seu olhar tornou-se angustiado: tinha esquecido aquela mentira.
     - Porque me perguntas isso?
     - Pensei que seria bvio. Porque quero saber. - Virou-se de lado, sobre o seu ombro so.
     - Dane! - Protestou ela. - no devias...
     - Quero ver-te quando me responderes. - Ignorando a dor do seu ombro, segurou-lhe o queixo com o seu dedo, obrigando-a a olhar para ele. - Porque ficaste? No 
tinhas que o fazer, podias ter ido embora.
     De repente, as lgrimas nublaram-lhe os olhos.
     - No - disse hesitante. - No podia. Olhei para trs e vi-te, a forma como olhavas para mim... no podia deixar-te daquela maneira. Fui incapaz! E... desculpa 
ter disparado. No imaginas o quanto sinto!
     Ele quase emitiu um gemido.
     - Tens um corao de ouro, no tens, gatinha?
     Ela abanou a cabea.
     - Dane, eu...
     Ele silnciou-a com um dedo.
     - Cala-te. - Pediu-lhe. Cala-te.
     Os olhos deles encontraram-se.
     As palavras que queria dizer evaporaram-se de repente.
     Ele no tinha planeado, embora por Deus, tivesse sonhado com isso. Simplesmente... aconteceu. Dane no sabia porqu... tambm no lhe importava. Baixou pouco 
a pouco o olhar para os lbios dela. Aproximando-se, viu como os olhos dela se abriam -  um vislumbre de entendimento mutuo - enquanto percebia a inteno dele.
     Fechou lentamente a boca sobre a dela.
     Ela no o deteve.
     No, ela no o deteve... e o mundo podia muito bem ter explodido em mil pedaos naquele momento, que Dane no se teria importado. Nada o poderia deter. As suas 
pestanas fecharam-se, os lbios dividiram-se entre os dele. O cheiro a limo que se espalhava na pele dela embriagava o seu nariz... o murmrio de um suspiro ecoava 
na sua boca.
     Levou o seu tempo, queria absorver a sua boca. Queria sabore-la, ver a maneira como o seu lbio inferior cedia ali, onde a cor rosada florescia... o calor 
da sua respirao misturada com a dele, a maneira como se acelerava o seu pulso.
     Esqueceu a dor do seu ombro. Era to doce e delicada que at tinha medo de se apoiar nela, medo que no pudesse suportar o seu peso.
     Um calafrio subiu-lhe pelas costas. Queria-a mais perto. To perto quanto um homem e uma mulher podiam estar. Queria apert-la entre os seus braos, tirar-lhe 
a roupa e percorrer cada centmetro da sua doce e cremosa pele; queria entrar nela e satisfazer a dor da sua masculinidade. Podia sentir a mousselina que cobria 
os seios. Uma parte dele queria rasg-la: porque continuava a dormir vestida? Mas o seu "eu" mais racional prevaleceu. Aquele no era o momento de se deixar pela 
lasciva. Para dizer a verdade, tinha-se prometido. Ela era virgem. Pura. Sabia-o instittivamente, e no a queria assustar.
     Quando finalmente levantou a cabea, o corao batia-lhe a mil  hora. Os olhos de Julianna elevaram-se lentamente para ele, procurando o seu rosto, enquanto 
comeava a respirar em pequenas inspiraes, algo que o punha louco. Na profundeza do seu olhar, viu um brilho de confuso, o mesmo remoinho que ele sentia.
     Ela abriu a boca.
     Ele tapou-a com um dedo e abanou a cabea. No sabia porqu, mas no queria arruinar aquele momento delicioso.
     Finalmente conseguiu esboar um sorriso.
     - No, gatinha, no digas nada. S... dorme.
     E foi o que fez, dormiu at ao dia seguinte.
     
      
Captulo 8
     Pelo segundo dia consecutivo, Julianna levantou-se antes de Dane. Ele acordou tarde, mas o seu estado parecia ter melhorado consideravelmente. Tanto que se 
levantou para dar uma volta pela cabana. Julianna sabia que se sentia frustrado por no poder utilizar mais do um brao. E por isso sugeiru-lhe que pendurasse o 
seu brao magoado com uma ligadura, e aquilo pareceu agradar-lhe.
     Nenhum dos dois quis falar no que tinha acontecido na noite anterior.
     Julianna sentiu-se imensamente agradecida por isso. Na realidade, continuava sem acreditar. O calor subia-lhe s faces quando pensava naquilo... e no conseguia 
deixar de o fazer!
     Porque a tinha beijado?
     E o mais importante, porque o tinha deixado?
     No obtinha resposta. A nica coisa que ssabia era que no conseguia deixar de olhar para ele, e no havia nada a fazer contra isso.
     Porqu? - Perguntava-se.
     Era uma autntica loucura. Depois da traio de Thomas, tinha-se retirado durante meses. Odiava os escndalos tanto quanto Sebastian e quando por fim se recuperara, 
alguns cavalheiros da alta sociedade londrina tinham tentado captar a sua ateno, at que a sua firme recusa tinha acbado por faz-los desistir. No fundo do seu 
corao, tinha prometido a si prpria que no voltaria a deixar-se magoar novamente da forma como Thomas o tinha feito. Portanto, se no tinha nada, no perderia 
nada.
     E nisso tinha-se educado bem a si prpria. No se perguntava como seria dormir nua junto de um homem, sentir a carcia da sua boca na pele, o calor do seu abrao. 
Nos seus seios. No seu estmago. At entre as coxas...
     Mas na noite anterior tinha-o feito. Horas antes do amanhecer, tinha tido um sonho. Via-se a si prpria a dormir nua com Dane. Por baixo dele. E ele tambm 
estava nu. Gloriosamente nu...
     Foi um sonho louco. Trrido. To ertico que se envergonhava de o ter tido. Por isso tinha praticamente saltado da cama nessa manh.
     Como podia... aquele... aquele safado afect-la daquela maneira?
     Pelo menos tinha vestido a camisa... pelo que lhe estava agradecida. Mas as formas dos seus msculos no se podiam esconder, os msculos dos seus ombros continuavam 
 vista, redondos e consistentes. O pescoo da camisa estava aberto e deixava ver parte da pele coberta de plo que fazia com que o rubor subisse s suas faces. 
Ah, sim, embora tivesse o peito coberto, o efeito que provocava nela era devastador. Seguiu-o com os olhoss enquanto se levantava e atiava o fogo. No podia negar 
que tinha um perfil irresistvel. Traou com o olhar a marca das sobrancelhas, o contorno do seu nariz - tinha um ligeiro golpe que no tinha reparado antes, - o 
seu queixo. As faces dele e o queixo voltavam a estar negras pela barba. Emanava tal masculinidade que o pulso aceleva-se mesmo quela distncia! Claro, era indecente 
pensar daquela maneira!
      No ajudava que ela o surpreendesse a observ-la furtivamente mais do que uma vez. Voltou a colocar o atiador no seu lugar e voltou-se.
     Olhou para ela mais uma vez.
     Era o suficiente.
     - Porque me olhas assim?
     - Estava a pensar que j ti vi antes.
     - No creio - disse ela com calma.
     Ele arqueou uma sobrancelha.
     - E se te disser que te enganas?
     Ela olhou para ele sofucada.
     - E onde pode ter sido? Parece-me que no frequentamos os mesmos crculos. Ou j me roubaste antes?
     Ele continuou com a sobrancelha arqueada.
     - Eu no te roubei nada, gatinha. Nada excepto um beijo. E na verdade, creio que mo deste deliberadamente.
     Era demais para o que conseguia suportar. Julianna no agradeceu que lhe recordasse.
     - E tens que te rir de mim?
     O som arrastado da voz dele desapareceu. De repente ficou srio.
     - No me rio de ti, Julianna. - Estudou-a, inclinando a cabea para um lado. - Diz-me - disse ele de repente. - Ests aborrecida por te ter beijado?
     Naquele momento, Julianna sentiu uma estranha secura na sua garganta.
     A cor subiu s suas faces, mas no deixou de enfrentar os olhos dele.
     - Isso no  da tua responsabilidade. Diabos! - A sua voz no era relaxada.
     - Claro que . Se eu sou parte implicada, no achas que devo saber?
     Julianna no queria discutir sobre esse assunto. Tentou afastar-se dele, mas ele deteve-a agarrando-lhe o pulso com os dedos.
     - Gatinha? No me vais dizer?
     Julianna evitou olhar para ele. Olhou para baixo e deparou-se com o pescoo da sua camisa aberto. No tinha salvao. Mas no conseguia olhar mais para cima.
     - Sim - disse a tremer. - Quero dizer, no. - Estava a fraquejar, e no havia nada que pudesse impedi-lo. - Ai, no sei o que quero dizer!
     - Bom, isso esclarece as coisas. Talvez - os olhos dele brilharam - outro beijo nos tire as dvidas.
     O corao de Julianna batia quase na garganta. Ele aproximava-se impacientemente.
     - Que diabo ests a fazer? Ouviu-se a dizer.
     -  s um beijo, gatinha. No consegues satisfazer um homem moribundo o seu ultimo desejo?
     Ela tremeu.
     - Tu no ests a morrer!
     - Mas podia - disse ele desacaradamente. - A infeco podia estender-se.  sabido que pode acontecer.
     Senhor, ele tinha razo... mas depois viu o gracejo nos olhos dele.
     - s um mulherengo, no s? - Acusou-o.
     - No  verdade - defendeu-se ele.
     - Ah, no? Havia uma mulher na carruagem, o nome dela era Chadwick. Disse que o Urraca... que tu... que tens uma predileco por mulheres.
     - S por uma em particular - rebateu ele.
     O corao dela saltou. No conseguia engolir, nem respirar.
     Colocou os dedos no peito dele, evitando a ferida.
     - Dane...
     Os olhos dele cravaram-se nos dela.
     - No fales, gatinha - sussurrou ele, - e deixa que te beije.
     Aquelas palavras deveriam ter sido o suficiente para alar a sua mo  face dele... e esbofete-lo com fora! Mas qualquer objeco que pudesse ter tido, secou-se 
na garganta. Com toda a sinceridade, no tinha a certeza de querer protestar. Todo o seu interior tranquilizou-se ao sentir a boca dele na sua. Encurralada entre 
o peito dele, deixou que acontecesse... queria que acontecesse. E foi como da primeira vez, decidiu embriagada. No, foi muito melhor.
     Um remoinho de sensaes rodeou-a. Conseguia sentir a fora dele, o seu tamanho contra ela, o calor que emanava do seu corpo. Aquela boca contra a sua era doce 
e aliciante.
     - Abre a boca para mim, gatinha... - o pedido no foi menos urgente por ser melodioso. - Assim! Exactamente assim - emitiu uma risadinha. - s muito receptiva, 
no s, gatinha?
     Os lbios dela dividiram-se. Nem por um segundo pensou em negar. Nem em recus-lo. Nem sequer quando ele experimentou. Experimentou com a sua lngua que se 
enredou  dela sem hesitar. Ela apreciou tambm a textura spera da sua lngua, uma viagem lenta e sensual de explorao pelo interior da sua boca. O contacto f-la 
tremer, embora no se movesse. No conseguia. Sentia, que Deus a ajudasse, curiosidade.
     Ela sempre tinha deixado as viagens de prazer para os outros. Evidentemente, no era uma coisa que pudesse discutir com os seus irmos! Tinha sido educada para 
ser uma dama, e os termos da educao eram difceis de abandonar. Thomas tinha sido o unco homem que a tinha beijado, e no tinha passado de um casto beijo nos lbios. 
No era nada comparado a este contacto lento e selvagem que parecia durar uma eternidade. Com ele no tinha havido aventuras secretas no jardim, nem exploraes 
curiosas na escurido. E, quando ela se tinha perguntado como seria experimentar aquelas coisas, a sua imaginao tinha sido bastante indefinida e confusa.
     Excepto o sonho da noite anterior. Aquele quente e perverso sonho.
     E agora, finalmente, estava a acontecer. A ela. A ela!
     Claro, era muito mais do que curiosidade.
     No havia nada indefinido na sua resposta tambm. Um tremor de puro prazer atravessou-a. O seu estmago contraiu-se. Pequenas agulhas de excitao pareceram 
cravar-se no seu peito. Queria sentir as mos de Dane - a sua boca, a sua maravilhosa e diablica lngua - ao redor dos seus mamilos, da mesma forma que explorava 
a sua boca, fazendo crculos hmidos e escuros. Tinha sido como no seu sonho, pensou... tinha sido lascivo. Perverso, mas delicioso. Com vinte e sete anos, no era 
nenhuma criana sem juzo. Podia ser inocente, mas apesar da sua virgindade, no era ignorante.
     Quando por fim ele libertou a sua boca, foi como se a privassem de algo precioso. Agarrada  camisa dele, pestanejou, com a respirao acelerada.
     - Ai, senhor1 - ouviu-se dizer.
     Ele riu-se abertamente. O som foi de algum a quem tambm lhe faltava o flego.
     - Eu penso da mesma forma.
     Julianna corou.
     - No vou pedir desculpa - ele sorriu maliciosamente. - s maravilhosa. Embora imagino que j saibas disso.
     Algo no seu interor queria gritar. Alguma vez Thomas lhe tinha dito aquilo? Perguntou-se inquieta. Alguma vez a tinha feito sentir da maneira como Dane a fazia 
sentir? O calor que sentia quando a boca quente de Dane se abria sobe a sua fazia-a arder como um fogo descontrolado.
     - Gatinha, pes-me a cabea  roda. Creio que  melhor que me sente se no quero cair desmaiado.
     
     Na tarde seguinte, Dane sentou-se na cama para tirar cuidadosamente o apoio do brao. Dobrou o lado esquerdo do seu peito num movimento que o obrigou a fazer 
uma careta de dor. Tinha o ombro dorido e rgido e teve que se lembrar a si prprio que precisaria de tempo para o curar.
     Julianna acabava de entrar na cabana com um pequeno cesto cheio de mas. Ao ver a sua expresso, parou e olhou para ele preocupada.
     - Que demnio ests a fazer?
     Dane sorriu timidamente.
     - O que achas que no devia fazer, aparentemente.
     -  verdade. - Baixou-se para apanhar uma ma que tinha cado ao cho.
     O sorriso dele aumentou. Usava o mesmo vestido do dia anterior. Era um tecido bastante fino e com a luz do sol que entrava pela janela, oferecia um espectculo 
bastante tentador do seu traseiro.
     Ao lenvantar-se, Julianna viu que ele continuava a tentar tirar o apoio, sem xito.
     - Julianna? Parece-me que vou precisar de uma ajuda.
      Julianna colocou o cesto de lado e foi prestar-lhe ajuda. O apoio estava muito estragado precisava de ser substituda e ajustada de novo. A primeira tentativa 
foi em vo e Julianna aproximou-se para ajustar o longo suporte, concentrada na sua tarefa. A mulher suspirou de impotncia.
     Dane no se queixou. A verdade,  que que estava a apreciar imenso a situao. Sentado como estava, colocou a cabea ao mesmo nvel do peito dela. O decote 
do vestido abriu-se diante dos seus olhos. Dane fixou o vale que aparecia entre os seus voluptuos e firmes peitos.
     Ah, sim, pensou. Isto era ainda melhor.
     - Raios!
     Relutantemente, levantou os olhos. Julianna deitava fumo pelos olhos.
     - Imagino que te ests a divertir.
     - Acho que sim.
     - Tambm no te vais desculpar desta vez?
     - Querida Julianna, em minha defesa s posso dizer que sou um homem e que tu s a coisa mais linda que eu j vi.
      Ela balanou a sua trana sobre um ombro.
     - Acha que me pode convencer com esses argumentos, senhor?
     - Bem, tu convenceste-me com os teus.
     - O que  que disseste?
     Ele deu-lhe um sorriso travesso e preguioso, assinalando directamente com os olhos os seios dela.
     -  lgico que me enganei ao chamar-te frgil.
     Ela explodiu.
     - Tu... tu!
     Ele riu-se ao ver a cor nas suas faces, a mesma cor das tardes de vero.
     - Ah, vamos! Claro que no te magoei.
     - Devia ter deixado que morresses!
     - Claro que sim. - Apanhou-a com o olhar e disse suavemente: - mas se tivesse que escolher a minha doente, no teria escolhido outra alm de ti, gatinha. E 
no o digo por dizer. s decididamente uma viso descomunal. - Olhou para ela lentamente, tinha os lbios entreabertos, rosados e hmidos. - Sabes que os teus olhos 
mudam de cor segundo o teu estado de esprito? Nunca teria imaginado que podia haver uma to grande variedade de azuis.
     Ela corou de novo, mas desta vez de prazer, percebeu ele.
     Afastou o olhar. Deu uma palmadinha com as mos, num gesto de nervosismo.
     - Eu... enfim, creio que est na hora de ir ver Percival. - e desatou a correr para a porta.
     Era evidente que estava nervosa. No que tivesse medo dele. Embora devesse t-lo, pensou ele. No era mais do que um estranho. No sabia nada do seu passado. 
O que sabia do seu presente no era muito tranquilizador! Se outra mulher lhe tivesse relatado os factos dos ultims dias, teria esperado v-la tremer de medo.
     Mas ela sentia algo muito diferente. Sentia algo que no tinha sentido com nenhum outro homem, nem sequer com Thomas. Quando Dane estava prximo dela, ela sentia 
uma dor estranha dentro de si.
     No conseguia pensar com clareza. No devia ter deixado que a beijasse. Muito menos que a tivesse beijado duas vezes! Mas tinha-o feito... e no percebia porqu.
     Muito menos percebia porque ainda continuava com ele.
     L fora, o dia era quente e liminoso. O sol era como um boto de ouro que banhava a copa das rvores. Para dizer a verdade, precisava de um tempo para se recompor. 
Coisa impossvel, j que ele a seguiu at ao estabulo.
     Julianna no disse nada enquanto dava de comer a Percival, foi Dane quem levantou o balde de gua e o levou at onde estava o animal.
     - Ele gosta de ti - comentou Dane, quando Percival colocou o focinho sobre a mo dela.
     Julianna olhou para ele.
     - Pareces surpreendido.
     - Este animal consegue ser um monstro - admitiu e observou-a durante um momento. - Agradeo-te que tenhas tratado to bem dele.
     Julianna olhou para ele duramente. Estaria a brincar com ela? A julgar pela sua expresso ningum o diria.
     Esfregou o negro focinho do animal.
     - Percival - disse ela sem lhe dar importncia, - um nome nobre para um nobre animal. Foste tu que lho deste?
     - Sim.
     - Percival porqu? - Perguntou ela.
     - Diz-se que Percival era to rpido que conseguia caar um pssaro em voo com a sua lana. Pensei que era um bom nome, ele  to rpido como o vento.
     - Deves ler imenso se conheces to bem a histria do rei Artur e dos seus cavaleiros. Ainda que, seja um estranho hobby para um ladro de estradas, no?
     O sorriso de Dane desapareceu. Ficou em silncio.
     - Alm disso, pergunto-me onde adquiriste tanta educao.
     Dane continuou sem dizer nada, virou-se e encaminhou-se de volta para a cabana.
     Julianna foi atrs dele.
     - No me ouviu, senhor?
     - No tenho nenhum problema com o meu ouvido, senhora. - A voz dele era fria, assim como o rosto dele ao enfrentar-se com ela.
     - Ento, porque no me respondes?
     - s mesmo presistente, no achas?
     - Algumas vezes insuportvel, segundo os meus irmos.
     - Irmos? Tens mais do que um?
     - Tenho dois: Sebastian e Justin. Mas no estamos a falar de mim, Dane. Estamos a falar de ti.
     Em p, junto  mesa de madeira, ele olhou para ela.
     - E com que objectivo, Julianna? Porque imagino que ters um.
     Ele respirou profundamente, olhando para ele directamente.
     - Apenas este, senhor. - Agarrou a mo dele e examinou-a entre os seus dedos. - No acredito que sejas um homem de origens humildes. Estas no so mos de um 
trabalhador. No s um inculto nem um bruto. Portanto, deduzo que no s um homem corrente. Talvez sejas um cavalheiro.
     Ainda no tinha terminado. Assinalou as botas dele.
     - Essas botas so feitas de boa pele, se a vista no me falha.
     -  lgico que os meus esforos foram em vo.
     -  verdade. - Respondeu ela. - Ainda assim, creio que s um ladro educado.
     - Evidentemente. Se no fosse inteligente - respondeu ele, - ter-me-iam apanhado h muito tempo. Alm disso, o que posso dizer? Ser um ladro de estradas pode 
ser um negcio muito lucrativo. - Assinalou para os dois sacos no canto. - Ali h muito dinheiro.
     - Sim, j vi. - Santo Deus, estava a vangloriar-se!
     Ele olhou para ela com cara de assassino.
     - Ah, pois. Esquci-me que gostas de procurar em coisas que no te pertencem.
     Julianna olhou para ele friamente. Claro, no tinha que se sentir culpada! Mas, de repente, tudo mudou. Dane encaminhou-se para a chamin e agarrou uma das 
suas pistolas. No conseguia afastar o olhar enaquanto os dedos escuros e longos deslizavam quase como numa carcia pelo frio metal do cano.
     Comeou a doer-lhe o estmago.
     - O que vais fazer?
     - Tenho uma coisa para te propor, gatinha. Queres aprender a disparar?
     Os olhos de Julianna dilataram-se de espanto. Ele olhava para ela com violncia.
     - O qu?
     - Assim, da prxima vez que tentares disparar para o meu corao, no falhars.
     A mgoa chegou-lhe ao estmago.
     Ah! - Gritou ela, - ainda gozas comigo? Sabes perfeitamente que no deverias dizer uma coisa dessas!
     - Vamos. O que me dizes? Eu ensino-te a disparar. - o olhar dele deslizou intencionalmente para a sua parte inferior. Um sorriso travesso aflorou nos lbios 
dele. - A menos - ofereceu-se - que penses em algo melhor para fazer. - E cravou os olhos no decote .
     Ela ficou sem flego, ardente e incmoda.
     - Est bem! - Disse ela aborrecida. -  evidente, senhor, que no  nenhum cavalheiro.

Captulo 9
     O som ensurdecedor de uma pistola ressoou na clareira do bosque.
     - Gatinha - riu ele - s um desastre com a pistola.
     Julianna ficou muda, olhando frustrada a folha de papel que ele tinha cravado no tronco de uma rvore. No se sentia especialmente confortvel com a arma na 
mo, mas ao menos j no se sentia to estpida com ela. Depois dos primeiros tiros, tinha deixado de fechar os olhos, embora talvez fosse devido  insistncia de 
Dane.
     Quanto a ele, a sua proximidade distraia-a. Era desnorteante. E ele aproximava-se dela de propsito, roando-lhe os dedos, tocando-lhe a mo durante mais tempo 
do que o necessrio. Tinha a certeza disso. E mais do que uma vez, ele aproximou-se e pressionou o seu peito contra as costas dela enquanto a ajudava a centrar a 
arma.
     - Pronta?
     Ela assentiu, embora tentasse recuperar o controlo das suas sensaes. No conseguia concentrar-se se ele estivesse perto. O tiro seguinte alcanou o tronco 
de um carvalho prximo.
     Dane suspirou exageradamente.
     - Comeo a pensar que no h nada a fazer. No me disseste que precisavas de culos.
     Julianna deu-lhe o seu olhar mais glido.
     - Se acertar no alvo... - perguntou docemente, enquanto ele carregava a pistola - respoders  minha pergunta?
     - Prometo.
     - E se acertar duas vezes, responders a duas perguntas?
     Ele sorriu e passou-lhe a arma.
     - Claro que sim.
     - E trs? - replicou ela. - Respondes a trs perguntas?
     Ele riu-se abertamente.
     - Prometo que sim. - Declarou. - Embora tal faanha deveria, certamente, considerar-se um milagre.
     Ah, estava to confiante! Arrogante, at! Era evidente que tinha pouca f nas suas possibilidades, o que fez com que Julianna se convencesse mais de que devia 
demonstrar que estava enganado.
     Ele fez-lhe sinal para que disparasse.
     Julianna apontou ao alvo... e acertou mesmo no centro.
     Ele abanou a cabea, arqueando as sobrancelhas.
     - Impressionante. Consegues fazer outra vez?
     Julianna disparou mais uma vez. Era muito mais fcil quando se concentrava no objectivo e no no homem que tinha ao lado!
     - Pura sorte - foi tudo quanto ele disse quando o tiro seguinte seguiu o mesmo caminho que o primeiro. A este seguiu-se um terceiro, que tambm acertou no alvo. 
Falhou o quarto.
     Em silncio, Julianna estava decidida a cobrar a sua aposta.
     - s um homem que consegue ser muito arrogante - disse ela, devolvendo-lhe as pistolas. - Atrevo-me a dizer, que s um homem habituado a mandar. Por isso gostava 
de saber se estiveste na guerra. - Olhou para ele de perto. - Estiveste?
     Algo passou pelos olhos dele. No fim, assentiu.
     - Eu sabia! s um heri?
     Ele parecia hesitar.
     - Alguns dizem que sim - admitiu relutantemente, - embora eu chame de lealdade ao meu pas e aos meus companheiros.
     A mente de Julianna comeou a trabalhar com rapidez. Porqu, perguntava-se, um homem como ele se tinha transformado num bandido?
     - Falei-te da minha famlia, dos meus irmos. At te disse a forma como a minha me nos abandonou. Mas e tu? Disseste-me que no tens mulher. Tens outra famlia?
     Conteve a respirao. Durante algum tempo pensou que no responderia, por fim, disse relutante:
     - Os meus pais morreram, mas tenho duas irms mais velhas.
     Ah - disse ela alegremente, - e o que pensam as tuas irms do irmo ser o Urraca?
     A expresso dele ficou tensa.
     Julianna conteve o flego.
     - No sabem, pois no?
     - Essa  a quarta, gatinha. Superaste o limite. - Comeou a caminhar de volta para a cabana.
     - Espera! Esta cabana  a tua morada durante todo o ano?
     Aquilo f-lo voltar-se.
     - Porque  que perguntas isso? Imagino que tentars trazer aqui as autoridades quando te fores embora!
     - Como  que poderia fazer isso se no sei onde estamos?
     - Como? - Olhou para ela, tentando ser paciente. - Vens para dentro? - Perguntou de forma cortante.
     - Sim, mas antes gostava de saber...
     - Acabaram-se as perguntas, Julianna.
     Julianna. Muito poucas vezes a chamava pelo seu prprio nome. Estava a falar a srio, decidiu.
     Pensamentos contraditrios rondavam a sua cabea ao segui-lo de volta para a cabana. Alguma coisa estava errada naquele homem. Tudo no seu interior lhe dizia 
que no era um homem sem principos. Sem moral. Sem convices.
     No entanto, aquela mesma sensao avisava-a que no era quem dizia ser. Que escondia segredos...
     Disso tinha a certeza absoluta.
     
     Nigel Roxbury estava encantado. Estava felicssimo pelo facto do Urraca no ter dado sinais de vida nos ltimos dias. Talvez o idiota tivesse sido apanhado 
em flagrante e as notcias da sua deteno ainda no tivessem chegado a Londres. Rezava para que fosse verdade!
     Tinha-se aborrecido muito ao ver que vrios dos seus carregamentos tinham sido interceptados. E aquel maldito ladro de estradas, o Urraca, era o responsvel.
     Retrocendendo para trs na cadeira, Roxbury colocou a pala no olho. Sentia que o seu plano era bastante inteligente. Apesar de tudo, no conseguia roubar a 
Royal Mint, a fbrica de moedas e o selo londrino, mas Boswell revelou ser um excelente arteso. As moedas pareciam reais. Alm disso, at o Urraca pensava que eram 
reais, o estpido!
     Fabricadas as moedas, a distribuio estava em progresso. Isso era o maravilhoso da ideia: ele podia estar informado graas  sua posio. Ningum estava ferido, 
e os frutos do seu trabalho permitiam-lhe comprar o que de outra maneira no poderia permitir-se... aquelas lindas bagatelas de areia do Egipto. Moeda falsa a troco 
de ouro...
     Evidentemente, tinha havido aquele desagradvel incidente com a mulher de Boswell... ainda no conseguia acreditar que a serpente do Boswell tivesse tido a 
audcia de tentar engan-lo! Uma pena para os dois.
     Mas agora, ele podia ficar tambm com a sua parte.
     Finalmente, a campainha da porta tocou. No conseguia esconder a sua satisfao ao ir abrir e dar passagem ao seu visitante.
     - Senhora, estava  sua espera. O que tem para mim? - Pesquisou na caixa que trazia, levantou um pote que uma vez tinha trazido os rgos da morte; e que agora 
estava coberto com a cabea de um falco. Devolvendo-o ao seu lugar, abanou a cabea em sinal de aprovao e olhou para a mulher. Que enjoada, cobria o nariz com 
um leno.
     - Outra pea esplndida - elogiou Rozbury, colocando-a na mesa junto da sua secretaria.
     Ela no disse nada, limitou-se a olhar para ele atravs da seda do seu vu.
     - Por amor de Deus, no tem necessidade de se esconder de mim.
     Ela abanou a cabea, mas retirou o vu.
     - No tem o charme do seu irmo - disse ela. - Confesso que gostava de saber como conseguiu encontrar-me.
     - No a procurei, querida. Imagine a surpresa que tive quando vi aquele seu desenho no jornal de Paris. Foi muito emocionante. Que sorte que no me falha a 
memoria. E sorte que voc continue com as suas actividades sociais depois da morte do seu marido!
     Ofereceu-lhe a mo.
     - Isto conclui o nosso negoco?
     Ele tirou uma pequena bolsa da secretaria e colocou-a na mo dela.
     - Por esta noite, sim. - Murmurou. - Sonhos felizes, minha senhora.
     
     Uma semana depois de lhe ter acertado, Julianna tirava os pontos do ombro de Dane. Mas no que dizia respeito aos dois, Dane e Julianna, as tenses iam aumentando.
     Dormir ao lado dela todas as noites tinha-se trnsformado num tormento, e no se aperceber da sua beleza, era uma estupidez. A sua voz era mais doce que uma 
noite de primavera. Pura, brilhante e imaculada. Se fosse por ele, tinha mandado para o diabo o Phillip e o falsificador. Teria mandado para o diabo o mundo inteiro. 
Queria fazer amor com ela lenta e cuidadosamente, levar o seu tempo, fundir-se nela profundamente e ouvir o seu gemido... faz-lo durar durante horas. Que diabo! 
Toda a noite, se fosse o que precisava para satisfazer o seu desejo.
     Mas algo dentro de si lhe dizia que uma vez no seria suficiente com a encantadora Julianna. Que uma vez no faria outra coisa seno fazer crescer aquele desejo 
que sentia, e que depois quereria repetir uma e outra vez.
     Santo cu! Era uma loucura. Tinha uma misso para cumprir. Um inimigo para apanhar.
     E a encantadora Julianna no era estpida. Era inteligente, bondosa e de grande corao. Lembrou-se de como tinha chorado quando lhe tirou a bala. Gostava de 
sentir as mos no seu corpo. Mas para sua frustrao, ela apercebia-se de tudo.
     Tinha que ter cuidado com o que dizia. Isso era evidente. O inferno ia crescendo cada vez mais. No entanto, no se podia arriscar a que ela descobrisse a verdade 
sobre ele. No aproveitaria a oportunidade...
     Tinha sido um erro lev-la para ali. Fora um estpido. Mas como podia t-la deixado l, ferida?
     A presena dela complicava muito as coisas... e de uma forma que nunca teria imaginado! Ela fazia-o perder o controlo. Mas assim que estivesse bem, o que faria 
ento?
     No sabia. Que Deus o perdoasse, no sabia.
     Julianna no sabia mais do que Dane. Sentia-se atrada por ele, atrada de uma maneira que nunca se tinha sentido antes. Um dia, o seu olhar virou-se para ele, 
uma e outra vez. Ele estava sentado diante da fogueira, com Maximilian no colo. Ela observava-o fascinada enquanto ele passava pensativo os seus dedos pela suave 
pele do gato. Ento ela perguntou-se como seria sentir aqueles mesmos dedos nas suas costas. Tinha a certeza de que ronronaria de prazer como Maximilian o fazia.
     No importava que fosse to bonito, um bandido, carne para a forca. Mas isso no lhe pareceu importar quando ele a beijou.
     Ele no tinha tentado voltar a beij-la, e... ah, embora o pensamento no fizesse sentido, ela desejava-o. Desejava com cada poro da sua pele, porque quando 
os lbios dele tocaram os seus, nada mais pareceu importar. Tinha-o surpreendido a olhar para ela varias vezes, uma sensao bastante inquietante. O que passaria 
pela sua cabea? Gostava de saber. Mas ento! No lhe perguntaria... no depois da maneira como tinha reagido quando ela se atreveu a perguntar sobre a sua vida.
     Uma tarde, ao anoitecer, ela abriu a porta enquanto ele entrava carregado com uma pilha de lenha no seu brao so. Ele murmurou um brusco "obrigado" ao passar, 
mas no olhou para ela. Julianna conseguia sentir que a sua recusa em olhar para ela era deliberada. Mas o seu trabalho tambm no era fcil. Trazer a madeira apenas 
com uma mo devia ser difcil e o tronco superior caiu ao cho com um grande estrondo.
     Julianna foi apanh-lo imediatamente.
     - Eu...
     - Deixa! - A voz dele era cortante. Colocou o monte que trazia no cho, tirou o apoio do brao e inclinou-se para apanhar o outro.
     Julianna abanou a cabea em sinal de reprovao.
     - Dane - ralhou ela, - no creio que estejas...
     - Acho que sou perfeitamente capaz de julgar o que  bom para mim, Julianna.
     Julianna conteve-se, embora as palavras a enfurecessem. Estava de mau humor! Ignorou-o dando-lhe as costas enquanto ia fazer a cama. Podia ouvir como procurava 
no armrio.
     Quando se virou, Dane tinha no ombro uma toalha.
     - Vais a algum lado? Perguntou-lhe quando viu que saia pela porta.
     - Vou tomar banho no rio - disse quase num grunhido. Deteve-se, com um brilho nos olhos e apoiou o seu ombro bom na esquina da porta. Um canto da sua boca desenhou 
uma espcie de sorriso que era quase preguioso. Olhou para ela dos ps  cabea. - Atrai-te a ideia, gatinha? Talvez te queiras juntar a mim.
     Ah, como tinha gostado de lhe dar uma bofetada!
     - Nem em sonhos. Respondeu-lhe. - Claro que gostava de tomar um banho. Mas voc, senhor, seria a ultima pessoa que escolheria para companhia.
     Atnita, ouviu as suas prprias palavras. Assim que as disse, pareceu-lhe incrvel que tivessem sado da sua boca. O que se passava com ela? Teria mesmo dito 
aquilo? Que atrevimento!
     E Dane estava a divertir-se.
     - Gatinha! Confesso, estou intrigado. Gostava de saber quem a escolherias em vez de mim. Esse seria um homem verdadeiramente sortudo!
     Julianna atravessou-o com o olhar. Ele sorriu ainda mais. Pelo menos, tinha conseguido devolver-lhe o bom humor. Era mais apropriado que brincasse com os seus 
prprios disparates!
     - Apenas um quarto de hora, gatinha, e o rio ser teu. S tens que seguir o caminho que percorre os carvalhos. No te podes perder.
     Muito depois de ele sair, Julianna tinha a certeza de que a sua cara continuava vermelha. Tirou o relgio do bolso e sentou-se na mesa que ele tinha deixado. 
J tinham passado vinte minutos. Onde  que ele estava? Pensou impaciente.
     Quinze minutos mais tarde caminhava ao redor da mesa. O pnico estava a poto de a vencer. J devia ter voltado. Porque no o tinha feito? Talvez tivesse substimado 
as suas foras. Talvez tivesse cado inconsciente. Talvez, at ferido.
     Agarrou numa toalha, em roupa limpa e um pequeno pedao de sabo, e quase correu para a porta.
     Os passarinhos cantavam empoleirados nas copas das rvores enquanto ela corria a toda a pressa pelo caminho. Era um dia quente, lindo, mas estava nervosa demais 
para o apreciar. Do outro lado de uma curva, atravs de um grupo de rvores, viu o riacho, mais adiante, uma colina cheia de flores. Julianna agarrou a saia e saltou 
por cima de uma raiz que sobressaa no caminho. Deteve-se ao ver uma pilha de roupa. Um rudo de movimento captou a sua ateno.
     Lentamente, ergueu o olhar. Sem se aperceber da sua presena, Dane flutuava livremente sobre as costas. Mover-se era impossvel. Ficou sem respirao. Estava 
nu. Nu! A sua mente escandalizou-se, mas prevaleceu a lgica. "No sejas criana! Repreendeu-a uma voz dentro de si. - De que outra forma tomaria banho?"
     Houve um chapinhar e, depois, ps-se em p. Sacudindo a gua do seu cabelo, comeou a caminhar para a margem. Ao levantar os olhos, deparou-se com os dela.
     Era tarde demais para correr. Tarde demais para se esconder. Tinha-a surpreendido, como a uma lebre numa armadilha. 
     - Este  um prazer inesperado, gatinha. Apesar de tudo, vieste juntar-te a mim?
     Julianna no se teria conseguido mover nem pela salvao da sua alma. O pulso batia-lhe a cem  hora. As batidas do seu corao ressoavam nos seus ouvidos, 
pesadas e intensas.
     Engoliu a secura da sua garganta.
     - Demoravas tanto, que tive medo por ti. Pensei que te tinha contecido alguma coisa.
     Deus, no agiria como uma criana. No se envergonharia tontamente. Tambm no gemeria ou gritaria, no tinha intenes de dar um espectculo. No, no o faria 
saber que era o primeiro homem que via nu... embora evidentemente fosse uma imagem que ficaria na sua memoria para o resto da sua vida.
     A superfcie do rio estava calma. Desejou que no tivesse parado ali onde a gua era to profunda. Um pensamento atrevido que, no entanto, no se arrependeu 
de o ter tido. Te-la-ia encantado de poder estudar o corpo dele com prazer, satisfazendo o que era, sem dvida, uma inocente curiosidade. Era surpreendente que no 
se importasse. Mas no stio onde ele estava, a nica coisa que podia fazer era olhar.
     Era incrivelmente viril, a pele era morena e sedosa. A ferida negra estragava o seu ombro. Ao v-la, teve uma pontada de culpa. Julianna sentiu o repentino 
desejo de a tocar, de colocar os lbios sobre ela e beij-la para fazer desaparecer a ferida e a dor.
     Os olhos dela desceram. As gotas de gua que tinham ficado no cabelo brilhavam  luz do sol. Julianna tremeu e humedeceu os lbios. Tinha o estmago liso e 
duro, em que se desenhavam com clareza os abdominais. Mais abaixo, a gua chegava-lhe  cintura, escondendo-lhe o...
     - Gatinha - disse ele suavemente.
     Ela ergueu os olhos ao ouvir o seu nome. Ento percebeu que ele tambm a tinha estado a observar durante todo aquele tempo.
     Os olhos encontraram-se...
     - Gatinha - disse ele suavemente, - tens a certeza que no vais mudar de ideia?
     Tinhas as faces vermelhas. Sem dizer uma palavra, negou com a cabea.
     - Como queiras. - Descarado como sempre, comeou a caminhar para a margem.
     Julianna soltou um suspiro e virou-se apressadamente de costas. Se ele no se importava que o visse nu, porque  que ela se importava? Ah, como desejava entregar-se 
 tentao! Porque com a sua imaginao, ainda podia ver o perfil da sua imponente virilidade. Onde estava a recm encontrada ousadia? No, no tinha o descaramento 
necessrio que teria gostado de ter.
     A uns quantos passos atrs dela podia ouvir o rudo de roupa. Mesmo assim, quase deu um salto ao sentir uma mo no ombro.
     - Agora  seguro. - Notou uma certa ironia na voz dele.
     Ao virar-se, viu o sorriso travesso que se desenhava nos seus lbios.
     - Que pena que no tivesses aceitado o meu convite, gatinha. Atrevo-me a dizer que teramos passado um bom tempo juntos.
     Ah, era um safado arrogante! A sua prepotncia fazia-a revoltar-se.
     - No vim aqui para te ver - disse ela rapidamente. - S vim... para tomar um banho!
     E agora parecia que no tinha outra opo seno tomar banho.
     - Nesse caso, gostava de ficar para te esfregar as costas.
     Os olhos de Julianna deitaram fascas. Sencurou-o com uma expresso zangada.
     - No? - Ele ficou onde estava, com as botas plantadas no cho. No parecia alterado, o canalha!
     - No - respondeu ela com dignidade. - E espero que no te lembres de me espiar.
     - Gatinha, tu ofendes-me. Como  que podes ter essa opinio de mim? - Disse ele alegremente. Olhou para ela honestamente e colocou o sabo na palma da mo dela. 
- Mas se mudares de ideia, s precisas de me chamar.
     - No o farei - respondeu ela imediatamente.
     - Oh, mas um homem pode ter algumas esperanas, no?
     Deus, ele era insuportvel... impossvel! Julianna observou-o enquanto caminhava para o bosque. Qualquer tonta sabia que no se devia confiar num bandido. Porque 
devia acreditar que ele manteria a sua palavra? "Porqu? - perguntou uma voz dentro de si. - Porque sabes que o far. - Respondeu-lhe outra voz. - Seja o que for, 
 um cavalheiro..." ah, no fazia sentido. Porque  que continuava a ver um homem como ele daquela maneira?
     Era estranho como o seu corao berrava e protestava como uma tempestade martima.
     Despiu-se num minuto e entrou no rio. A gua estava fria e gritou pela impresso. Claro no aguentaria muito tempo, como o tinha feito Dane. Mergulhou na gua 
e lavou-se rapidamente, metendo a cabea na gua para a molhar. Como fazia calor, a frescura da gua era maravilhosa.
     Secou-se rapidamente com a toalha, tremendo ainda enquanto punha o vestido. Sentada numa rocha prxima, sacudiu o cabelo, escorreu-o e penteou-o sobre os ombros. 
Enquanto vestia as meias, um som chamou a sua ateno. Virou-se bruscamente.
     Que estranho! Ter-se-ia enganado em relao a Dane? Tentou pesquisar o bosque com os lbios apertados pelo desagrado. Sobre a sua cabea, um pssaro voou para 
o cu azul. Uma folha flutuou preguiosa descendo at ao cho.
     No havia nada.
     Era estpido pensar que algum a estava a observar. Tentou afastar os seus medos e terminou de se vestir, recolhendo do cho a toalha hmida e o outro vestido. 
Deixou o rio e encaminhou-se para a cabana. Ao cruzar a clareira viu Maximilian sentado na base de um enorme carvalho. Levantou-se e indagou os ps dela, esfregando-se 
contra os tornozelos. Colocou o vestido num ramo baixo para que arejasse. Acabava de pendurar a toalha hmida quando Maximilian deu um miado e correu para a cabana.
     Ela baixou o olhar surpreendida.
     - Maximilian! - Disse entre gargalhadas. - O que te aconteceu?
     Quando levantou os olhos, percebeu de que no estavam sozinhos. Havia um enorme co do outro lado da clareira.
     Deixou de sorrir. Os cabelos da nuca eriaram-se, em sinal de alarme. Nunca tinha tido medo de animais. Como tinha crescido em Thurdston Hall, tinha encontrado 
muitos na sua infncia. Mas este era imundo, com os plos desastrosamente emaranhados. No lhe transmitia confiana nenhuma.
     Um uivo profundo ressoou na garganta do animal. Os lbios abriram-se, deixando os dentes a descoberto. A saliva caa pela sua boca. Olhava para ela com raiva, 
apoiaso nas suas patas traseiras, com os olhos selvagens, pronto para atacar.
     Julianna j tinha comeado a andar para a cabana. Caminhava com passos rpidos mas estveis para no o assustar. A porta estava entreaberta. Calculou a distancia. 
Poderia conseguir antes de...?
     O animal investiu contra ela.
     Naquele momento, um sapato prendeu-se numa raiz saliente. Caiu violentamente ao cho, j sem ar nos pulmes. De forma institiva, tentou levantar-se. Tinha prendido 
a bainha na raiz. Puxou por ela com fora, sem se importar que o tecido se rompesse. No entanto, era mais difcil do que parecia e voltou a cairnovamente.
     Um grito intenso saiu da sua garganta.
     - Dane! - Ouviu-se a gritar. - Dane!
     Tudo aconteceu num segundo. Dane apareceu  porta. Pelo canto do olho viu que o co investia contra ela.
     Uma exploso ensurdecedora expandiu-se pelo ar.
     Quase nesse instante, o animal caa ao cho junto a ela.
     - Julianna! Deus, ests bem?
     Julianna pestanehou, tentando focar os olhos. A sua cabea girava enquanto Dane a ajudava a pr-se de p. Lentamente, virou a cabea e olhou apra baixo. O co 
jazia morto sobre as costelas. Ainda tinha os olhos abertos, e mostrava os dentes. Um fio de sangue saa do seu corpo e misturava-se com a terra.
     Doa-lhe o estmago.
     - Julianna!
     Voltou los olhos para Dane. Horrorizada, olhou para ele fixamente.
     - Mataste-o - disse ela. - Mataste-o.
     Dane tentou abra-la.
     - Gatinha...
     A palavra agitou algo dentro de si. Os olhos dela pareciam prestes a incendiar-se. Afastou-se violentamente.
     - Julianna! Que diabos? - Umas mos fortes fecharam-se sobre os ombros dela.
     Julianna enfrentou-o, com os punhos levantados.
     - No precisavas de o matar! - Gritava ela. - No precisavas de o ter feito!
     - Julianna! Estava raivoso. Ter-te-ia atacado! Deus, ter-te-ia mordido... tive que o fazer!
     A expresso dela era selvagem. Estava furiosa, e batia-lhe no peito com todas as suas foras.
     Amaldioando, Dane segurou-lhe os pulsos.
     - Gatinha!
     - No! - Gritou ela, um som rasgado que saiu dentro dela. - No me chames assim!
     Ele rodeou-a com os braos fortes, imbilizando-a com o seu corpo.
     - Julianna! - a sua voz era firme. - Pra! - Ela nem o ouvia. - Julianna!
     Aturdida, deixou cair a cabea. Olhou para ele enquanto ele lia detalhadamente a expresso dela.
     - O que aconteceu? o que  que te aconteceu?
     To depressa como tinha perdido os nervos, pareceu recuper-los. Expulsou toda a tenso acumulada.
     Julianna fechou os olhos e apertou-se contra ele.
     Ah, meu Deus - sussurrou.
     E ento desatou a chorar.
     
     
Captulo 10
     Dane no esqueceria facilmente o grito terrvel que o tinha feito sair precipitadamente da cabana, nem tampouco o que os seus olhos viram. Santo cu, se no 
tivesse tido ao cuidado de agarrar na sua arma...! Nas semanas antes de Waterloo, um dos seus homens tinha sido mordido por um co raivoso. A morte dele foi trgica 
e horrorosa... imensamente dolorosa. Pensar que Julianna podia ter sofrido o mesmo final... preferia no pensar nisso.
     Com expresso preocupada, agarrou nela e conduziu-a para o interior da cabana, sem prestar ateno  dor do seu ombro.
     Fechou a porta dando-lhe um pontap com o calcanhar. Sentia-se desorientado, alarmado, surpreendido pela forma em como ela o tinha tratado. Compreendia que 
se sentisse nervosa com a experiencia, mas o que se passava com ela?
     O seu rosto continuava branco como a parede. Ao observar os lindos olhos azuis, teve a sensao de que ela tinha regressado a outro tempo, a outro lugar, onde 
as memorias de alguma coisa horrvel emocionavam a sua mente e o seu corao.
     "Gatinha", tinha-lhe dito. Senhor, parecia to inocente! Tinha-se habituado a cham-la assim, que saa sem pensar. Mas depois recordou que j noutra ocasio 
se tinha aborrecido ao ser chamada assim. Mas porqu? - Perguntou-se. Porqu?
     Agora que tudo tinha passado, era como se lhe tivessem extrado as ultimas foras que lhe restavam. Dane estava sentado diante da fogueira e segurava-a no colo. 
Ela apoiava a cara no seu peito, perto do pescoo, e soluava em silncio, desconsolada, um som que o entristecia profundamente, no fundo da sua alma, no seu corao.
     Deixou que chorasse quanto quisesse. Ela acariciava-lhe o peito com a mo enquanto ele acariciava com a dele as costas dela.
     Com a outra mo, Dane agarrou uma madeixa de cabelo e colocou-a atrs da sua orelha.
     - Julianna - disse ele suavemente. - Em que ests a pensar? O que aconteceu? - Deteve-se sem saber muito bem o que dizer, com uma interrogao nos olhos.
     Julianna no deixava de tremer. Tremia como se estivesse no meio de uma tempestade glida. Dane cobria-a com os braos. Tinha a pele gelada.
     - Conta-me, querida.
     Ela oljou para ele com os olhos lacrimejantes.
     - Ele matou-os - disse ela tensa.
     - Quem? - perguntou-lhe cuidadosamente. - Como?
     Ela engoliu a saliva.
     - O meu pai - disse bruscamente. - Matou os meus gatinhos. - Houve uma pausa dolorosa. - Afogou-os, Dane. Ele afogou-os.
     Dane conteve a respirao.
     - Como aconteceu?
     - Eu devia ter uns oito anos. Eu... ns estvamos em Thurston Hall, no campo. Os meus irmos estavam no colgio e a gata tigrada do estbulo acabava de ter 
os filhotes. Eram to lindos, to suaves. To doces. Dois deles eram brancos como a neve e o outro era tigrado como a me. Quando nasceram, perguntei ao meu pai 
se podia ficar com um. Sentia-me muito sozinha, percebes? Mas ele disse que no deixaria que aquelas criaturas entrassem em sua casa, que eram sujas e imundas e 
que pertenciam ao estbulo, onde podiam caar ratos. Mas eu no me importei. Eram adorveis. Assim que ficaram em condies para serem retirados  me, agarrei neles. 
Faziam-me rir, Dane. Ainda consigo v-los tentando apanhar as caudas uns dos outros. Baptizei-os de Irwin, Alfred e Rebecca. Imaginava que eram os meus filhos. Tapava-os 
com mantas e abraava-os. Brincava com eles e ralhava, cantava... at dormiam comigo na cama. - Uma espcie de sorriso iluminou o seu rosto.
     Mas desvaneceu-se depressa demais.
     Ela continuou.
     - Mas o meu pai... encontrou-os um dia no meu quarto. Ficou furioso. Gritou e esperneou: eu tinha-lhe desobedecido e ele no um homem que pudesse suportar uma 
coisa dessas, sobretudo, no que dizia respeito aos seus filhos. Portanto, teve que me castigar.
     - Deus bendito! Castigou-te afogando os gatinhos?
     Ela ssentiu com a cabea.
     Dane amaldioou-o em silncio. Agora entendia porque odiava que a chamasse de "gatinha".
     Mas ainda havia mais.
     S conseguia ouvir enquanto ela continuava com o relato.
     - Colocou-os num saco e agarrou-me pela mo. Lembro-me de ter chorado todo o caminho at ao rio. - Houve uma pequena hesitao na sua voz. - Ele... obrigou-me 
a ver. Obrigou-me a ouvir. - As lgrimas escorregavam pelas suas faces. Encolheu-se, tapando os ouvidos com as mos e transfomando-se numa bola contra ele.
     Dane estava horrorizado.
     - Ai, meu Deus! Sussurrou ele, ficando plido... sentindo a dor dela como se lhe tivessem cravado uma faca no peito.
     Os lbios de Dane comprimiram-se numa linha delgada. Estava furioso. Uma raiva profunda cosumia-lhe as vsceras. O pai dela tinha sido um canalha! Se aquela 
besta tivesse estado  sua frente naquele momento, t-lo-ia estrangulado. Como podia um homem fazer uma coisa daquelas  sua prpria filha?
     - Acho que deves pensar que  uma estupidez - a voz dela saiu amortecida pelo espanto.
     - No, claro que no. - Querida Julianna, sempre a tratar dos seus animais... e agora dele. To doce, to educada. Conseguia perceber como a atormentava, como 
continuava martirizada. No conseguia acreditar no que lhe tinha contado. Era to diferente da sua infncia.
     v-la assim, era algo que o aborrecia,. O facto de no se ter casado, parecia-lhe inacreditvel. No era apenas a sua beleza. Era a doura do seu temperamento 
que brilhava acima de tudo. Tinha nascido para ser esposa e me, para mimar os seus filhos como tinha feito um dia com os seus gatos.
     Deveria ter imaginado. Talvez, o soubesse. A sua aparncia dela escondia uma grande fora. A sua frgil beleza, a escurido. A alegria do seu sorriso, segredos 
inconfessados.
     - Foi o sangue - disse de repente. - Quando os meus gatinhos se afogaram,, no houve sangue... - uns dedos graciosos cravaram-se na camisa dele. Levantou a 
cabea e olhou para ele fixamente. - Dane, o co... poderias...?
     - Eu enterro-o - acrescentou ele terminando a frase.
     - Obrigado. - e suspirou agradecida.
     - De nada. - Ele olhou para ela com uma expresso imponente.
     De repente, ela afastou os olhos.
     - O que se passa?
     - Voltei a faz-lo. No sei porque te conto estas coisas - confessou-lhe em voz baixa. - Nem contei aos meus irmos.
     - Porque no?
     Era mais curiosidade do que outra coisa. Pela forma como falava dos irmos, no era difcil pensar que eram muito unidos.
     - No teria mudado nada. No havia nada que eles pudessem fazer. E sobretudo... no suportava pensar naquilo outra vez.
     - No tem importncia. - Os lbios de Dane eram uma linha fina. - Julianna, perdoa-me se sou brusco, mas eu no teria gostado do teu pai.
     - Acho que ningum gostava. - Disse ela depois de um tempo. - Ele era um homem severo, dspota, rigoroso. - Pareceu hesitar. Quando voltou a falar, a sua voz 
foi apenas um sussurro. - Tinha quase quinze anos quando ele morreu. E... embora tivesse chorado quando morreram os meus gatinhos, no chorei quando ele morreu. 
Que Deus me perdoe, mas... no me sentia triste. A verdade  que quase me senti aliviada. Senti que, finalmente, poderamos ser felizes: Sebastian, Justin e eu. 
Achas que  errado pensar assim?
     - No - disse ele seriamente, - nessas circunstancias.
     Ela moedeu o lbio.
     - E isso, tambm foi algo que nunca contei a ningum.
     Dane no conseguiu evitar. Era bastante incmodo. Gostava que ela confiasse nele daquela maneira, mas no conseguia evitar sentir-se culpado por no lhe corresponder 
da mesma forma. No tinha ganho a sua confiana, no a merecia, na verdade. Porque no tinha sido completamente sincero com ela.
     Mas no lhe podia dizer a verdade. Havia muita coisa em jogo. No podia coloc-la em perigo daquela foma.
     Ao fim de um tempo de divagar em silncio, disse:
     - Todos temos os nossos demnios, Julianna. Eu tambm tenho uma coisa que nunca contei a ningum.
     - Tu? A srio?
     Ele assentiu, craindo coragem.
     - Tenho medo - admitiu finalmente.
     - Tu? De qu?
     - De morrer. - Deixou escapar um longo suspiro. - No o tinha, at ir para Waterloo. Quando se  jovem, no nos preocupamos com isso, pois no? Assim como tu, 
aquilo foi uma coisa que... prefiro no pensar. Aquela batalha foi... diferente de todas as outras. Descargas de morteiros e de canhes por todos os lados. O fumo 
era to espesso que quase no conseguamos respirar. E claro, no conseguamos ver nada. Pensei que no acabaria nunca! Lembro-me muito bem: os homens iam caindo 
ao meu lado, como ramos puxados por uma mo invisvel. E quando acabou, haviam milhares de corpos a rodear-me... e eu continuava vivo. Sentia-me aliviado porque 
eram eles e no eu. Fui condecorado como um heri, quando na realidade, j tinha sentido um medo atroz. Senti-me um cobarde. E por isso - abanou a cabea - envergonhar-me-ei 
disso para sempre.
     - Envergonhas-te? Porqu?
     - Porque me alegrei... exultei por estar vivo. Exultei por no ter sido eu o morto, de que tivessem sido outros e no eu - hesitou. - Isso no est certo.
     - Acho que no  errado pensar dessa forma. No consigo pensar em ningum que no se alegre por estar vivo. O que acontece  que ningum estaria disposto a 
admiti-lo.
     - Talvez sim. Talvez no. De qualquer forma, desde esse dia - Deus, nem sequer conseguia suportar diz-lo! - No suporto pensar na morte ou em morrer.
     Ficou em silncio, e depois inclinou a cabea para a observar.
     - Queres partilhar comigo algum outro segredo?
     Para sua surpresa, ela olhou para ela surpreendida. O suspiro que deixou escapar foi profundo e sentido. Os seus lbios abriram-se.
     Ele limpou com o polegar as lgrimas brilhantes que escorriam pelas suas faces.
     - Eh, olha para mim! Estava apenas a brincar!
     - Dane...
     Ele acariciou o rosto com as mos.
     - No tens que dizer mais nada, querida, juro. - Esticou a sua perna e apertou-a contra ele, junto da sua sua coxa, rodeando-lhe as costas com os braos. Parecia 
que tinha ficado colada a ele para sempre. O calor das suas lgrimas no seu peito fazia-o tremer por dentro.
     E ento aconteceu.
     Lentamente, levantou a cabea. Os olhos encontraram-se.
     Encontraram-se num abrao ntimo. Um abrao ardente, pelo qual no podia correr nem uma brisa de ar. Em algum momento, os braos dela enredaram-se no pescoo 
dele. Ela era to leve que nem notava o peso nas suas pernas. Mas conseguia notar a presso dos seus macios mamilos contra o seu peito. Tinha uma perna metida entre 
as dele, o calor era cada vez mais sufocante... no conseguia parar.
     Engoliu profundamente.
     Ela tambm engoliu.
     O silncio explodiu  volta deles.
     Dane olhou para ela, sentido que ela estava apanhada no mesmo perigo. Aquela certeza percorreu-lhe a coluna vertebral. Ela no deixava de olhar para ele, com 
os braos enrolados no seu pescoo. Tudo dentro dela ficou tenso.
     Ele respirou fundo... Deus, cheirava a limes frescos, um cheiro genuno e nico. Segur-la assim era... meio jubilo, meio sofrimento. Traou com os olhos o 
rosto dela, a delicadeza das suas faces, o queixo.
     Uma voz na sua cabea dizia-lhe para que a soltasse. A cabea dizia-lhe uma coisa, o corpo inteiro dizia o oposto. No sabia o que aconteceria se lhe tocasse. 
No devia tocar-lhe. Mas a luz do entardecer brilhava no cabelo dela, que parecia feito de mel. A boca estava hmida, tremula e vulnervel, presa apenas por um suspiro 
da dele.
     Rodeou a cintura dela com as mos, sem saber muito bem se a afastava ou a aproximava dele.
     Foi ela quem resolveu a situao.
     Ela tinha os olhos ainda hmidos pelas lgrimas, azuis e brilhantes, e ele no conseguiu deixar de a olhar quando ela colocou os dedos no centro da sua boca.
     - Dane - sussurrou. - Dane. - E aquele som implicava o mesmo desejo, um som que acabou com a pouca coragem que lhe sobrava.
     Era o momento, o tempo adequado, e uma dezena de diferentes emoes corriam dentro dele...
     E a partir dali, no havia volta a dar.
     Aprisionou a boca dela num beijo profundo, de crescente explorao. No houve resistncia. Dane sucumbiu ao desejo que tinha contido durante dias. E saber que 
ela no era indiferente quele desejo abrasou-o ainda mais.
     Numa repentina reunio de foras, levantou-se e levou-a at  cama.
     Deitou-se junto a ela, sem deixar de o olhar, Julianna acariciou-lhe o queixo.
     - Desculpa, magoei-te?
     Um leve sorriso iluminou o rosto dele.
     - Uma pequena criatura como tu? Creio que no. - Agarrou-lhe a mo para a beijar.
     Com os dedos esticados, foi apenas uma carcia. Levantou os olhos para ele, como se quisesse avaliar a sua reaco.
     O sorriso dissipou-se e os olhos escureceram.
     Lentamente, Dane baixou a cabea. O seu beijo foi lento e arrastado.
     Ela fechou os olhos, com os lbios abertos para lhe oferecer uma boca sem flego. Roou com a ponta da lngua na dele, uma resposta doce e atrevida. Era deliciosa, 
e a imagem da sua delicada lngua rosa acariciando a sua pele, deixava-o louco. Aventurou-se pelo peito dele, pelo umbigo, a parte inferior do seu estmago at chegar 
a...
     A viso f-lo tremer. Era como se lhe tentassem tirar as entranhas e priv-lo dos pulmes. Deus, no conseguia suportar! Abriu mais a boca para aprisionar a 
dela e poder beij-la quase selvagemmente. Ela meteu as mos por baixo da sua camisa e acariciou-lhe as costelas, subindo numa tentiva de explorao, at que finalmente 
as suas palmas estenderam-se pela pele nua das costas dele. Arqueou-se contra ele, esticando o corpo contra o dele. Um tremor f-lo gemer de prazer.
     Dane procurou com os dedos o lao do decote do vestido. Mergulhou no tecido, afastando-o para um lado para ver a pele sedosa do seu ombro... e dos seios.
     Era perfeita. Simplesmente perfeita. A sua pele era alva e luminosa, da cor do creme. Os seios eram pequenos mas bem formados, os mamilos cheios e rosados, 
da mesma cor rosa do plido amanhecer.
     Baixou a cabea, tocando a ponta de uma dos seios, que de endireitou quase no mesmo instante. Com a lngua rodeou primeiro um e depois o outro, sentindo a sensualidade 
dos mamilos erectos na sua boca.
     - Dane... ah, Dane! - Revelou-se com um pequeno gemido, o toque das unhas nas costas dele. Acariciou com os seus longos dedos o cabelo da nuca dele, como se 
assim o pudesse deter.
     Era a sua primeira vez. Era virgem, com toda a certeza. E no entanto... ele tinha vontade de lhe mostrar a teoria com alguma prtica... no! Ele no era um 
inconsciente, no a prejudicaria daquela forma, por muito que ela o tentasse!
     Tinha a certeza de que nenhum homem a tinha beijado como ele o tinha feito. Tocado daquela forma. Embora algo dentro de si o impelisse a saber mais. Tinha que 
saber.
     Levantou a cabea para olhar para ela.
     - s virgem?
     Ela ficou em silncio.
     - Julianna, querida... diz-me. Nunca fizeste isto antes, pois no?
     - bei... beijaram-me - gritou ela, ao ver que ele arqueava uma sobrancelha.
     - Ento, s virgem?
     Ela escondeu o rosto no ombro dele.
     - Porque perguntas?
     Dane fez um pequeno rudo com a garganta. Segurou o queixo dela com os dedos e obrigou-a a olhar para ele.
     O silncio ficou suspenso no ar.
     Ele descansou a testa dele na dela.
     - Julianna - disse-lhe suavemente, - s, no s?
     Ela voltou a olhar para ele com as faces rosadas.
     - Sim - disse debilmente, - sim!
     Um pequeno grito abafou-se nos seus lbios. Baixou a cabea envergonhada, mas no antes que ele pudesse ver o brilho da uma lgrima nos seus olhos cor de safira.
     Tanta vulnerabilidade afogava-lhe o corao. Dane no era um homem disposto a aceitar a vulnerabilidade, e no porque no a entendesse como um sinal de debilidade, 
mas porque era algo que lhe levava tempo a assimilar.
     - Cala-te, Julianna. Cala-te. Est certo, no te deves envergonhar disso.
     - No estou envergonhada! - Gemeu ela.
     S ento percebeu que tinha encostado as suas ndegas contra ele, e tinha-se aproximado das suas pernas.
     Continuava excitado. O seu membro empurrava e empurrava contra ela... uma parte dele queria deit-la de costas e dar rdea solta ao seu desejo.
     Desejava-a. Desejava-a com uma determinao animal, uma vontade que o fazia ferver o sangue. Queria provar cada palmo da sua pele plida, tomar aquela cativante 
inocncia e faz-la sua. Queria ouvir os seus gemidos, fazer com que necessitasse da sua boca enquanto ele mergulhava nela profundamente, sentindo o calor e a humidade 
feminina ao redor do seu membro at que ambos alcanassem o clmax.
     Podia t-la seduzido. T-la enrolado com doura at que ela se torcesse de prazer. E ela no o teria detido. Algo dentro dele lhe dizia que ela lhe permitiria 
fazer o que quisesse.
     E de alguma forma, isso aumentou o seu calor como nenhuma outra coisa o teria feito.
     Voltou a deitar-se na almofada, com uma careta de dor, e soltou-a.
     Julianna deixou escapar um sonoro suspiro.
     - Dane... - uma pergunta silnciosa separava-os.
     Ele emitiu um longo e contido suspiro e depois abraou-a com todas as suas foras. Colocou a cabea dela sobre o seu ombro e deixou descansar o queixo entre 
as ondas castanhas do cabelo dela, tentando acalmar o tumulto das suas veias.
     - Deixa-me abraar-te assim durante um tempo - disse ele em voz baixa. - Deixa-me abraar-te.

Captulo 11
     Quando Julianna acordou, os ltimos raios da tarde entravam pelas janelas da cabana. Ficou ali deitada durante um tempo, consciente da sua solido. Recordou 
vagamente como Dane se tinha levantado um pouco antes.
     Afastou as mantas - embora no se lembrasse de se ter tapado com elas, - e colocou os ps no cho. A viso dos seus seios nus perturbava-a. Comeou a subir 
o vestido para cobrir os ombros, mas depressa mudou de ideia ao ver que continuava manchado de sangue do co. Teve vontade de vomitar, mas conteve-se.
     Tirou o vestido e ficou em p com a combinao vestida junto da tigela. Tinha os olhos doridos e vermelhos pelas lgrimas. Molhou um pano e apertou-o contra 
os olhos. A sensao era to reconfortante que devolveu o pano  tigela quase a contragosto.
     A incerteza e a culpa deviam ser inevitveis, sups. Fez uma careta ao recordar o seu arrebatamento... as coisas que tinha contado a Dane... tanta fragilidade 
no era prpria dela. Sempre se considerara uma pessoa independente, e claro, no se tinha por uma mulher chorona.
     O que pensaria Dane dela? Tinha perdido completamente o controlo. Pensaria que era fraca? Mimada?
     Contudo, ele mostrara-se muito compreensivo. Reconfortante, at. E... Deus, sentia-se to bem entre os braos dele! Sentia-se querida, e segura como nunca se 
tinha sentido antes.
     Como seria dormir com um homem noite aps noite, sentir a fora dos seus braos nas costas e saber que seria assim para sempre? Conhecer o seu calor, a sua 
ternura. A dor centrou-se no peito, porque isso era algo que nunca chegaria a experimentar.
     Uma perda que lhe a feria at aos ossos!
     Os braos de Dane tinham sido quentes: fortes e ternos; o seu abrao, um refugio para a sua vida solitria.
     E quanto aos seus beijos... ai, os beijos! Os lbios frios de Thomas no eram nada comparados com os de Dane. Ele tinha-a beijado no centro da sua alma, nas 
profundezas do seu corao. E quando acariciara a sua pele nua... os seios...
     Que o cu a ajudasse, mas no havia nada do que se arrepender.
     E evidentemente, no era uma coisa que fosse esquecer com facilidade. Na realidade, assustava-a pensar que no conseguisse esquecer...
     Continuava de p diante da tigela quando a porta se abriu. Ele trazia a camisa suja... sabia o que isso significava.
     Olhou para ele.
     - J o fizeste?
     Ele concordou.
     - Obrigado.
     Os olhos dele recaram nela, e ao reparar na sua nudez, corou. Tinha o vestido sobre as costas da cadeira. O pudor impeliu-a a agarr-lo. Tapando o peito, virou-se 
para ele.
     No conseguia mexer-se.
     Banhado pela ltima luz do dia, a imagem dele obrigou-a a engolir a saliva. Era to bonito que lhe tirava o flego. Trazia a camisa aberta, mostrando a forte 
energia. Quase podia sentir aquela pele debaixo dos seus dedos, sedosa e suave. Levantou os olhos para olhar para ele, mas isso tambm no a ajudou. Ele estava srio, 
mas no parecia aborrecido. Recordou aquela maneira quente e hmida como a tinha tinha beijado, a cavidade hmida da sua boca sobre os seios. O rubor subiu-lhe s 
faces. E agora, ele tambm olhava para ela intensamente, enquanto o rubor se tornava mais vermelho e brilhante no seu rosto.
     Atrapalhada, virou-se para a fogueira. O corao comeou a bater com fora ao ouvir os passos que se aproximavam dela. Ah, estava perto. Muito perto...
     Atnita, sentiu o peito dele contra as suas costas.
     - No precisas de te esconder de mim, Julianna.
     Julianna mordeu o lbio. Era raro ficar sem palavras, mas esta era uma daquelas situaes que no sabia o que fazer.
     Conseguia sentir a respirao dele acelerada junto  sua orelha.
     - Ests zangada? - Disse ele, passado uns minutos.
     - No - conseguiu dizer, abanando a cabea.
     - Ento, porque no olhas para mim?
     A voz dele era uma dbil censura.
     Segurava-a peloa ombros com as mos e com uma ligeira presso, obrigou-a a dar a volta, sem deixar de lhe segurar os ombros. Julianna humedeceu os lbios e 
criou coragem.
     - No estou zangada. - Enfantizou. - Porque deveria estar?
quela resposta, ele apenas conseguiu erguer as sobrancelhas. O olhar dele desceu para os seios.
     Ela escolheu cuidadosamente as palvras.
     - Esta  uma situao  qual no estou habituada. Francamente, no sei muito bem como agir.
     Algo brilhou nos olhos dele.
     - Amor - esclareceu ele. - Creio que isso  evidente.
     No gostava que ironizasse com ela.
     - No te rias de mim!
     Dane suspirou.
     - Pelo amor de Deus, queres deixar de agarrar no vestido dessa maneira? Mesmo que no acredites, ainda sou capaz de conter os meus desejos.
     - Sim, tenho a certeza de que  o mais adequado.
     Ele revirou os olhos.
     - O que se supe que significa isso?
     Julianna arrependeu-se tarde demais das suas palavras.
     Ele observou-a fixamente.
     - Espera - disse ele lentamente. - No acreditas eu te desejo?
     Julianna estava to nervosa que no conseguia pensar.
     - J te disse - admitiu ela. - No sei o que pensar.
     O olhar dele tornou-se mais intenso, parecia estar a eflectir sobre o assunto. Para surpresa dela, ele tirou-lhe o vestido com um puxo. Depois, observou-a 
da cabea aos ps, lentamente, como se quisesse beb-la em pequenos golos. Na se sentia muito cmoda, nua diante dele, mas tambm no se tentou esconder.
     Dane acariciou-lhe o cabelo.
     - Sabes o que quero? - Perguntou suavemente.
     Julianna olhou para ele boqueaberta. Aquele homem tinha uns olhos maravilhosos, brilhavam como o vidro sobro o rosto bronzeado, como o ouro. Reflectiam a luz 
das sombras... e o calor do seu desejo.
     Aprisionada naqueles lindos olhos, o corao dela ficou louco. Negou com a cabea.
     - Dormiste ao meu lado todas estas noites, Julianna, e eu no consegui dormir perguntando-me como serias nua. Perguntava-me como seria sentir as tuas pernas 
junto das minhas. Entre as minhas. Quero deitar-te agora mesmo. Aqui. Agora. Quero acariciar-te, sentir o calor dos teus dedos. Beijar-te, percorrer-te, saborear-te 
com a minha lngua. Por todo o lado, Julianna. Por todo o teu corpo.
     Ela ficou sem flego. Quase enjoada. As suas quentes palavras eram quentes, envolventes. Quase acreditava que... mas no, no era verdade. No podia estar a 
falar daquilo.
     Ele olhou directamente nos olhos dela, como se procurasse uma resposta.
     - Supreende-te, querida?
     Ela no conseguia respirar, no conseguia falar. Ah, Deus, se fosse isso...
     Molhou os lbios com a lngua.
     - Ests a falar a srio? - Perguntou debilmente.
     - Estou. - Agarrou na mo dela. - Estou a queimar por dentro - sussurrou ele. - Por todos os lados, mas especialmente aqui. - Apanhou os dedos e levou-os para 
baixo, mais abaixo... at que conseguiu apalpar o vulto da sua ereco. - Incendeio-me contigo, Julianna. Todo o meu corpo arde. O meu corao arde.
     Julianna olhou para ele. Parecia rgido e intenso. E quanto ao seu corao, j no o ouvia. Conseguia senti-lo, conseguia sentir a dureza do seu membro entre 
os seus dedos, uma urgncia que a fazia tremer.
     - O meu tambm. - Disse ela finalmente.
     Dane exalou, deixando sair todo o ar contido. Ela tinha uns olhos azuis e decididos. Fechou os dele. Retirou-lhe a mo com uma maldio nos lbios. Era muito 
difcil v-la daquela maneira, meio nua.
     - Por Deus, Julianna, no devias dizer-me isso.
     - Porque no? - Sussurrou ela, surpreendida.
     O corao deu um pequeno salto.
     - No me ests a facilitar as coisas. Tento fazer o que  mais honrado.
     Uma dor quente subiu-lhe  garganta.
     - S um homem honrado podia ter dormido comigo todas estas noite sem... - os seus olhos disseram o que no puderam dizer as suas palavras.
     - Julianna - ele apertou os dentes. - Ai, senhor!
     Procurou a boca dela esfomeado. Ao beij-la, a terra tremeu debaixo dos seus ps. No fazia sentido que a conhecesse daquela forma e, no entanto, conhecia-a 
como nenhum outro o tinha conseguido. Sim, parecia saber exactamente o que queria. O que precisava. Ser abraada e protegida. Ser desejada.
     Quem ela fosse no parecia importar. Quem ele fosse, tambm no era uma coisa que a preocupasse.
     Tudo o que importava era aquela esfomeada necessidade com que ela saboreava os seus beijos, aquela maneira selvagem que tinha de o desejar. Sem esforo algum 
elevou-a nos braos e levou-a para a cama. No houve nenhum pensamento negativo nisso. Naquele momento, ela queria ser necessitada. Necessitava que ele necessitasse 
dela.
     Com impacincia, Dane desfez-se da sua roupa, deu um pontap s calas e deitou-se junto dela.
     Incapaz de se deter, Julianna estendeu a s mos e acariciou-he o peito. O peito nu. Era quente e vigoroso. Tinha a pele a arder, e ento recordou o que tinha 
dito...
     "Incendeio-me por ti, Julianna. Todo o meu corpo arde. O meu corao arde."
     Uma secura estranha subiu-lhe  garganta. Os lbios tocaram-se. Trmulos. Ele abriu a boca e roubou-lhe um beijo profundo e necessitado que lhe atingiu o estmago. 
O corao batia-lhe com tanta fora que no conseguia respirar. Ele introduziu a sua mo pela combinao, cravando nas suas ndegas cada um dos seus dedos. O corao 
parou ao sentir as pernas dele entre as suas, no meio delas. Pelo canto do olhos viu a sua ereco e, envergonhada, elevou os olhos para os fixar no rosto dele. 
Tinha medo de olhar, mas podia senti-lo. Abraava-se a ele com fora, sentindo os msculos do seu brao nas costas, a fora do seu membro entre as suas pernas. Sobretudo 
ali. To forte e duro, to viril.
     Deixou escapar um leve gemido.
     Dane levantou a cabea. Com os dedos enrolados no abelo dela obrigou-a a olhar para ele.
     - Tens medo? - Perguntou-lhe em voz baixa.
     Ela negou com a cabea, os olhos hmidos.
     - No de ti - confessou-lhe.
     Os olhos dele iluminaram-se, numa espcie de satisfao.
     - Quero ver-te. - Sussurrou. - Toda, querida. Dos ps  cabea.
     Sabia muito bem o que ele estava a fazer. Aquela era a sua viagem -  a sua entrada no mundo da paixo - e ele conduzi-la-ia durante todo o caminho. Mas aquele 
primeiro passo devia ser ela a dar.
     Sentou-se, tentando agarrar a bainha da combinao. Houve um rudo de tecido ao despir o seu corpo.
     Talvez estivesse a despir tambm a sua alma.
     Sentiu o olhar abrasador na sua pele, encorajando-a, e sentiu-se ainda mais vulnervel. Ao mesmo tempo, saber-se observada daquela forma excitava-a e fazia 
com que os seus seios se erguessem dolorosamente. J no era sangue o que corria pelas suas veias, era fogo. A chama do seu corao.
     Havia, sem dvida, muitas razes para que aquilo no acontecesse, mas nenhuma delas parecia importar agora. Era ela que se oferecia a ele. Num canto da sua 
alma, no conseguia acreditar no que estava a acontecer. No acreditava no seu atrevimento. Mas no se importava. Ali no era Londres. Estavam sozinhos e no havia 
ningum a quem dar prazer seno a eles prprios. Ningum podia v-los, ningum se importava. No havia ningum que pudesse cochichar sobre o assunto, nem mago-los. 
Ningum podia falar nas suas costas, daquela forma que tanto detestava. No havia ningum a quem dar prazer, s a eles prprios.
     No, as rgidas regras da sociedade no se aplicavam num lugar como aquele. Apenas eles impunham as regras, as suas regras. Tudo era diferente com Dane. Ele 
era diferente. Tremeu de impacincia. Queria saber o que nunca saberia de outra forma. Ele fazia-a sentir-se de uma maneira estranha. Querida. Era como se no se 
conhecesse a si prpria.
     Queria ser corajosa. Desejava ser aventureira e despreocupada, entregar-se ao seu desejo, ser todas aquelas coisas que nunca se tinha permitido ser.
     Por isso no ia perder mais tempo com pensamentos estpidos. Na realidade, qualquer pensamento parecia naquele momento... suprfluo, desnecessrio dentro do 
mundo da cabana em que estavam. Com Dane. Porque quando ele lhe tocava - quando a beijava! - O tempo e o espao... o mundo inteiro parecia evaporar-se. Sentia tudo 
aquilo que nunca tinha sentido. Viva, como nunca se tinha sentido antes. E livre.
     Dane tambm se tinha sentado. Com um dedo traava o contorno de um dos seios. Antes que pudesse gemer de prazer, outro dedo veio acariciar o segundo mamilo. 
Aos dedos seguiu-se a mo inteira, quente, uma sensao que a fez tremer pelo corpo todo.
     - Deliciosa, minha querida Julianna. Absolutamente deliciosa.
     Era como uma orao pronunciada com uma voz rica e deliciosa, quase hipnotizante. A viso das suas mos escuras e elegantes, to masculinas, provocava um formigueiro 
nos seus seios.
     Ento mudou de estratgia. Inclinou-se a aprisionou o seu mamilo com a boca, fazendo primeiro crculos vidos e hmidos com a lngua e depois chupando nele 
como uma criana esfomeada por leite. A sensao era irresistvel, to doce... no, quase insuportvel. Julianna sentiu-se enjoada, pelo que se agarrou com fora 
aos ombros dele. Era como se o seu interior se estivesse a tornar fraco, como sem ossos; derretia-se, decidiu, tanto por fora como por dentro. Por vontade prpria, 
as mos dela percorreram o contorno dos ombros dele.
     Ele agarrou-a nos braos e atraiu-a para si. Tinha os olhos hmidos e perdidos, uma expresso que o fez arder ainda mais de paixo. A cara de Dane contraiu-se 
num esgar, metade de dor, metade de prazer. Apertou os dentes, suspenso entre a plenitude do cu e a negra agonia do inferno. Ela tinha deixado  boca mesmo por baixo 
da dele, tentadora... ah, diabo! E o seu corpo nu... excitava-o mais do que tinha imaginado.
     Deveria t-a deixado ir embora. No lhe deveria ter tocado nunca. Nem abraado... quanto a Julianna, era quase como se no tivesse controlo sobre si prpria. 
Quase... mas no o suficiente.
     Desejava-a. Desejava-a tanto que o fazia tremer. E no de medo, mas de necessidade. Desejo. Como se fosse um jovenzinho virgem na sua primeira noite de amor. 
Um desejo apregoado por todo o seu corpo, mas especialmente por aquela parte dele que no conseguia esconder. Morria por ela. Queria que a sua pequena mo tocasse 
aquela parte ardente do seu corpo, queria sentir a sua procura. Na imaginao dele as posies sensuais sucediam-se. Julianna sobre ele, montando-o. Ele sobre Julianna, 
com as pernas abertas para o receber. Aquele pensamento fazia-o suar, acelerava-lhe o pulso. Se lhe tocasse... Deus, se ela lhe tocasse, vir-se-ia no mesmo instante!
     No conseguia conter o desejo que crescia no seu corpo e duplicava os seus sentidos. Mas tambm no se podia render a ele. Tinha que ser razovel. No, repreendeu-o 
uma voz na sua cabea, no a faria sua. Queria mergulhar nela, mas devia afastar aquele pensamento. No devia fazer-lhe mal. Ningum o faria, concluiu, incluindo 
ele. Embora, se bem pensado, podia dar-lhe prazer. Podia dar-lhe prazer sem a desonrar.
      Com desespero, fechou a boca sobre a dela. Foi um beijo meio selvagem, apenas meio controlado, mas ela sabia o que ele queria. E abriu a boca com avidez. Com 
um leve gemido, procurou a sua lngua e enrolaram-se as duas num ritmo sugestivo.
     Sentiu um calafrio. Acariciou o ventre liso e seguiu o caminho que conduzia para... deteve-se um momento, fazendo repousar a palma da mo no espao do seu ventre, 
as pontas dos dedos directamente sobre o plo castanho da sua feminilidade. Com que ousadia a reclamou como sua, extasiado ao ver a sua recompensa!
     A resposta foi imediata. Julianna tremeu quando a primeira carcia roou as pregas rosadas cobertas de plo castanho, mas em nenhum momento tentou afast-lo. 
A segunda caricia foi mais precisa, explorando cada parte da sua dobra sedosa, procurando o segredo mais bem guardado, to sensvel que quase a fez gritar.
     - Que suavidade! - Respirou ele contra os lbios dela. - Abre as pernas, sim, assim. Abre-te para mim, querida, abre-te para mim. Ah, Julianna, querida Julianna, 
ests humida e pronta, no ests?
     Com a ponta dos seus dedos brincou na porta do seu prazer, descobrindo a sua pele malevel e carnuda. Tranformava-se com deliciosa perfeio, a evidencia da 
sua paixo. A emoo tornou-se mais forte, os tremores comeavam a ser descontrolados. Ainda se atrevia a continuar?
     Ento sentiu como ele lhe introduzia o dedo indicador.
     Surpreendida, abriu a boca.
     - Cala-te...  o meu dedo. Apenas o meu dedo.
     Lenta e cuidadosamente, procurou com ele nas profundezas. Sem fundo, uma invaso em toda a regra. As paredes da sua vagina fecharam-se em redor do dedo dele, 
enquanto as unhas das suas mos se cravavam nas costas dele.
     - Outro - sussurrou ele.
     E assim foi.
     Julianna gemeu de necessidade. Retorcia-se... contra ele. A pele estava tensa, hmida. Para Dane era algo que levava ao limite o seu auto controlo. Continuou 
a dar-lhe prazaer, acariciando-a, procurando. Uma e outra vez, num ritmo agitado, mais e mais para dentro, mais profundo. E, de repente, utilizou tambm o polegar 
para brincar com o centro do seu prazer, em crculos mgicos que satisfaziam o ritmo do seu desejo.
     Era sufocante. Esgotante. Quase desorientador. Como se tivesse feito rebentar uma tempestade dentro dela. Armou-se de coragem at que sentiu que se ia partir 
em duas. Era insuportvel, mas no doloroso. Fazia-a retorcer-se, mas sem chegar a dividir-se por completo. Esperava algo com desespero, mas... o qu? Abriu a boca 
numa splica silnciosa.
     Dane respirou na sua orelha.
     - Est bem, querida. Tem que acontecer. Deixa que acontea. No te oponhas.
     E ela no o fez. No o conseguia fazer. Ento aconteceu... fechou os olhos, o seu corpo agitou-se, uma e outra vez, o prazer saiu dela numa srie de ondas hmida 
e quentes.
     Abriu os olhos aturdida. A boca de Dane estava no seu pescoo. Beijou os seus seios, apenas a carcia de uma pena. E depois desceu pelo seu corpo... traou 
com a boca o ardente caminho at ao centro do seu ventre.
     Uns dedos quentes seguraram as suas pernas, elevando-as at fazer com que os joelhos se erguessem. Sentiu um flego quente roando o plo e o flego dela tornou-se 
dolorosamnete profundo. Dane retirou com os polegares os plos vermelhos j hmidos pelo desejo brincalho dos seus dedos.
     Uma promessa ressoou na sua mente. "Quero tocar-te... beijar-te. Saborear-te com a minha lngua. Por todo o teu corpo..." Por todo o seu corpo.
     Hesitou. Os olhos dela dilataram-se, o seu corpo inteiro transformou-se em fogo.
     No, pensou superficialmente. No.
     - Dane... - o nome dele foi uma espcie de grito abafado. Segurou-o firmemente com os dedos, rodeado os dele que esperavam sobre o seu ventre. - No podes. 
Eu... isso no est certo!
     Lentamente, levantou a cabea e cravou os seus olhos ardentes nos dela.
     - Confias em mim, Julianna? - a voz dele era estranhamente estvel.
     No deveria, pensou fora de si. Mas confiava. Cada fibra da sua pele - tudo o que sabia dele - dizia-lhe que no era um homem sem princpios. Sem moral ou convices. 
E aquela sensao imps-se sobre tudo o resto. No podiam ser vergonhosos, pois no?
     - Sabes que sim - disse ela levemente.
     - Ento, deixa-me dar-te prazer. Deixa que... - baixando a cabea, beijou uma das suas pernas.
     Ela respirou impotente.
     - Dane, no devias. Deus, no podes. No... a.
     As palavras iam desaparecendo num gemido. Teve que se agarrar aos lencois com as unhas, o corao j no lhe pertencia, no podia acreditar que pudesse...
     Mas ele f-lo.
     Perdeu o fio aos seus pensamentos. S lhe importavam os sentidos. Com a largura dos ombros, afastou-lhe as pernas trmulas.
     Ela estremeceu ao sentir a primeira carcia ntima; um beijo to explicito que teve que fechar os olhos. As suas pernas abriram-se. Os joelhos abriram-se para 
ele, abertos e vulnerveis, abertos para o que ele quisesse. Desprovidos de vontade prpria.
     Ele f-lo uma e outra vez, com a ponta da sua lngua. Percorrendo a fina capa de plo que guardava os seus segredos nus. Ah, Deus, estava a derreter-se. Tanto 
por dentro como por fora. Contra ele... na sua boca.
     Lambidelas aveludadas que lembravam outros sonhos mais erticos. Uma tortura divina. Um refugio. Continuou a avanar pela selva de coral rosada das suas pregas, 
sempre em crculos.
     A respiraao dela era cada vez mais rpida. Julianna elevou as ancas contra ele, frentica.
     - Por favor - gemeu, - por favor - supicava-lhe, queria sentir aquele prazer mais uma vez. Estava perto, muito perto.
     Os seus gritos sem respirao foram enloquecendo Dane. Saboreava cada suspiro, cada gemido desesperado. Estava prestes a enlouquecer... por fim, chegou ao seu 
cltoris, o seu corao mais profundo. Ento aconteceu, era aquilo que procurava... tudo o que ela desejava. Um som, que foi quase um soluo, saiu dos lbios dela.
     Consciente da sua ardente libertao, mergulhou a cabea nela e estremeceu.
     
Captulo 12
     Julianna continuava a tremer quando ele a apertou entre os braos dele e os cobriu a ambos com as mantas. Passou um bom tempo antes que ela pudesse falar.
     - Dane - disse ela suavemente. - Foi muito... muito...
     Ele levantou-se ao seu lado e apoiou-se sobre um cotovelo. O seu riso foi lento e rouco.
     - Sim, foi muito bom, no foi? - Brincou ele.
     As imagens ainda recentes multiplicavam-se pela sua cabea, erticas. A descarada intrusao da mo dele, escura e elegante, percorrendo o seu ventre, introduzindo-se 
entre as pernas. A forma como se tinha aberto para ele. Aos seus dedos.  sua boca.
     Mais tarde perguntar-se-ia como se tinha atrevida a uma coisa daquelas. Mas agora, reuniu o ltimo resqucio de coragem que lhe restava.
     - Dane - a voz dela era um murmrio, - porque  que tu no...? - Afastou o olhar envergonhada.
     - O que ? V, diz o que ests a pensar, querida.
     - Est bem! - Disse ela, levantando a cabea para olhar para ele. - Tu no... ns no...
     Agarrou uma das madeixas dela com os dedos.
     - Acho delicioso que te ruborizes dessa maneira.
     Que descaramento! No entanto, a curiosidade venceu-a
     - Dane! Sabes perfeitamente o que quero dizer!
     Ele riu-se abertamente.
     - Depois do que acabmos de viver - disse ele quase sem vontade - no deverias ter problemas em diz-lo.
     - De acordo, ento! Porque no fizemos amor?
     O sorriso dele tornou-se menos visvel.
     - Ah, mas ns fizemos - disse sem se alterar. Inclinou a cabea e olhou para ela. - H muitas maneiras de fazer amor, pequena.
     - Sim, sim, mas...
     - Ah - assentiu perspicaz, - tentas dizer-me que sabes como e porque e onde um homem e uma mulher honrada se devem ligar?
     - Sim, exactamente. E tenho a certeza que...
     O olhar dele foi frio.
     - No gostaste?
     As faces dela ruborizaram-se.
     - Sabes que sim - explodiu ela. - Mas e tu? Tu no conseguiste... terminar.
     Dane arqueou uma sobrancelha.
     - Ah, no? - Murmurou.
     Os olhos dela dilataram-se. Escondeu o rosto no ombro dele. De alguma forma, pensou Julianna, o que tinha feito fora mais intimo do que se a tivesse penetrado. 
E no entanto...
     - Dane - disse ela, - pensava que farias amor comigo... da maneira tradicional.
     Um sorriso iluminou os olhos dele.
     - Da maneira tradicional? - Repetiu, divertido. - Ah, querida, ainda tens muito para aprender.
     - No te rias de mim! Tu no... e podias fazer - ela estava confusa - ... podias t-lo feito, e sabes disso perfeitamente!
     Os olhos dele brilharam. Acariciou-lhe a face com um dedo.
     - Queria faz-lo. Mais do que qualquer coisa no mundo. - Desceu a vista assinalando o seu prprio corpo. - E creio que  evidente. No conseguiria esconder 
mesmo que quisesse, no achas? - Traou a linha do queixo dela. - Tu tentas-me, Julianna. Tentas-me a limites insuportveis. Mesmo agora.
     Ela contnuava sem entender.
     - Ento, porque no...?
     Obrigou-a a olhar para ele segurando-lhe o queixo com dois dedos. A expresso dele era sria.
     - Escuta-me, querida. Eu importo-me contigo. Importo-me mais do que seria conveniente para ambos. E por isso,  que no tirarei o que deve pertencer ao teu 
marido.
     Ela olhou para ele boqueaberta.
     - O qu
     - No percebes, pois no?
     Ela cravou os olhos nele, negando com a cabea.
     - Tu, minha querida Julianna, s uma senhora. E eu no sou algum sem escrpulos. A tua virgindade no me pertence. E por muito que me tentes, por muito que 
o meu corpo te deseje, no consigo ser to egosta para a roubar de ti. - Deteve-se. - Deves entreg-la na tua noite de npcias... ao homem que se transformar no 
teu esposo.
     Julianna ficou sem flego. Deliberadamente, afastou o rosto.
     - s tu quem no entende. - Deteve-se, tentando ignorar a dor repentina no seu corao. - Eu nunca me casarei. Nunca.
     Dane deu um suspiro.
     - Claro que sim...
     - No - disse ela sem mudar o tom de voz. - Nunca o farei.
     Ele entrecerrou os olhos.
     - s incrivelmente linda, s jovem. Porque raio pensas que no te casars? Porque  que dizes isso?
     Embora sorrisse ligeiramente, os olhos dela eram um poo de amargura.
     - Depressa terei vinte e oito anos. Aos olhos da sociedade, estou no limite. J aceitei que ficarei solteira. Que nunca terei filhos.
     - Julianna - repreendeu-a.
     Ela cortou-o.
     - No  uma fatalidade, mas uma escolha pessoal. - Afastou o olhar.
     - Dane no tinha a certeza. Antes que ela afastasse o olhar do rosto dele, tinha conseguido ver uma expresso de desgosto no rosto dela.
     - No  isso que queres. - Apressou-se ele a dizer.
     - Mas  assim que deve ser.
     Ele franziu a testa, espantado por ela se ter tapado com o lenol. Porque estava to inflexvel? - perguntou-se, - com tanta certeza? E que loucura era aquela 
de se condenar a uma vida de solido?
     - Lembras-te quando me perguntaste porque no me tinha casado?
     Ele concordou.
     A voz dela, quando finalmente comeou a falar, era to baixa que lhe custava a ouvir.
     - Quase o fiz... uma vez.
     - Quando?
     - H quatro anos.
     - Puseste fim ao compromisso?
     Uma expresso que se podia entender claramente como de amargura passou pelo rosto dela.
     - No. Foi ele quem terminou. Para ser mais exacta, nunca apareceu.
     Dane olhou para ela curioso.
     - O qu?
     Ela encolheu os ombros. O sorriso dela era uma louvvel tentativa, embora fracassada. Dane percebeu no mesmo instante que a tinham magoado e agarrou-lhe a mo. 
Os dedos dela pareciam plidos e pequenos aprisionados entre os dele.
     - O que aconteceu?
     - Namorava com o Thomas h trs anos. Pediu-me para casar com ele varias vezes, mas eu queria esperar. Depois do fracasso dos meus pais, queria ter a certeza 
de que tudo daria certo entre ns, de que era o que nos queramos. Queria que tudo fosse perfeito. Sempre sonhei em me casar na igreja de Saint George, em Hannover 
Square. E quando caminhei para o altar, o meu corao era pura musica celestial. Era o dia mais feliz da minha vida, Dane, e pensava que era apenas o inicio... a 
ultima coisa que esperava era que Thomas no aparecesse. Mas esperei e esperei. Todos os convidados na igreja comearam a olhar para trs e a cochichar...
     O corao de Dane contraiu-se.
     - Nem naquela altura duvidei de Thomas. Estava convencida que lhe tinha acontecido alguma coisa. Mas quando o irmo dele apareceu e disse que Thomas tinha fugido 
para Gretna Green com outra mulher...
     Dane proferiu uma exclamao furiosa.
     - Bastardo!
     Mas Julianna negava com a cabea.
     -  um bom homem. A srio.  bom e compreensivo, e isso foi mais difcil para mim de entender, mais duro de aceitar. Quando regressaram, Thomas veio ver-me, 
para se desculpar. A mulher com quem fugiu chamava-se Clarice Grey. No dia do nosso casamento foi v-lo para lhe dizer que estava grvida dele. Eles conheciam-se 
desde crianas. Tinha sido um momento de fraqueza, sabes? No podia abandon-la, e por isso fugiram. Ambos chormos, Dane, porque ele sabia o mal que me tinha feito. 
Senti-me como uma estpida por ter confiado nele, por lhe ter confiado os meus sentimentos... o meu corao! Pensei que o conhecia bem. Mas depois senti-me como 
se no o conhecesse em absoluto. Estava envergonhada. Odiava os cochichos, os olhares... era como se Londres inteiro soubesse. Queria esconder-me de todos, por isso 
escondi-me na Europa. Estive l durante meses. Era to cobarde...
     - No s nenhuma cobarde, Julianna. E devo dizer que a maioria das mulheres no perdoariam to facilmente.
     - Perdoar no foi difcil. Entender, sim, foi difcil. Costumava perguntar-me se no tinha esperado demais. Se no devia ter aceitado casar-me com ele antes. 
Talvez tivesse ficado impaciente. Talvez eu no fosse suficientemente bonita.
     Dane emitiu um som.
     - Isso  absurdo! Devias odi-lo, mas no odeias, pois no?
     - Odiei durante um tempo - admitiu ela. - Mas a Clarice era... a me do filho dele. Era o correcto que ele se casasse com ela. A obrigao dele, o dever estar 
com eles. Ele fez o mais honrado. Respeito a deciso dele muito mais do que se tivesse casado comigo sabendo que outra mulher trazia o filho dele no ventre.
     Era assim que ela pensava, embora Dane no tivesse muita certeza. Apesar da sua coragem, sentia uma dor no enfrentada.
     - No te arrependes? No tinhas desejado casar-te com ele? - No sabia porque  que aquilo lhe importava. Na realidade, no lhe devia importar.
     Ela hesitou. Evitou os olhos dele.
     Uma estranha sensao cresceu no peito dele.
     - Ainda o amas, no  verdade? Ainda amas o Thomas.
     Voltou os olhos para ele com a boca aberta.
     - No. No! Mas sinto falta de algo que nunca terei. No tinha conseguido casar com ele sabendo que me tinha enganado. Nunca me casaria com ele sabendo que 
tinha abandonado a Clarice. No conseguiria suportar um homem que me mente. Para isso prefiro estar sozinha.
     Aquilo no pareceu convenc-lo.
     - Ento, o que ? Em que ests a pensar?
     Ela respirou fundo.
     - Um ano depois - confiou-lhe em voz baixa, - estava a passear pelo parque quando me encontrei com o Thomas e com a Clarice. Era a primeira vez que via o filho 
deles, era um menino. Peguei nele... no filho dele. Peguei nele e... - a voz dela parecia quase a ponto de se partir. - No o devia ter feito.
     Dane brincava com os dedos dela.
     - Porque no? Perguntou-lhe docemente.
     Os olhos dela fecharam-se. Quando os abriu, apareceram escuros e brilhantes.
     - No pensei que me doesse tanto, mas doeu, Dane. Doeu-me tanto, que quase chorei ali mesmo. Nunca esquecerei, quando o agarrei nos meus braos, o que me passou 
pela cabea naquele momento.
     Quase podia sentir a dor que estava a sentir nela.
     - Conta-me, querida.
     - Que podia ter sido meu. Que deveria ter sido meu. E no  que gostasse de Thomas - as lgrimas comearam a rolar pelas suas faces, -  que os meus braos 
sentiam-se vazios... estaro sempre vazios.
     - s uma mulher linda, Julianna. No  tarde demais, ainda podes ter filhos...
     - No, no! No me casarei com um homem que no me ame, com um homem ao qual eu no ame... estou feliz com a minha vida. Tenho a minha famlia, tenho a minha 
casa em Londres e uma linda casa de campo. As minhas receitas esto garantidas. Uma mulher no precisa de ter um marido para ser feliz e eu no quero ser me apenas 
pelo dever, pela obrigao. Prefiro que os meus braos continuem vazios a casar-me com um homem no qual no possa confiar. E no tenho a certeza de poder confiar 
num homem outra vez! Um marido deve ser honesto e sincero. Mas como  que posso saber? Como  que saberei?
     Esta ltima frase foi um grito amargurado de desconfiana.
     Ento percebeu tudo. Dizia que estava feliz com a sua vida, mas estaria? Admirava a sua coragem, a sua independncia, o seu esprito, a forma como tinha refeito 
a sua vida apesar da vergonha e da dor. Mas tinha-se negado ao amor. A sua experiencia tinha-a feito perder a f nos outros. A f nela prpria, quer o soubesse ou 
no.
     E ele no se tinha enganado. A doce e maravilhosa Julianna... cuja bondade lhe fazia um n no estmago. O seu discurso era de impotncia. Tinha nascido para 
ter uma famlia, para ser me, para estar cercada de crianas. Deus, quase podia ver! Tinha tanto para dar e, no entanto, tinham-lhe tirado essa oportunidade!
     Qualquer homem teria sorte em t-la como esposa, decidiu de repente. Era leal e firme, alegre e generosa, de carcter meigo e entregue.
     "No tenho a certeza de poder confiar num homem outra vez", tinha dito ela.
     Mas tinha confiado nele. Tinha confiado nele.
     Assaltou-o uma sensao possessiva. Era como se o tivessem agarrado pelo pescoo no e conseguisse respirar, nem sequer conseguia pensar. Uma voz indesejada 
censurava-o no seu interior. No confiaria nele se soubesse que ele, tambm a tinha enganado.
     Apertou-a entre os braos, contra o peito. Com um pequeno suspiro, ela deixou cair a cabea e mergulhou no peito dele. Dane acariciou o cabelo dela com os lbios 
e acariciou a sua espinha dorsal, com os olhos perdidos no fogo crepitante da chamin.
     Passado um tempo, Julianna sentiu o corpo dormente. Dane atraiu-a ainda mais para ele. Tinha-se metido numa grande confuso. Nunca deveria ter-lhe posto as 
mos em cima, mas ela era irresistvel. Impossvel! No conseguia deixar de se preocupar com ela. No devia!
     J era tarde demais.
     
     Quando Julianna despertou na manh seguinte, Dane j estava acordado. Completamente vestido, esperava sentado  mesa. Ao v-lo, Julianna perdeu o flego. Tinha 
as magas arregaadas, o que deixava ver o plo escuro dos seus braos. Engoliu profundamente ao fixar os olhos na fora do seu pescoo.
     Era lindssimo! O sol desenhava o seu contorno. Tinha feito a barba, pelo que no conseguiu evitar lembrar-se da agradvel sensao da sua barba sobre o estmago. 
Aquela recordao fez com que ardesse por baixo das mantas... o que a lembrou tambm da sua prpria nudez.
      Ele deve ter sentido o olhar dela, porque levantou a cabea e sorriu com delicadeza, um sorriso que a fez tremer dos ps  cabea.
     - Bom dia - disse ele suavemente.
     Os olhares encontraram-se durante um momento inesquecvel. Foi Julianna quem finalmente afastou os olhos e apanhou a roupa interior que tinha no cho. Ruborizada, 
deu meia volta para se vestir. Tanto pudor parecia desnecessrio, depois da intimidade partilhada, mas no conseguiu evitar. Saiu da cama e vestiu o vestido da noite 
anterior. Depois, penteou convenientemente o cabelo.
     Virou-se e ficou impressionada ao ver que Dane no tinha deixado de a observar durante todo aquele tempo. A expresso dele era muito enigmtica. No havia forma 
de ler os pensamentos dele. Observava-a de forma to intensa que comeou a sentir-se incmoda. No era normal v-lo com uma cara to abatida.
     Colocou uma mo no peito.
     - Porque me olhas assim? - Perguntou ela.
     Ele no respondeu.
     - Dane? - Olhou para ele atordoada.
     O que se passava? A expresso dos olhos dele era quase de amargura. Talvez tambm de resignao.
     Arrastou a cadeira junto dele. Baixou a vista e centrou-se na boca dele. Depois voltou a subir o olhar at aos olhos dele, e Julianna estremeceu ao recordar 
os momentos passados.
     - Levantaste-te bastante cedo. O que fizeste? - Perguntou ela curiosamente enquanto fixava o olhar na pilha de trapos amontoada na mesa. Junto deles, havia 
um longo cano de metal.
     Ficou gelada, sem respirao.
     Tinha estado a limpar as pistolas. Estavam ali, junto dos trapos.
     Ele inclinou-se e beijou-a levemente nos lbios.
     - Nada com que tenhas que te preocupar, querida.
     Dane sabia onde ela tinha fixado os olhos. Apressou-se a guard-las numa pequena bolsa.
     Uma sensao horrvel atravessou-lhe as costas. A certeza do que estava a acontecer acertou-lhe como um balde de gua fria.
     - Vais sair esta noite, no vais?
     Ele levantou os ombros. Ficara repentinamente tenso.
     - Vais sair, no ? O Urraca ataca de novo?
     No obteve resposta.
     Julianna emitiu uma gargalhada nervosa.
     - Claro, que pergunta to estpida. - Colocou uma mo nas duas sacas que continuavam no canto da cabana. - No tenho duvidas que deves ter mais como estas escondidas 
em algum lugar. No  o suficiente para ti?
     Com os olhos cautelosos, manteve-se firme no seu silncio.
     - Devo perguntar-lhe novamente, senhor?
     Finalmente levantou uma sobrancelha e ironizou.
     - Senhor? Vamos... pensava que j tnhamos superado essas criancices, amor.
     Aquilo enfureceu Julianna. No via necessidade de recordar as intimidades.
     - Ests a mudar de assunto, Dane!
     - Est bem. Aparentemente no, no  o suficiente. - A voz dele era glida assim como as suas palavras. - Por acaso um homem pode ter riqueza suficiente?
     Falava com muita calma, sem deixar de sorrir. Julianna estava furiosa.
     - Porque  que roubas, Dane, porqu?  por ganncia?
     Como se fosse inconstante, respondeu:
     - e se te disser que no  por necessidade?
     A forma como olhou para ela... era como se tivesse perdido o juzo. Ah, no fazia sentido! Ter-se-ia enganado tanto a respeito dele? Teria ficado cega com o 
desejo?
     - No tentes brincar comigo! - Gritou ela.
     -  como caar - disse ele de repente. - A emoo da caa, e excitao. A tentao do destino. Arriscar tudo e ganhar...
     -  perigoso!
     Os olhos dele cintilavam. Estava a rir, o canalha... a rir!
     - Apenas se me apanharem.
     -  um divertimento. - Julianna sentiu-se enojada. Abanou a cabea e olhou para ele. - Dane - disse preocupada, - deixarias de o fazer se eu te pedisse?
     O sorriso dele desapareceu.
     - O qu?
     - Deixarias de ser um ladro, um bandido...- molhou os lbios, quase com medo de dar voz aos seus pensamentos - por mim?
     Julianna conteve o flego durante o que pareceu uma eternidade. No rosto dele viu algo parecido ao remorso, mas ento ouviu a resposta dele.
     - No fazes ideia do que me pedes.
     - Claro que fao. Podes mudar, Dane. s um bom homem. Eu sei, consigo sentir. - Ela era testemunha do seu carinho, da sua compaixo. - No tens medo de morrer? 
- Sussurrou.
     Naquele momento colocou-se directamente em frente dela, to perto que conseguia sentir o calor da sua respirao.
     - Tu importas-te?
     - Sim. Sim! - Lgrimas quentes rolaram pelas faces dela.
     - No me peas isso. - O tom dele era lacnico. - H coisas que no sabes...
     - Ento, conta-mas.
     - Julianna, se as circunstancias fossem diferentes. Noutro momento, noutro lugar... se eu no fosse o Urraca...
     - Mas s - sussurrou ela.
     E como desejava no o ser! Dividido em dois, olhou-a fixamente. O plano j estava em andamento, no podia deix-lo agora.
     - Por favor, Dane. No vs. No o faas. Desiste. Por favor, desiste.
     Ele apertou a mandbula.
     - No posso, Julianna. No posso. No posso ter o que quero. No agora. No posso mudar o que sou...
     - Podes mudar o que fazes. Mas no o fars, pois no?
     O silncio dele estendeu-se at parecer um vazio enorme.
     Julianna abafou um grito.
     Tentou segur-la pelos ombros.
     - No! - revoltou-se. - Por favor, no me toques!
     Dane fez uma careta.
     - O que foi, vais voltar a disparar se eu o fizer?
     Ela ficou sem respirao. Como  que podia dizer uma coisa daquelas?
     - Ah! - Gritou ela. - Isso  muito cruel, e tu sabes!
     Tinham deixado passar o momento. Os olhares encontraram-se impotentes.
     O orgulho f-la levantar a cabea bem alta. Tentou afastar o tom de dor na sua voz.
     - Quero ir-me embora - disse ela em voz baixa.
     Os olhos dele eram mais amarelos do que nunca. Apertou-lhe os ombros.
     - Julianna...
     - Este  o momento. Ambos sabemos. J ests bem, no h necessidade de eu ficar.
     Ento soltou-a. Falou quase sem mover os lbios.
     - Arruma as tuas coisas.
     
     Uma hora mais tarde, deixavam o bosque seguindo o curso do rio. Julianna ia sentada  frente de Dane, nervosa e preocupada, enquanto cavalgavam no lombo de 
Percival. Conseguia sentir a rigidez dos braos de Dane ao rode-la pela cintura. Tinha pouco a dizer, e Julianna tambm no sabia como romper o silncio. Como sentia 
falta da camaradagem e da cumplicidade que tinham partilhado naqueles dias!
     Ao atravessar as portas cobertas de hera que guardavam a entrada de uma propriedade, Julianna olhou para trs para observar a fachada de tijolo e de pedra que 
dominava  distancia. A casa parecia grande, ladeada por colunas e um prtico. Diante dela, um pequeno lago brilhava ao sol, rodeado por imensos e fragrantes jardins 
de narcisos.
     Estava determinada a quebrar o incmodo silncio entre eles.
     - Que lindo! - Arriscou-se. - Pergunto-me quem viver ali.
     - No fao a mnima ideia. - Foi a solene  resposta de Dane.
     Despertou-lhe a ateno o estranho tom na voz dele. Passou-lhe pela cabea perguntar-lhe mais alguma coisa, mas a expresso contrariada da boca dele f-la ficar 
em silncio.
     Percival passou por uma ponte. Havia uma fileira de pequenas casas de ambos os lados da estrada que conduzia  hospedaria. As janelas eram enfeitadas com vasos 
de flores coloridas que contrastavam com o seu humor.
     Dane deteve Percival e ajudou-a a descer. O lugar estava deserto,  excepo do podengo que saiu ao encontro deles quando os viu aparecer. Julianna no conseguiu 
evitar: um calafrio atravessou-lhe as costas e encolheu-se assustada. Dane segurou-a com fora pela cintura, como se a pudesse proteger.
     - No te preocupes. No te far mal.
     - Estou bem - apressou-se ela a dizer, precipitando-se para se soltar dele. Enchendo-se de coragem, baixou-se e acariciou o lombo do animal.
     O co no deixava de lhe farejar a saia, sem duvida reconhecendo o cheiro de Maximilian. Maimilian... ai, j comeava a sentir falta dele!
     No viu a sombra no rosto de Dane. Ele colocou a maleta junto dela.
     - Vou buscar o teu bilhete.
     Julianna levantou os olhos quando o viu aparecer com ele na mo.
     - No vai demorar muito. Pontual como um relgio suo, foi o que me disseram.
     Julianna no queria separar-se dele.
     - Ento, no  necessrio que fiques. - Milagrosamente, a voz dele soou despreocupada.
     - Nem pensar. Espero at te ires embora.
     - E se algum te reconhece?
     A ameaa de um sorriso passou pelos lbios dele.
     - Uso mscara, lembras-te?
     - No quero que fiques - disse ela duramente.
     O sorriso dele desapareceu. Olhou para ela com angstia.
     - Como queiras.
     Estar ali de p, diante dele, era mais do que conseguia suportar. Sentia um peso terrvel no seu peito. O que mais queria era abra-lo e no deixar que se 
fosse. No se separar dele nunca. Em toda a sua vida.
     Os seus sentimentos tinham-na trado. O seu corao tinha-a atraioado. O destino tinha-os unido. Mas tinha sido outra coisa que a tinha impelido a ficar.
     Amava imenso a sua famlia, mas a proximidade que tinha sentido com Dane nunca a tinha sentido com ningum. No era apenas a intimidade fsica, era muito mais. 
Quando estavam os dois sozinhos, sozinhos na cabana, a vida parecia muito mais simples.
     At quele momento tinha levado uma vida alegre e independente. Mas dentro de si, sempre tinha havido um vazio. Algo que lhe faltava, e agora sabia o que era. 
Era... ele. Aquele homem. No tinha vontade de voltar  rotina da sua vida vazia e sem sentido. Mas ele no lhe dava outra opo.
     No conseguia ver-se arrastada a uma vida  margem da lei. No podia mudar o que era... e ele tambm no mudaria.
     A situao era impossvel.
     O silncio tornou-se mais pesado. Teria gostado de ser mais insencivel. Dessa forma teria podido olhar para ele directamente nos olhos.
     Deus. Porque se demorava tanto a ir embora? Porque no ia j?
     Ele obserava-a intensamente.
     - Julianna - disse ele, - no podes dizer a ningum que nos conhecemos. No podes dizer a ningum o que aconteceu. Onde estou. Se o fizeres... - no conseguiu 
acabar a frase.
     Era disso uqe se tratava.
     No conseguia acreditar. No quis olhar para ele.
     - No direi a ningum. - A voz dela mal se ouvia.
     Ele ficou imvel como uma esttua.
     Julianna engoliu com fora.
     - Por favor, vai embora.
     - Sem nos despedirmos?
     Ele deu um passo em frente. Julianna queria chorar. Afastou o olhar, confusa.
     - Julianna - disse ele.
     - Vai - gritou ela nervosa. - Vai e deixa-me em paz!
     Teria jurado que o que ouviu era a sua mandbula a fechar-se ruidosamente. Com uma maldio surda, ele deu meia volta e caminhou para Percival.
     Com a cabea baixa, Julianna esperou ouvir o som dos cascos.
     Em vez disso, ouviu o eco sobre o pavimento de umas botas que se aproximavam. Cada vez mais prximas.
     Abriu os olhos espantada. No teve tempo de protestar, nem de fazer outra coisa que no fosse um som leve e abafado. Uns braos fortes rodearam-na pelas costas. 
Viu-se, de repente, encerrada no maravilhoso corpo dele.
     Aproximou a boca do rosto dela e beijou-a. Com toda a fria de que foi capaz! Selvagemmente! At a levantar do cho. Suspensa contra ele, Julianna no conseguiu 
fazer outra coisa seno render-se.
     O corao quase lhe saltava do peito quando finalmente a soltou.
     Ento percebeu. Percebeu o quanto tinha sido estpida!
     Porque tinha a certeza que se tinha apaixonado...
     No de um heri... mas de um ladro de estradas.
     
     
Captulo 13
     Londres
     Chovia, com aquela chuva fina que molha tudo nas primaveras londrinas. As chamins cuspiam fumo cinzento e o vento espalhava as gotas da chuva pelos vidros 
das janelas.
     Julianna estava sentada na sala da sua casa. Em circunstncias normais, no teria ficado seno sentada diante da fogueira na sua cadeira de mogno com uma chvena 
fumegante de ch ao lado. Era uma diviso acolhedora, uma diviso que combinava conforto e elegncia. Tinha-se esforado muito por decor-la ao seu gosto, procurando 
nas lojas durante semanas os mveis mais apropriados. As colunas e os caixilhos estavam pintados de creme que contrastava com o azul brilhante das paredes. Por cima 
de um sof estofado de seda tinha pendurado um espelho dourado.
     Mas nesse dia o ch tinha ficado frio, e o tempo era um triste reflexo do seu humor.
     Talvez devesse voltar a decorar a sala. Fazer alguma coisa. Qualquer coisa que a fizesse esquecer de Dane.
     Tinham passado duas semanas desde a separao. Propusera-se no sentir falta dele, no se repreender pelo que tinha acontecido.
     Era intil.
     Tinha regressado de Bath antes do planeado: ningum a esperava na casa de campo e regozijou-se por a sua criada Peggy ter permanecido em Londres. Uma vez ali, 
percebeu que tinha perdido o interesse em Bath e que precisava de voltar a Londres.
     A primeira semana depois do seu regresso conseguira estar ocupada com os afazeres da casa,  excepo do calendrio social. Mas as noites tornaram-se insuportveis 
na solido da sua casa.
     Ele tinha mudado todo o seu mundo, pensou desolada. Acendera uma nova centelha dentro dela. Algo que estivera adormecido durante muito tempo. As suas esperanas 
e os sonhos, aqueles que tinha decidido abandonar, aqueles que acreditara ter enterrado no dia em que Thomas a abandonara.
     Porque tinha tido que a beijar? Porque lhe tinha tocado? Porque abrira o seu corao to bem guardado? Porque tinha tido que o partir? Ela tinha fechado o corao 
como nica forma de proteco, e Dane conseguira deitar abaixo as suas barreiras. Durante anos convencera-se de que era feliz. Tinha pensado que se conhecia bem 
a si prpria. Que sabia o que queria, o que precisava. Que no era possvel ter uma coisa sem a outra.
     Mas agora perguntava-se se algum dia chegaria a ser feliz. Como o ia fazer? No, agora. No, depois disto. No, depois dele. A dor foi menor quando Thomas se 
casou com Clarice. Agora era como se uma parte do seu corao tivesse sido desfeita.
     Uma sbita pancada na porta f-la sair da sua reflexo. Saiu para o vestbulo. Ladeado por um arco, os mosaicos do cho, faziam o desenho branco e preto de 
um tabuleiro de xadrez. Viu os irmos entrar e sacudir a gua da chuva. A senhora MacArthur, a mulher que era sua empregada nos ltimos trs anos, conduziu-os ao 
interior.
     - Jules! - Saudou Justin. - Regressmos de White e apeteceu-nos entrar e cumprimentar-te.
     - Bem, e eu que pensava que s queriam resguardar-se da chuva.
     Sebastian inclinou-se e deu-lhe um beijo na face.
     - Ol. Jules.
     A senhora MacArthur colocou o avental.
     - Trago-lhes ch, senhores - disse ela alegremente.
     - Est bem - disse Julianna sem muito entusiasmo. - Parece que ficam para tomar o ch.
     Os irmos dela seguiram-na para a sala. Sebastian sentou-se num lado do sof enquanto Justin acomodava a sua elegante figura na delicada cadeira branca do lado 
oposto.
     Justin desapertou os botes do seu casaco.
     - Onde diabos estiveste? Arabella veio ver-te h uns dias e disseram-lhe que tinhas ido para o campo. Pensei que tinhas regressado h mais tempo.
     - Sim, h sculos que no te vemos. - Sebastian observou-a com curiosidade.
     - Decidi ficar mais tempo do que o previsto. Voltei h uma semana. O que acontece  que reduzi significativamente os meus compromissos. - No era exactamente 
uma mentira. Contudo, roeu-lhe a conscincia. Perguntou-se o que teriam dito os irmos se soubessem que tinha estado em companhia do Urraca. Deus santo, teria soado 
horrvel. Alm disso, quem acreditaria nela? Teriam pensado que estava louca, ou que era uma das suas brincadeiras. E tinha prometido a Dane.
     Aquela era uma promessa que pensava cumprir.
     A senhora MacArthur voltou com uma bandeja e colocou-a diante deles. Justin agradeceu o servio com um devastador sorriso, o que uma vez mais ruborizou a mulher. 
O sorriso era inocente, ela sabia, mas era o mesmo que tinha utilizado para cativar as mulheres no passado. Embora, no a sua esposa, pelo menos de inicio. A sua 
cunhada Arabella tinha impressionado o mulherengo do seu irmo no sucumbindo como as outras aos encantos dele.
     - Cada vez que c vens - disse Julianna alegremente, - esta mulher passa depois trs ou quatro dias alterada pela tua memria. No sei se diga a Arabella que 
h outra mulher que gosta de ti.
     - Bom, sabes que s h uma mulher na minha vida. Ou melhor: duas - corrigiu ele. O seu sorriso era de satisfao. Julianna sabia que estava a pensar na sua 
pequena filha.
     - Ento e eu? - Sebastian arqueou uma sobrancelha. - Por acaso no sou atraente?
     Julianna enrugou o nariz em direco ao seu maravilhoso irmo mais velho.
     - Conheo uma mulher que est louca por ti - deteve-se. - Como esto os gmeos?
     - Falando sem parar. Mexendo-se sem parar. Devon e eu no aguentamos mais. - Fez um esgar de desgosto, mas no enganou ningum. Adorava os folhos e adorava 
a sua esposa.
     Continuaram a conversar assim durante mais um tempo. A senhora MacArthur trouxe uma seleco de biscoitos de ch e tortas de fruta. Foi Sebastian que percebeu 
que a sua irm no tinha provado o prato.
     Colocou a chvena sobre o prato.
     - O que se passa, Jules? - Perguntou preocupado.
     Julianna assustou-se. Tinha tentado ser forte durante todos aqueles dias, mas na noite anterior parecia ter perdido a batalha. As imagens de Dane sucediam-se 
na sua cabea. O olhos dourados, o calor que a rodeava... como o desejava! Desejava-o mais do que tudo no mundo. Conseguiria alguma vez esquecer o seu sabor? A fina 
textura da sua pele? Durante um tempo, os cantos do seu corao... da sua vida... tinham estado cheios. Aquilo fazia com que agora o vazio mais intenso. Mais difcil 
de suportar.
     Alguma coisa se tinha partido dentro dela. Naquela mesma noite tinha mergulhado a cabea na almofada e chorara durante um bom tempo. No conseguira dormir at 
ao amanhecer. Ao acordar, o sofrimento da noite tinha-lhe deixado marcas por baixo dos olhos...
     - Nada - negou rapidamente. - Porque pensas assim? - bebeu um golo de ch e quase queimou a lngua.
     Sebastian elevou uma sobrancelha. Olhou para o prato intacto de Julianna.
     - Aqueles so os teus favoritos. Nunca os recusas.
     - Almocei tarde. - Mentiu.
     Sebastian ficou a observ-la. Havia um vazio dentro dela. Tentou escond-lo, mas os irmos conheciam-na bem.
     - Pareces cansada, Julianna.
     Baixou as pestanas, mas j tinha conseguido captar a ateno de Justin tambm.
     - Pareces diferente. - Observou ele. - Ests mais magra.
     - Sim. - Sebastian concordou. - E pareces ter perdido o brilho, aquela alegria na tua voz. - Franziu a testa. - Estiveste doente ou qualquer coisa parecida? 
     Julianna ia explodir. Uma parte dela queria atirar-se nos seus braos e procurar consolo. Sabia o quanto ele podiam ajud-la. Mas teve que manter a compostura 
e negar com a cabea.
     - Claro que no - tentou parecer convincente. - Deve ser da luz, est um dia horrvel, no acham?
     Foi Justim quem falou.
     - Se no te conhecesse bem - disse ele lentamente, - diria que... - deteve-se, ponderando as suas palavras.
     - Estou bem - garantiu Julianna, comeando a irritar-se.
     - Ters que ir ao baile dos Farthingale esta noite se queres que acreditemos em ti. Tenho a certeza que recebeste o convite.
     - Ao contrrio de ti, consigo resistir a um desafio. - E pensar que tinha acreditado que o seu casamento o tinha amadurecido! - Sinceramente, tinha planeado 
passar uma noite tranquila em casa.
     - Mas tenho a certeza de que uma noite fora no te far mal nenhum. E talvez se fizeres uma sesta, consigas estar em condies para danar esta noite.
     Agora era Sebastian quem a animava. Julianna respirou impotente. Olhou primeiro para um e depois para o outro.
     - No me deixaro em paz enquanto eu no aceitar, no ?
     -  verdade.
     - Jules, ests a ofender-nos!
     Docemente, perguntou-lhes.
     - Acompanho-vos  porta, queridos irmos?
     Nenhum deles se moveu.
     Julianna apertou os lbios. Nunca os convenceria de que estava bem se no aceitasse.
     - Est bem. Encontro-me l com vocs, ento.
     - Estupendo.
     - Devon ficar feliz por te ver.
     Julianna levantou-se obrigando-os a sair.
     Finalmente seguiram-na.
     Ao levantar-se, Sebastian inclinou a cabea para o irmo.
     - Felicito-te pelo teu poder de convico.
     Justin fez bater o salto das suas botas.
     - E eu agradeo-te a ajuda prestada.
     Julianna deixou escapar um som de desespero.
     Insolentes!
     
     Nessa noite, s dez em ponto, Julianna esperava de p numa esquina da sala de baile na manso dos Farthingale. Do outro lado da sala, Justin beijava a mo da 
sua esposa Arabella, com devoo e carinho. s vezes continuava a surpreender-se ao ver o seu irmo no papel de fervoroso esposo. E fervoroso pai. Tal como o resto 
da sociedade, pensara uma vez que o seu irmo Justin era a quinta-essncia dos malandros, a quinta-essncia dos solteiros.
     Depois olhou para Sebastian, que danava com a esposa, Devon. Olhavam-se nos olhos como se no existisse mais ningum no mundo. Acabavam de anunciar que no 
Outono haveria um novo membro na famlia Sterling.
     Julianna tinha-os abraado carinhosamente ao saber da notcia, porque na verdade ficara feliz. Mas agora... agora a dor batia-lhe dentro de si. Julianna felicitava-se 
por os seus irmos serem felizes, eles mereciam! Mas era errado sentir um pouco de inveja? Era errado desejar o mesmo que Sebastian partilhava com Devon? Ou que 
Justin partilhava com Arabella?
     Ela suspirou. Tinha cumprido com a sua palavra. Tinha aparecido na festa e agora, podia ir para casa.
     Mas ento um murmrio captou a sua ateno. Vrias mulheres falavam num crculo prximo.
     - ... O Urraca!
     Julianna virou-se para elas. Os msicos tinham concludo uma pea e dispunham-se a descansar durante um tempo. Cuidadosamente, aproximou-se de um ramo de flores 
que estava perto das mulheres, de onde podia ouvir sem ser vista.
     - Dizem que  lindo demais, educado demais para ser um bandido.
     A voz da mulher que falava era quase melanclica. Julianna no conseguia v-la, pelo que no conseguiu saber de quem se tratava. Conteve o flego, para no 
perder o fio  conversa.
     A outra parecia concordar.
     - Lindo! Garanto que  um verdadeiro rufia! Conheces a Loretta? Ela foi assaltada por esse desavergonhado apenas h trs semanas! No s lhe roubou a bolsa, 
como se atreveu a beij-la e a acarici-la. E com o marido ao lado!
     Julianna ficou vermelha. Ah, como gostaria de entrar na conversa e esclarecer algumas coisas! Duvidava muito que o que dizia aquela mulher fosse verdade, fosse 
ela quem fosse. Desejava poder sair dali e dizer-lhes que h trs semanas ele tinha estado com ela, e claro no em condies de tirar a bolsa a ningum. No apenas 
isso: tinha a certeza de que Dane no conseguiria fazer uma coisa daquelas com o marido da mulher a olhar. Um beijo, talvez... talvez. Mas acarici-la? Nunca! Nem 
sequer tinha visto bolsas na cabana... apenas aquelas sacas cheias de notas.
     - Aposto que no ficar to lindo pendurado numa corda.
     Julianna sentiu que lhe faltava o sangue.
     - O qu?
     - No viste os jornais desta manh? Duplicaram o preo pela cabea dele. Mais cedo ou mais tarde apanham-no. E o sortudo que o apanhar e levar s autoridades 
ficar rico.
     - Bom! - Disse a primeira. - Isso se no o matarem antes!
     Julianna ficou branca. Ainda tremia quando sentiu uma mo no seu ombro.
     Era a duquesa viva de Carrington, to imponente como sempre e vestida de vermelho. Com a ponta da sua bengala, a duquesa levantou suavemente a bainha do vestido 
de Julianna. Vestida de seda de cor mbar, o tecido abatia-se fazendo suaves pregas desde o pescoo at aos ps, o que favorecia a sua figura. A criada tinha utilizado 
uma fita de prolas para apanhar os seus cabelos. Usava luvas brancas que lhe cobriam os braos at aos cotovelos, a meio caminho de onde lhe chegavam as mangas.
     - Esta cor favorece-te, querida. Faz sobressair o castanho do teu cabelo. E as prolas... ests linda.
     Julianna no a ouvia.
     - Ah, boa noite, duquesa. E obrigado. - No era sua inteno ser mal-educada. Uma mulher no podia fugir da duquesa de qualquer maneira. Alm disso, era quase 
da famlia. - Ah, duquesa, posso perguntar-lhe se...?
     - Vi-te a observar os teus irmos h pouco, querida. Escondes muito bem, mas consigo sentir a tua solido.
     Julianna quase gritou.
     - Mas, alteza, no estou sozinha!
     A duquesa negou com a cabea.
     - Criana, quando se chega  minha idade, uma mulher sente muitas coisas. - Deteve-se. - Tu sabes, considero-me responsvel de ter unido muitos casais... na 
realidade, de ter casado muitos deles. Fui eu quem previu que Justin seria o homem perfeito para Arabella... e neste mesmo salo! E, claro, Sebastian e Devon. - 
A senhora franziu os os lbios. - Querida, contive-me durante muito tempo. Mas seria um prazer para mim que me deixasses sugerir-te um cavalheiro que serviria para 
ti na perfeio. - Riu-se. - talvez tenhamos um bom resultado.
     Julianna estava prestes a gritar. A duquesa gostava de fazer de casamenteira. E at ao momento, Julianna tinha conseguido dissuadir o propsito da velha mulher.
     - Duquesa - comeou Julianna.
     A duquesa cravou os dedos no ombro de Julianna.
     - Confia em mim, querida Julianna. Tenho uma grande experiencia nisto, garanto-te. Agora - afirmou energicamente, - a nica questo  saber quem. Tenho a mais 
alta opinio sobre ti, sabes? Sendo assim, o homem em questo no pode ser apenas competente. Deve ser um homem de slida reputao, de carcter inatacvel. No 
me satisfarei com menos. - Piscou um olho. - E lindo. Ah, tenho o homem perfeito para ti!
     - Mas duquesa - disse Julianna firmemente.
     - Mas onde  que ele est? Vi-o apenas h uns minutos. Aqui est ele!
     A bengala da duquesa alou-se e caiu estrondosamente depois de dar um grande crculo no ar. Julianna quase gritou ao sentir um puxo no brao. A velha senhora 
no lhe prestou ateno.
     - Granville - gritou ela. - Venha aqui, pequeno!
     Diabo! Era tarde demais. Pelo canto do olho viu que o cavalheiro se tinha detido. Pelo menos podia rir-se um pouco...
     Afastou-se lentamente e depois voltou a olhar. O homem estava a virar-se... a virar-se.
     O corao saltou. Havia alguma coisa familiar no seu ombro, na forma como se movia.
     Que loucura era esta? Ah, Deus, agora podia v-lo. No apenas em sonhos, mas em carne e osso.
     Junto a ela, a duquesa estendeu uma mo. Ele inclinou-se numa vnia. Lentamente...
     A duquesa quase sussurrava de prazer.
     -  para mim um prazer apresentar-lhe a menina Julianna Sterling. Julianna, permite-me que te apresente o visconde Granville.
     Gradualmente, Julianna levantou a mo. Era impossvel olhar para o peito dele. O caminho que o seu olhar percorreu levava-a at ao cu, que foi exactamente 
onde encontrou o queixo dele. Quase com desespero olhou o rosto dele.
     Que o cu a ajudasse, era real. Ali estava ele.
     Era Dane
     
     
Captulo 14
     Teria sido impossvel dizer qual dos dois estava mais surpreendido. Se Dane... ou Julianna. Visconde... visconde!
     As palavras pareciam latejar no ar. Era como se a lngua se tivesse colado no fundo da boca. Falar estava fora das suas possibilidades.
     Ele estava impecavelmente vestido de gala. Jaqueta preta, casaco bordado com fio de seda cinzento e calas bem engomadas. Completavam o conjunto os sapatos 
e uma gravata branca que contrastava com a sua barba morena. Magnfico, com aquele ar de autoridade que nunca o abandonava. Tinha cortado o cabelo e, apesar da sua 
vestimenta formal, mantinha aquela selvagem vitalidade capaz de lhe tirar a respirao.
     Como no podia deixar de ser, deleitou-se quase com maldade ao ver a expresso de surpresa no rosto dele. Foi Julianna a primeira a recuperar e a oferecer a 
mo para a apresentao.
     - Senhor. Como disse que se chamava? Visconde... - fez uma pausa infinita, - Granville?
     -  verdade, menina. Garanto-lhe que  um prazer.
     Julianna apertou os dentes. Podia pensar em muitos eptetos, nenhum deles ouvidos naqueles sales.
     - Para mim tambm, senhor.
     Uns dedos fortes tinham apanhado os dela. Inclinou-se sobre a mo enluvada. Ao erguer-se, os olhos encontraram-se.
     - Vai ter de me perdoar... mas com este rudo, tambm no consegui ouvir o seu nome.
     Perdoar-lhe? No, nunca. O canalha, quase parecia aproveitar-se dela!
     Uniu-se quele sorriso irnico.
     - Sterling, senhor. Julianna Clare Sterling.
     A presso na sua mo aumentou subtilmente. Ela tentou soltar-se, mas Dane retinha-a possessivo.
     E agora tinha encontrado forma de se vingar.
     - Diga-me... - um sorriso apareceu nos seus lbios - voc tem, por acaso, alguma relao com Sebastian Sterling, o marqus de Thurston?
     - Intima, senhor;  meu irmo.
     - Esplndido!
     No entanto, os olhos dele diziam-lhe outra coisa. Os msicos tinham voltado a ocupar os seus lugares.
     - Conceder-me-ia esta dana, menina? - No lhe deu tempo para dizer que no. Agarrou-a pelo cotovelo e inclinou-se para se despedir da duquesa. - Perdoa-nos, 
duquesa?
     - Claro, querido! Nem era necessrio!
     A duquesa irradiava felicidade quando ele a conduziu  pista de dana.
     A surpresa era o que mantinha Julianna de p. S o orgulho a impedia de comear a chorar. Se ele no a segurasse pelo brao, teria desmaiado ali mesmo.
     Sabia que alguma coisa no se enquadrava. Sabia que lhe escapava alguma coisa. Os seus modos, a forma de falar, o ar culto. Uma parte dela estava satisfeita. 
A outra parte estava assustada.
     Porque  que ele estava ali? Como se atrevia a que o descobrissem? Se algum descobrisse que era o Urraca...
     Alguma coisa dentro dela estava prestes a despedaar-se. Quem era? Ela realmente ele? Quem era o verdadeiro Dane? O adorvel bandido? O elegante visconde?
     Dane inclinou ligeiramente a cabea e roou-lhe a face com a barba. Todo o corpo dela ficou tenso.
     Ele segurou-a com fora.
     - Tem calma - murmurou ele. - Sossega.
     Isso era o que ela queria. Ah, era fcil diz-lo! O cheiro dele era embriagante. Era-lhe to familiar como o dela prpria. Fazia-a sentir to bem! O calor do 
corpo dele junto ao seu no final da noite, o comprimento do seu corpo, protector, a forma como as suas costas se moldava a ele. Todas aquelas recordaes... e muito 
mais.
     Mas na verdade, no era seno um estranho, no  verdade?
     No sabia. Pelo amor de Deus, no sabia!
     Moveu a cabea ao ver que a olhava com um sorriso sarcstico nos lbios.
     - Porque sorris assim? Porque me olhas dessa forma?
     - Acho que sabes, querida.
     Julianna ficou tensa.
     - Quem s tu? Quem s?
     Ele abanou a cabea.
     - No faas isso - murmurou ele, - no aqui. - Apesar da sua tranquilidade, havia um tom de exigncia na sua voz.
     - Diz-me. Diz-me agora.
     - Julianna...
     - Farei um escndalo.
     Ele esticou o queixo. Queimou-a com os olhos, mas ela no parecia querer voltar atrs. Com os lbios apertados, tirou-a da pista e levou-a at  varanda guiando-a 
por uma vereda que conduzia ao jardim.
     Finalmente deteve-se entre duas esttuas de pedra. O inebriante perfume a lrios enchia tudo. Julianna sem se apercebeu disso.  luz da lua, a expresso dele 
era indecifrvel.
     - s um canalha - foi a primeira coisa que lhe veio  mente.
     Os olhos dele brilharam.
     - No acredito - disse ele amavelmente.
     Estava prestes a perder a compustura. Julianna ia desmaiar de um momento para o outro.
     - No brinques comigo. No te rias de mim!
     Dane deixou de sorrir.
     - Dane. Dane!  esse o teu nome, no?
     - Sim.
     - E s visconde de Granville? Deves ser, porque a duquesa parecia conhecer-te bem.
     - Sou.
     -  tudo o que tens a dizer?
      Ele limitou-se a olhar para ela.
     - Diz-me, Dane, ou juro que...
     - Baixa a voz! Diabo, Julianna, ests nervosa.
     - No estou nervosa, estou indignada. Mentiste-me. - Acusou-o
     Uma vez mais, aquele silncio brutal. Julianna perdeu o controlo. Levantou a mo e estampou-a no rosto dele com uma bofetada.
     Ele ficou ali de p. Algo a queimava por dentro. Te-lo-ia esbofeteado outra vez, mas ao voltar a levantar a mo, uns dedos fortes detiveram-na.
     Dane estava to indigando quanto ela.
     - Tenho de te lembrar que tu tambm me enganaste, menina Julianna Clare? Disse-te que j te tinha visto antes... Deus, a irm de um marqus. Se tivesse sabido, 
ter-te-ia levado imediatamente para Londres. Acredita, nunca te teria posto uma mo em cima.
     - Tinha medo, Dane! No sabia o que me podias fazer se soubesses quem eu era. E depois, parecia no importar. Nunca pensei que nos voltssemos a ver. Alm disso, 
no era como se tu... se ns...
     Calou-se ao ver como olhava para ela.
     - Acredita, amor, se os teus irmos soubessem o que fizemos, tenho a certeza de que gostariam de me fechar numa cela da priso de Newgate.
     Ah! - Gritou ela amargamente. - Importa realmente quem  o meu irmo? No precisas que ningum te leve para Newgate; tu sozinho ests a ganhar o calabouo.
     Dane sorriu levemente.
     - No, se puder evitar.
     Quanta arrogncia!
     - Solta-me, Dane.
     - No, at me dares a certeza de que ficars em silncio.
     - Bom, s h uma maneira de teres a certeza, no achas?
     Ele franziu a testa.
     - Devia ter seguido o meu instinto. Sabia que no devia ter vindo aqui esta noite!
     Julianna conteve a respirao. Os olhos dela estavam ao nvel do peito dele. Ao nvel do seu corao. Deus, pensou ela, se nem sequer tinha corao, como poderia 
mergulhar o dela nas profundezas do inferno?
     Ele soltou-a.
     - Desculpa. - Murmurou ele. - No devia ter dito aquilo. - Parecia hesitar. - Julianna, por favor, peo-te que confies em mim.
     Que confiasse nele. Confiar nele! Estava quase a chorar. O que era aquilo, uma brincadeira? Estava a brincar com ela. Brincava com ela quando era um cavalheiro. 
Brincava com ela quando era um bandido. Encolheu-se-lhe o corao. Tambm brincava com ela quando faziam amor?
     Fosse como fosse, tinha de saber a verdade. No o aceitaria s cegas.
     Levantou a cabea.
     - Talvez sejas tu que tenha de confiar em mim - disse ela levemente.
     - O que queres dizer?
     - Apenas isso. Temos de falar, senhor.
     Ele apertou a boca. No conseguiu esconder a tenso no seu olhar.
     - Ah, sim?
     - s um mestre a desaparecer entre as sombras, Dane. Mas no esta noite. No agora, porque gritarei. Gritarei agora mesmo. E depois direi a todos, a todos, 
que s o Urraca.
     Ele revirou os olhos.
     - O que te faz pensar que no te chamarei mentirosa diante de todos?
     Julianna endireitou-se.
     - Fa-lo-s? Eu creio que no.
     Dane no conseguia acreditar. Olhou para os seus olhos azuis, admirado pelo seu auto controlo apesar de nunca ter sentido tanta raiva at ento.
     - Vieste sozinha?
     - Sim.
     - Ento, permite-me que te acompanhe a casa.
     
     Sentada no rico sof de Borgonha da sua carruagem, Julianna baixou a cabea e fechou os olhos por um momento. Precisava de algum tempo para se recompor. Tinham 
acontecido tantas coisas nas ltimas semanas que levaria algum tempo a assimilar. Era muito difcil de acreditar. Teria imaginado? Era como se o tivesse invocado, 
como se o seu desejo se tivesse feito realidade, ou ainda era um sonho?
     No, ele continuava ali. E para sua grande frustrao, parecia muito tranquilo.
     Observava-a com os braos cruzados.
     - Ests melhor?
     - O que queres dizer?
     - Pensava que ias desmaiar. Depois pensei que sucumbirias  histeria.
     - Surpreendeste-te tanto quanto eu - acusou-o em voz baixa - e creio que ests a tentar provocar-me.
     Ele sorriu quase com preguia.
     - Talvez.
     A carruagem deu uma um solavanco ao dobrar uma esquina. De repente, tudo mudou. A lamparina da carruagem balanou, iluminando o rosto de Dane. Tinha os olhos 
cravados na boca dela.
     - Julianna - pronunciou o nome dela de uma forma que a fez tremer, - vem aqui.
     Julianna ficou sem flego.
     - No. No! - Nem a sua negativa nem o tom de voz eram plenamente convincentes do que devia ter sido. Cravou as unhas no colo, como se fosse a nica maneira 
de se manter afastada dele.
     - Ento, serei eu a aproximar-me. - Num nico movimento, levou o corpo dele para o banco junto do corpo dela.
     No fez nenhum movimento para lhe tocar, mas ela era consciente dos olhos que a observavam. Incapaz de se deter, levantou por sua vez o olhar. Tinha os lbios 
curvados num sorriso que era meio triste, meio terno.
     - No - gaguejou ela. No tinha possibilidade nenhuma de conseguir conter as emoes. - No olhes para mim dessa maneira.
     - Gatinha - disse ele. - Gatinha.
     Ele tinha os olhos cheios de lgrimas.
     - Desculpa... no deveria chamar-te assim. Mas no consigo evitar.
     De repente, ela sentiu as suas mos presas. Impaciente, tirou-lhe as luvas e comparou os dedos dele com os dela. Os dele eram duplamente compridos, to escuros 
como o resto da sua pele.
     - Tens as mos geladas - repreendeu-a. Roou a palma com a boca. - Vai correr tudo bem - sussurrou ele. - Eu sei que vai correr bem.
     - Pensava que no te voltaria a ver novamente. Pensava que nunca mais te voltaria a ver!
     De repente comeou a soluar. Era mais do que ele conseguia suportar. Os olhos dele escureceram.
     - Deus, no - gemeu ele. - No chores, gatinha. Por favor, no chores.
     Apertou-a entre os seus braos. Vencida, agarrou-se ao pescoo dele.
     - Dane - chorou. - Dane!
     Tinha a boca na curva do pescoo dele. Apenas um pequeno movimento... e a boca encontrou-se com a dele. No resistiu. No gritou. Porque o procurava com tanta 
fora...
     O abrao foi to intenso que lhe deu medo, o fim de semanas de restries. derreteram-se num beijo, sucumbiram ambos  urgncia frentica do desejo. Impacientes 
pelo tempo que tinham estado separados, entregues a um desespero que nenhum dos dois conseguia controlar.
     Com uma exclamao silnciosa, deitou-se no banco e colocou-a sobre ele.
     Julianna desfez com os dedos o confuso n da gravata. Ele observava-a com os olhos brilhantes enquanto percorria com um dedo a borda dos seus seios, num circulo 
lento que fez com que os mamilos respondessem generosamente. Era como se resplandecessem, ali onde o seu olhar se tinha centrado. No protestou quando a agarrou 
pela cintura e a atraiu para ele. Julianna soltou as mos, queria estar livre para tocar, to livre como ele estava.
     Porque ele acariciava a sua espinha dorsal, tocando-lhe da forma como ela tinha sonhado que o faria, quente contra o vale das suas coxas. Apoiou o peso do seu 
corpo contra o dele, entre as pernas, a sua vagina contra o sexo dele. O vestido que usava era to fino que no havia forma de ele esconder a protuberncia do seu 
desejo. O corao de Julianna saltou ao perceber a intimidade solta, senti-lo assim, duro e grosso, era-lhe insuportvel.
     Beijou aquele espao msculo onde acabava a mandbula e comeava a garganta.
     - Quero tocar-te - disse ela, fazendo mover a sua lngua sobre apele quente e salgada. - Quero...
     Ele parecia saber exactamente o que ela queria. Abriu violentamente as suas calas, libertando o membro do seu desejo. Julianna levantou a cabea, desejando 
ver a escurido oculta, fosse o que fosse. O que viu fez com que o seu corao batesse ainda mais depressa. Conseguia sentir a sua fome. Traou a linha do estmago, 
encantada com a rugosa textura do plo que se escapava pelos seus dedos. Continuou depois pela linha inferior da fenda do seu umbigo, deleitando-se com os msculos 
que se endureciam  sua passagem.
     E ento tocou-o.
     Quente. No sabia que a pele podia ser to quente, quente como uma marca de fogo. Afastou a mo por um segundo, como se estivesse a queimar-se.
     Depois tocou-o de novo. Uma e outra vez, para ver como se endurecia a sua mandbula, a forma como brilhavam os seus olhos. Os murmrios encorajavam-na a continuar. 
Percorreu com a ponta dos dedos o comprimento do pnis, uma aventura cheia de perigos... mas no se rendeu, nem sequer quando descobriu a ponta do seu membro. Era 
como se o corao tivesse parado. Podia sentir a ponta suave e sedosa, mas dura como uma vara de ferro.
     - Dane - ouviu-se dizer, - s to... - no sabia como dizer. - s to...
     O som que ele emitiu foi o suficiente para que ela se calasse. Ele deslizou as mos por baixo das saias dela e tirou-lhe a roupa interior, agarrando depois 
as ndegas nuas. Embora estivesse escuro, os olhos dele brilhavam como o ouro. Julianna conseguia sentir o ao do seu membro, o calor que emanava por baixo das suas 
pernas.
     - Gatinha - disse ele roucamente. - Vem c, gatinha. - Estava a elev-la, conduzindo-a para que o acolhesse. Ela gemeu ao notar a cabea do seu membro a deslizar 
pela sua ardente gruta. Notou que o hmen se gasgava, mas ele manteve-a ali, sobre ele.
     A carruagem deu um solavanco ao fazer uma curva. Dane deixou de a segurar pelas ancas e Julianna agarrou-se aos ombros dele para no cair. O movimento fez com 
que ele entrasse nos abismos do prazer, at mesmo ao fundo.
     A expresso de Dane foi quase de dor, o rosto consternado.
     - Julianna - suspirou- . Ah, gatinha.
     Por um instante, ela olhou-o confusa. Doa mais do que tinha esperado. Ele era incrivelmente duro... ela parecia incrivelmente cheia dele. E no entanto, no 
que foi um segundo de loucura, pensou que aquilo no era possvel...
     Mas o seu corpo j estava a acomodar-se  posio, e a dor quente da sua entrada triunfal comeava a desaparecer. Sentiu como o seu corpo se dilatava para o 
aceitar, como se agarrava ao seu membro, como se fosse ali que sempre devia ter estado. A l roava-lhe o interior das suas pernas, mas tudo o que conseguia sentir 
era a ele... duro e imenso no seu interior. Enchendo como nunca o tinha feito. Como ningum voltaria a fazer.
     Ele voltou a segur-la nas ancas com as mos.
     - Gatinha - disse ele lentamente. - No consigo parar. No consigo.
     E ela tambm no o faria. Agarrou-o com fora nas pernas. Quase ferozmente. Cravou os calcanhares no banco e as palmas das mos na janela da carruagem.
     Sem palavras, moveu a cabea. Ahguma coisa aconteceu entre eles naquele momento. Os olhos deles eram brilhantes, quase como o ouro.
     Com um grunhido tapou-lhe a boca. E ela tapou a dele.
     Cada palmo do seu corpo.
     Movia-se por instinto, para cima e para baixo. Fechou os olhos com fora, guiando-se apenas por um instinto cego. Os dedos de Dane mergulharam na carne dela. 
As cordas vocais dele ficaram tensas ao acolh-la e mergulhar ainda mais dentro dela. Vezes seguidas, perdidos num desejo frentico e descontrolado. Agarrou-se ao 
cabelo dela, que era como uma cascata de madeixas e prolas que os envolvia aos dois, e aprisionou a boca dela com deleite selvagem. Depois ouviu-se a gritar contra 
os lbios dela, at que a respirao e a voz, o mundo inteiro, pareceram dividir-se e desfazer-se.
     
     
Captulo 15
     A respirao de Dane comeou a ser mais pausada. Levantou a cabea devagar ao perceber que a carruagem tinha parado... e ainda estava dentro dela! Julianna 
continuava deitada sobre ele, relaxada e confusa, rodeando-o com as pernas brancas e a cabea castanha ainda apoiada no seu peito. Uma viso muito ertica, pensou 
ele.
     Tinha perdido a cabea, o controlo. Amaldioou-se em silncio. A culpa era dele. Acabava de fazer amor com a menina Julianna Sterling no banco de uma carruagem, 
depois de lhe ter rasgado selvagemmente a roupa. No apenas isso: tinha utilizado todas as tcnicas patticas de um adoloscente ansioso que experimentava pela primeira 
vez o prazer de uma mulher. Sem delicadeza, sem nenhuma experiencia. E o pior de tudo, sem controlo! Nem sequer tinha dado tempo para a despir convenientemente... 
nem de se despir a ele prprio!
     Aquela no era maneira de o fazer com uma virgem. No era forma de tratar uma senhora.
     Mas j estava feito. No podia voltar atrs. No se podia solucionar o passado. E se fosse honesto consigo prprio - como costumava ser, - a verdade  que no 
queria voltar atrs.
     Tinha-a desejado desde o incio.
     Ainda a desejava.
     - J chegmos, amor.
     Levantou-a do peito. Uma pontada de remorso atravessou-lhe as costas. Baixou-lhe as saias e olhou em direco  casa dela, uma vivenda de tijolos vermelhos.
     Dane, porque sorris assim?
     Ele moveu a cabea.
     - No vais acreditar nisto, querida.
     - Claro que no, principalmente se no me disseres.
     Ele riu-se, rodeando-a com os braos.
     - Vivo do outro lado da praa. - Disse despreocupadamente.
     - No  possvel.
     -  verdade. A casa que est diante da praa, a da entrada de pedra.
     - Ai, adoro aquela casa! Queria compr-la, mas era mais cara do que podia permitir-me.
     Ele riu-se.
     -  igualmente  bonita por dentro.
     O condutor abriu a porta e ofereceu uma mo a Julianna. Dane saltou da carruagem atrs dela.
     Julianna tentava desesperadamente arranjar o cabelo. Dane rodeou-lhe a cintura com o brao.
     - Aborrecida?
     Ele roou com a boca os cabelos dela e inalou profundamente. Tinha reparado no seu esgar de dor ao descer da carruagem.
     Julianna admirou-se.
     - No!
     - Mentirosa - desafiou-a. 
     - Permite-me. - Pegou-a nos braos e caminhou com passos longos at  casa. A empregada estava  porta, esperando com a porta aberta. Dane entrou como se tivesse 
todo o direito de o fazer.
     A recuperao da mulher foi admirvel. Ao ver a sua patroa nos braos, assinalou as escadas.
     - A ultima porta  sua direita, senhor.
     Dane elevou uma sobrancelha para Julianna.
     - A tua empregada  a mais intuitiva das mulheres - afirmou ele. - Gosto dela.
     - Tu... nem sequer a conheces - respondeu Julianna.
     - Nem a ti, j que fomos formalmente apresentados hoje - recordou-lhe. - Embora deva dizer que a nossa relao progrediu maravilhosamente, no achas?
     - Voc  um desavergonhado, senhor.
     - J no.
     O fogo ardia lentamente na lareira do quarto. Tirou a almofada de desenhos castanhos e dourados e colocou-a ao lado da cama. Depois dobrou o seu casaco e colocou-o 
aos ps da cama. Julianna viu como arregaava as mangas e deixava a nu os fortes e musculosos antebraos. Ficou a observ-lo, enquanto lhe tirava cuidadosamente 
o vestido, as meias e os sapatos. No lavatrio havia uma jarra com gua quente. Verteu um pouco de gua numa tigela e voltou para junto dela com um pano na outra 
mo.
     - Deita-te - disse-lhe, dando-lhe suavemente uma palmadinha no ombro.
     Julianna deixou-se cair cobre os cotovelos.
     - O que vais fazer? - Perguntou-lhe delicadamente.
     - Cala-te - pressionou o pano na parte interior das suas pernas, refrescando a sua carne dorida. Olhou para a cara dela. - Ests bem?
     Ela ps as mos na cabela.
     - Sim - disse baixinho, - porque no havia de estar?
     Ele riu-se.
     - Querida - disse ele divertido. - Queres mesmo que eu responda a isso?
     Um rubor escarlate cobriu as faces dela. Dane limpou os restos da sua intromisso. Depois deixou o pano na tigela.
     Ela tremeu ligeiramente.
     - Tens frio? - Perguntou Dane.
     - Um pouco.
     - Ento, deixa que te aquea. - Tirou as calas... e subiu  cama.
     Ela respirou profundamente.
     - Dane.
     - Minha pequena gatinha teimosa.
     O corpo dele eclipsou por completo o corpo dela. Inclinou a cabea e beijou-a, deslizando a boca pela parte inferior da nuca. Deus, sabia a gloria. A limes 
e a doces. Fazia o seu membro tremer. Senti-la fazia-o perder o juzo. Queria mergulhar nela uma vez mais, sentir o seu corpo ao redor do membro uma e outra vez.
     - Pra - disse ela nervosa. - No consigo pensar quando fazes isso.
     - A tua cabea est ocupada demais para pensar, gatinha.
     - E as tuas mos esto ocupadas demais comigo!
     No conseguiu reprimir uma gargalhada.
     - No vou negar uma coisa dessas!
     Retirou a mo que tinha sobre o seu peito.
     - Ests a tentar enganar-me, no? Achas que me podes armar uma cilada?
     - Parece que no - disse ele laconicamente. Esticou-se junto dela, colocando-se de lado, apoiado num cotovelo. Ela agarrou no lenol e tapou-se com ele.
     - Tens muitas coisas para me explicar, Dane. Ests a prolongar o inevitvel.
     Ele deixou escapar um sorriso.
     - Suponho que quanto mais depressa te contar, mais depressa podemos continuar a... satisfazer os nossos desejos.
     Ela no deu importancia  sugesto.
     - Isto  srio, portanto no me tentes enganar - disse ela de uma forma clara e precisa. O seu queixo ergueu-se orgulhoso olhando para ele.
     De repente ele revirou os olhos.
     - No dia em que parti... a propriedade pela qual passmos para ir para a pousada,  tua?
     Ele traou com a ponta do dedo o contorno do seu rosto.
     -  verdade, gatinha. Sim,  propriedade da famlia.
     - E a cabana onde estivemos? Tambm  tua?
     -  uma cabana de caa. Usada pela minha famlia h anos.
     - A tua famlia - repetiu ela. - Ento  verdade que tens duas irms.
     - Tenho. Daniela  dois anos mais velha do que eu. Delphine, trs. Ambas tm trs filhos.
     - E os teus pais?
     - Faleceram h cinco anos, a minha me um ms depois do meu pai. - sorriu levemente. - Acho que foi melhor assim. Teria sido muito duro para qualquer um deles 
viver sem o outro.
     Os olhos dela tornaram-se de um azul de tempestade.
     - Porqu, Dane? Porque  que um homem como tu cavalga como o Urraca? Que razo pode haver?
     - Uma razo muito boa. - Esperou um bocado antes de responder. A dvida angustiou-a. 
     Ela saltou sobre ele.
     - Vs? Eu sabia!
     Sabia que no se podia escapar das perguntas dela.
     - Julianna - murmurou ele, - e se te disse que  tudo uma armadilha?
     Ela fez um gesto impaciente.
     - Tenho conscincia disso.
     - E se te disser que era... necessrio?
     - Necessrio? Necessrio para que tenhas que recorrer ao roubo? - Era obvio que lhe doa dizer aquilo. - Porqu? s um jogador? Ests assim to necessitado 
que tens de roubar?
     Ele deixou escapar uma gargalhada.
     - Absolutamente.
     - Ento, o que ? Uma brincadeira? Um desafio? Roubaste prata, ouro, jias...
     - No sejas to dramtica! O que roubei foi apenas o suficiente para manter as aparncias.
     - As aparncias! Meu Deus, Dane, at te atreveste a roubar o secretrio do primeiro-ministro. Foi o incio da tua carreira meterica como bandido, no  verdade?
     - No, Julianna.
     - Claro que sim! Li a notcia no jornal...
     - Pormenores que exageraram bastante, garanto-te.
     Ela ironizou.
     - Evidentemente, no escondeste o saque que tinhas na cabana. Na verdade, ostentaste o seu valor.
     - Ah, aquelas sacas da cabana.
     - Sim, aquelas mesmas.
     - No nego que as roubei, Julianna.
     Ela emitiu um grunhido.
     - Gatinha, o que se passa? Queres que seja culpado ou no?
     - Claro que no.
     - Ento, deixa que te conte o que havia naquelas sacas - disse ele docemente.
     - Eu sei o que havia dentro delas!
     - Achas que sabes - contradisse-a, e depois deteve-se. - Julianna - disse sauvemente, - as notas daquelas sacas no so verdadeiras.
     Ela olhou para ele atnita
     - O qu?
     - So falsas, amor. So falsificadas.
     - Falsificadas - repetiu ela. No percebia nada. Olhou para ele boqueaberta. - Como  que tu podes saber, Dane? Como?
     - A verdade, Julianna,  que nem sequer devamos estar a falar disto. Arrisco demais em te dizer, arrisco tanto a tua segurana como a minha. Mas j te envolveste 
nisto sem querer. E visto que as circunstancias no favorecem que saibas a verdade, no posso, nem quero, esconder-ta por mais tempo.
     Alguma coisa mudou na expresso dela.
     - Ai, senhor!
     - Recebi esta misso depois de Waterloo, querida. Tinha tanto medo de morrer! Cada vez que pensava naquele campo cheio de sangue, tinha suores frios. Como podia 
continuar a ser soldado quando era to fraco? Sentia-me... menos que um homem, sentia-me um cobarde! Aqueles homens de Waterloo... era como se os tivesse abandonado, 
como se lhes tivesse voltado as costas. s vezes sentia como se tivesse trado o meu pas. Mas no podia deixar que o medo me consumisse. No podia! Percebi que 
a melhor maneira de vencer o medo era enfrentando-me com ele, sem me esconder. E assim foi. Para mim foi a nica forma. Ento descobri que havia outra maneira de 
servir... que se podia lutar contra o inimigo no nosso prprio pas. Surgiu uma misso e um oficial superior aproximou-se de mim. Durante a guerra tinha assumido 
uma falsa identidade e possua um documento que era muito valioso para os meus superiores. Eles pensaram que tinha conhecimentos que lhes podiam ser muito teis 
para certos assuntos... e o meu ttulo dava-me acesso a crculos que de outra maneira eram impenetrveis.
     Julianna tocava nervosa no prprio cabelo com os dedos. Se se tivessem encontrado noutras circunstancias, ter-se-ia rido da sua expresso.
     Olhou para ela.
     - Gatinha - disse amavelmente, - entendes o que te estou a dizer?
     Ela manteve aquele olhar atnito.
     - Meu deus - disse ela quase aturdida, - s um espio.
     
     
     Julianna sentia-se como se um vendaval lhe tivesse acertado no rosto. A cabea girava. Agentes. Militares de alto risco. Identidades falsas. Tudo soava misteriosamente 
negro.
     - s um espio - disse ela novamente, como se quisesse convencer-se. Ouvia a voz dele como atravs de uma nuvem... a e sua tambm.
     - Confesso, nunca gostei desse adjectivo. Contem demasiadas conotaes negativas. "Agente secreto" soa muito melhor.
     Claro que, no tinha inteno de discutir aquele assunto. Sentou-se, metendo a colcha debaixo dos seus braos e retrocedendo para se apoiar nos almofades. 
O corao batia-lhe to depressa que parecia que ia sair do peito.
     Deixou cair a cabea sobre os joelhos e abraou-se com as mos. Sabia que alguma coisa esquisita acontecia com ele. No sabia o qu, mas sabia que lhe escapava 
algo. No entanto, nunca teria imaginado que fosse um espio. Encheu os pulmes de ar e olhou para ele. Ele tambm se tinha sentado na cama. Observava-a intensamente, 
esperando a reaco dela.
     A surpresa comeou a diminuir e foi substituda pelo desagrado.
     - Obviamente, nunca poderia ser uma boa espia, desculpa, quis dizer "agente", porque ainda no sei a razo porque roubaste aquele dinheiro falso. E dizes que 
o Urraca  apenas uma armadilha. Como? Porque...?
     Dane levantou a mo.
     - Uma coisa de cada vez, amor. Uma coisa de cada vez. - Deteve-se. - H uns meses, uma mulher chamada Boswell foi ao gabinete do primeiro-ministro com uma revelao 
inquietante acerca de um negcio de falsificao de moeda.
     Julianna dilatou os olhos.
     - Falsificao?
     - Sim. Sempre existiu, gatinha. Moedas que no pesam o suficiente, que at se pintam... agora, um bom cinzelador com a ferramenta adequada fazem todo o trabalho. 
Uma prancha e uma prensa  tudo quanto  necessrio.
     Ele continuou.
     - O marido da senhora Boswell conhecia perfeitamente este crime. Depois de sair da priso, a senhora Boswell disse-nos que o seu marido recebeu a misso de 
fazer uso dos seus conhecimentos, em exigncia de algum do Ministrio do Interior. A misso teria sido descoberta imediatamente, excepto por uma coisa.
     - O qu?
     - Um dia depois, a senhora Boswell e o marido foram assassinados - disse ele tranquilamente, - atropelados pela rodas de uma carruagem, enquanto cruzavam a 
rua, uma noite. Nunca conseguimos descobrir o condutor.
     Julianna devia ter estado preparada, mas no estava.
     - Disseste que era um...
     - Assassinato, no um acidente.
     Ela comeou a tremer.
     - Sem duvida - disse ela lentamente. - O que aconteceu a seguir?
     - Outro agente, o meu amigo Phillip, e eu fomos escolhidos para investigar o caso. Como podes imaginar, o escndalo seria enorme se se descobrisse que o Ministrio 
do Interior estava por trs de um delito semelhante. A discrio  primordial, por isso  que no dissemos a ningum, nem sequer aos nossos superiores. A senhora 
Boswell ouviu o culpado dizer ao seu marido Daniel que o dinheiro seria enviado a partir de Londres. Primeiro para Bath, de onde seria, sem duvida, distribudo por 
algum.
     - Mas primeiro tinhas que descobrir se era verdade.
     - Sim. No podamos revelar o desenvolvimento da nossa investigao porque corramos o risco de que chegasse aos ouvidos do homem responsvel. Por isso coloquei 
uma mscara e fiz-me passar por um ladro de estradas. E assim encontrei o que procurvamos.
     - As notas falsificadas - disse Julianna lentamente.
     Ele concordou.
     - Mas havia outro problema. Se o culpado descobria que estava sob suspeita, poderia deixar de fazer os envios e nunca chegaramos a conhecer a sua identidade. 
Tnhamos, portanto, que entrar no jogo dele. Dessa forma, escolhi continuar com o meu disfarce de bandido para o fazer sair da toca.
     Julianna abanava a cabea.
     - Ests a armar-lhe uma cilada? Queres obrig-lo a sair do seu esconderijo?
     - Exacto. Se apenas interceptasse os seus envios, a seguir perceberia a estratgia. Ele deve acreditar que os roubos se realizam por acaso, que no correspondem 
a um objectivo concreto. No se atrever a enviar os seus homens para apanhar o Urraca. No pode arriscar-se a atrair demasiada ateno, porque correria o risco 
de se descobrir a ele prprio. Devemos ser mais espertos do que ele, fazer com que saia do seu esconderijo. Se o aborrecermos, acabar por cometer uma falha.
     Os olhos dela abriram-se, surpreendidos.
     - Queres que v ele? - Perguntou ela. - Queres que ele v atrs de ti?
     Ele concordou.
     Julianna sentiu como se lhe gelavam os dedos das mos.
     - Dane - ouviu-se dizer, - tens alguma ideia de quem  esse homem?
     - Ainda no. Mas saberemos. No tenho duvida.
     - Custe o que custar, no ? Ainda que te custe a vida? - de repente doa-lhe o estmago. - Todos os jornais falam das tuas aparies. Estiveram a falar de 
ti esta noite no baile. Ests a arriscar o teu pescoo! E no sei se sabes que duplicaram o valor do prmio.
     Ele ergueu as sobrancelhas.
     -  verdade.
     Julianna perdeu a calma.
     - A coroa proteger-te- se te apanharem a quilmetros de distncia de Londres? Ningum sabe quem realmente s! Pensaro que s um criminoso, um ladro! Vo 
disparar sobre ti.
     - Ah, vamos. No pela segunda vez.
     O descaramento dele era insuportvel.
     - No tem piada!
     Ela levantou-se da cama. Dane agarrou-a, rodeando-lhe a cintura com o brao.
     - Eu sei, eu sei. No devia brincar com isso. - Inclinou-se sobre ela. -  um risco que tenho de correr.
     - E se te apanham? Se te descobrem? Tenho medo por ti. - E era verdade. Aterrava-a poder perd-lo outra vez.
     - No o faro. Gatinha, olha para mim.
     Os olhos encontraram-se. Apertou a mo dela e levou-a  boca para a beijar antes de a colocar no seu ombro.
     - Envolve-me com os teus braos, amor.
     Os dedos dela capturram a carne quente e sedosa das costas dele, sem saber muito bem se queria abra-lo com fora ou afast-lo do seu lado.
     Dane no permitiu tanta indciso. Rodeou o pescoo dela com a mo e beijou-a at que a respirao a magoou na garganta e no ter mais ar no mundo com o qual 
continuar a viver. At que o calor que lhe ia subindo pelo estmago apagou tudo excepto o desejo que corria pelas suas veias.
     Levemente, mergulhou nas almofadas. Ele seguiu-a, deixando cair o seu corpo sobre o dela.
     - Julianna - murmurou ele, com a mo aberta sobre a sua perna. - Tenho de saber, gatinha. Ests arrependida do que aconteceu esta noite?
     O corao dela saltou. Negou com a cabea.
     Os lbios de ambos encontraram-se a menos de um suspiro de distncia.
     - Tens a certeza? No foi por causa do Thomas? Ou porque quiseste saber como era...?
     - No - ouviu-a dizer.
     - Para me dar prazer, ento? Para...
     - Nada disso. - O corao dela saltava no peito. Roou com a ponta dos dedos o suave cabelo da nuca dele. - Tu ests arrependido?
     - Apenas por ter sido rpido demais.
     - Rpido? - repetiu ela.
     Dane gemeu.
     - Deixa que te mostre. - Retirou os lenis. Lentamente, aprisionou-lhe os joelhos entre os dele. Colocou-se em cima dela, ofegante.
     - Ter-te perto de mim estimula um efeito imediato em mim, gatinha.
     Ela baixou os olhos at ao vulto, e abriram-se de surpresa.
     - Sim, -  disse ela a tremer, - j vi. - E engoliu a saliva. - S passou meia hora.
     A gargalhada dele ressou no peito dela.
     - Concordo contigo, gatinha.  muito, demasiado tempo.
     
     
     Muito mais tarde, Julianna entregou-se ao mais reparador dos sonhos.
     - Julianna - ouviu uma voz masculina que sussurrava no seu ouvido.
     Suspirando, moveu-se a pestanejar. Tinha dormido profundamente, e no precisava de se perguntar porqu. Viu que Dane j estava completamente vestido.
     - Tenho de ir, amor. - Levantou-a da cama e deu-lhe um robe de seda que estava pendurado num dos postes da cama.
     Desceram as escadas juntos. Dane teve de se rir ao v-la bocejar na porta de entrada.
     - O que foi? - Grunhiu ela. - Tu ests habituado estar acordado a estas horas, mas eu no.
     -  verdade.
     Ela inclinou a cabea.
     Porque sorris dessa forma?
     - De que forma? - Ele acariciou com a mo uma das suas madeixas.
     - Como se soubesses alguma coisa que eu no sei.
     Ele tocou-lhe a ponta do nariz com a mo.
     - Ests a imaginar coisas - disse ele alegremente.
     - Ah, sim?
     - Sim.
     Nas traseiras da casa ouviu-se o som de uma porta. Julianna mordeu o lbio.
     - Dane, tens de te apressar. Os meus empregados esto a levantar-se.
     - O meu tambm. - Com as mos quentes, atraiu-a para si e mostrou-lhe a evidencias das suas palavras, afastando-a depois da porta.
     - Dane, tens que ir embora!
     - No me posso ir embora sem que me beijes com esses lbios maravilhosos!
     - Dane, s o maior descarado...
     Com a boca silnciou as palavras dela. Continuava a gemer e a tiritar quando ele fechou a boca sobre a dela, num longo e embriagante beijo. Aturdida, sentiu 
como os seus ps descalos deslizavam desde a parte superior das suas botas at ao cho de mrmore.
     Ao abrir os olhos, a porta j estava aberta. Julianna levantou a mo para afastar as cortinas da janela e poder v-lo uma ltima vez.
     Um som nas suas costas chamou a sua ateno.
     Quando quis voltar a ver pela janela, Dane j tinha desaparecido.
     
     
Captulo 16
     - Temos um visistante muito persistente, minha senhora.
     Julianna ergueu os olhos para ver qe a sua empregada descia as escadas.
     - Um visitante
     A senhora MacArthur estava de p no degrau superior, com a vassoura na mo.
     - Sim, tentei desfazer-me dele durante toda a amanh, mas parece determinado a ficar.
     Julianna seguiu a direco do dedo da sua empregada. Uns hesitantes olhos verdes brilhavam  luz do sol.
     Era Maximilian.
     De um salto, aproximou-se e enrolou-se nos tornozelos dela.
     A senhora MacArthur no conseguiu deixar de abrir a boca.
     - No posso acreditar! Esta estranha criatura no deixou que ningum se aproximasse. Pensei que estivesse com fome, mas recusou o leite que lhe dei. E agora 
age como se voc fosse a melhor amiga dele.
     Julianna mordeu o lbio. Lembrou-se do que Dane lhe tinha dito sobre Maximilian e a sua exigncia com as pessoas.
     - Obrigado, senhora MacArthur. Eu cuido dele.
     - Muito bem, minha senhora.
     Julianna pegou nele ao colo. Maximilian esfregou rapidamente as patas contra o peito dela e a cabea contra o queixo. O miado ressou por todo o corpo. O bichano 
tinha as orelhas levantadas e Julianna no conseguiu deixar de se rir ao mergulhar o nariz no plo suave do seu pescoo.
     - Ah, Maximilian, senti a tua falta.
     - Sentiste a minha tambm?
     O corao de Julianna saltou. Conhecia aquele tom baixo e rouco. Conhecia muito bem.
     Dane estava de p diante dela, mesmo ao lado da pequena porta de ferro. Tinha um casaco azul com botes dourados e umas calas de cor creme que se ajustavam 
s pernas musculosas. De repente o ar ficou sufocante. Era ccomo se no conseguisse respirar. E quando falou, f-lo de maneira ofegante.
     - Ol
     - Ol - ele observava-a ansiosamente.
     - No devias deixar que Maximilian vagueasse por ai. Pode perder-se.
     - No anda perdido. Estava aqui quando me fui embora esta manh.  minha espera. Agora, suspeito que devia estar  tua espera.
     Nenhum dos dois se mexeu. Observavam-se com tanta intensidade que o mundo podia ter explodido que eles no dariam por isso... nem lhes teria importado. Olhou 
para a boca dela.
     E ela olhou para a dele.
      - Podes sair comigo? - ele tinha a garganta seca.
      - Onde? - Como se isso tivesse alguma importncia?
     - Dar um passeio.
     - Quando? - perguntou ela.
     - Esta tarde. - Algo iluminou os olhos dele. - Tenho de fazer ... uma coisa.
     - Ah, sobre...
     - Sim. Calou-a. -  uma?
     Ela concordou em silncio.
     - At logo ento. - Fez uma pequena vnia e saiu.
     Ela seguiu-o com o olhar at desaparecer na esquina. S ento percebeu que continuava com Maxmilian nos braos.
     
     Quando a campainha da porta tocou,  uma em ponto, Julianna teve que refrear o impulso de correr pelas escadas abaixo. Ouviu o som da porta a abrir-se e a saudao 
de boas vindas da senhora MacArthur.
     Apalpou as faces com as mos e deteve-se para no hesitar na entrada. "Ests a agir como uma criana!", repreendeu-se. E, no entanto, que Deus a ajudasse, mas 
ao ver Dane na entrada, sentiu-se com calor e exausta como se na realidade tivesse corrido pelas escadas.
     Uma vez na rua, conduziu-a  carruagem. Dane conduzia o veculo para longe da cideade, e Julianna no conseguia deixar de observar as suas mos vezes sem conta, 
to firmes com as rdeas. Tinha umas mos maravilhosas, com os dedos longos e finos, os pulsos largos e robustos, cobertos por um plo negro e brilhante. Ao recordar 
a forma em que aquelas mos lhe ticam tocado apenas umas horas antes, no conseguiu evitar senti-las no seu coprpo mais uma vez.
     Dane olhou para ela surpreendido.
     - O que se passa?
     - Nada. - No coraria como uma colegial. No o faria!
     Tinha-se sentido nervosa ao v-lo pelo primeira vez nessa manh. Mas ia ficando mais tranquila conforme o trajecto da caminho a ia empurrando para junto do 
corpo dele. No tentaria manter-se afastada. Estar com ele daquela maneira to ntima reconfortava-a.
     Detiveram-se, e ele elevou-a para a colocar no solo. Havia um trilho que saia do caminho principal e entrava num bosque de carvalhos e de olmos. As flores silvestres 
abraavam a terra aqui e ali. Os raios de sol faziam desenhos na erva, decorando o mundo de uma cor fresca e intensa. Dane tivera o cuidado de trazer uma manta e 
uma pequena cesta.
     - Fiquemos aqui.
     Colocou a cesta no cho e agarrou-a pela cintura para a apoiar no troco de uma rvore. Quando estava completamente apoiada beijou-a, num longo e fascinante 
beijo.
     - Dane - gemeu quando conseguiu libertar-se da boca dele, - ests a ter muitas liberdades, no achas?
     Ele inclinou a cabea para trs e deu uma gargalhada sonora.
     - Isto  um namoro? - Perguntou ela seduzindo-o.
     - Gostavas que fosse?
     Julianna mordeu o lbio. Um rubor furioso subiu s suas faces.
     - No sei - respondeu com sinceridade.
     Dane ficou em silncio, dando-lhe um longo e calmo olhar. Colocou-a ento sobre a manta e tirou o casaco. Depois comeou a tirar o po, o queijo e o vinho.
     Apreciaram o festim. Ao terminar, ele sentou-se com as costas apoiadas na rvore. Com uma perna dobrada, o olhar dele perdeu-se no meio das rvores. Um rio 
de sol surripiava uma linha do seu perfil, num jogo de sombras subtil. A curva da sua boca desenhava um sorriso malandro e torcido o que fez com que o corao dela 
tremesse. Tanto se transformasse o sorriso num esgar infantil ou se o reduzisse a uma linha fina, a boca dele conseguia sempre cativ-la.
     Era supreendente o efeito que gerava nela.
     Como se pudesse sentir o olhar dela, dane virou os olhos para ela. Colocando o copo de lado, agarrou-lhe uma mo. Julianna molhou os lbios enquanto ele fazia 
escorregar a sua lngua entre o dedo polegar e o indicador da mo dela.
     - Se estivssemos sozinhos, sabes o que faria contigo?
     - Acho que sei.
     O tom preguioso da voz dela f-lo rir. Ela devolveu-lhe o olhar perplexa.
     - Ests a sorrir daquela forma maneira novamente - disse.
     - De que forma? - Perguntou ele.
     - Da forma como sorrias ontem  noite.
     - Quando?
     - Quando tu... quando ns... depois de...
     - Depois de qu?
     - Ests a brincar comigo?
     - Claro que no, gartinha. Mas estou a sorrir. E isso  por... uma coisa que me ocorreu. - Brincava com os dedos dela. - Quando todo este assunto do Urraca 
acabar, creio que nos devamos casar.
     Julianna no acreditava que tivesse ouvido bem. Retirou a mo.
     - No acho piada nenhuma. - Respondeu-lhe.
     - Eu tambm no.
     - Dane. Porque te atreves a sugerir uma coisa dessas?
     Ele levantou as sobrancelhas.
     - Porqu? Preciso de te lembrar do que aconteceu ontem  noite? Roubei-te a virgindade.  a coisa mais honrada que posso fazer.
     Honra. Honra! Alguma coisa lhe encolhia o peito. Tinha sido a honra o que levara Thomas a casar com Clarice, pensou ligeiramente. Custara-lhe imenso esquecer-se 
da sensao de raiva e de desgosto, mas Thomas tinha feito o correcto ao no abandonar Clarice.
     Mas Julianna queria mais do que isso. Merecia mais do que isso.
     - O que est feito, feito est. No me roubaste nada, nada que eu no te quisesse dar! E,  evidente que, no penso casar contigo por um momento de loucura!
     - Loucura? Eu lembro-me de outra coisa.
     - Queres que seja sincera?
     Ele apertou a mandbula.
     - Por favor, sim - desafiou-a.
     - Sucumbimos os dois a... prazeres terrenos.
     - A qu? No estvamos a ser sinceros? Querida, no precisas de ser to delicada.
 luz do dia, tudo parecia ser diferente. De acordo, ele no era diferente. O vento despenteava o seu cabelo. A fina linha da sua boca tinha endurecido. No 
entanto, continuava a provocar-lhe a mesma sensao arrasadora de sempre.
     Julianna abriu a boca e fechou-a quase ao mesmo tempo. No esperava aquilo. Olhava para ele quese desesperada.
     - No posso negar a forma como nos atramos um ao outro, desde que nos conhecemos. Mas talvez seja derivado s circunstncias, o facto de termos encontrado 
num espao muito reduzido. Passmos demasiado tempo juntos. Sim, tenho a certeza de que foi por isso.
     - No convences nenhum de ns, gatinha. Ambos sabemos o que nos aconteceu. No foi por estarmos alterados. Amargurados, talvez, mas...
     - Tu prprio o disseste, Dane. Foi rpido. Ardente. Intenso.
     - Achas que foi apenas o desejo - disse ele categrico.
     - Sim, acho que sim! Algo lascivo e selvagem.
     - Lascivo! - disse ele contrariado.
     - Quando me casar, se alguma vez me casar - apontou ela, - ser apenas pelas razoes adequadas. No por um momento de loucura.
     Ela conseguia ler a espresso de desconfiana no rosto dele. Foi substituda pelo fogo, ardente e intenso. 
     - Ests a recusar-me?
     - Eu...  o que parece.
     Com uma maldio, ele levantou-se. Estava tonto. Julianna deparou-se de repente de p diante dele.
     - Posso at acreditar que me ests a tentar demonstrar alguma coisa.  porque no fui honesto?
     - No  por isso! - Ele dominava o espao, mas Julianna manteve-se em p.
     - Querida, se fosse ter com os teus irmos e lhes dissesse o perto que estivemos, lascivamente, tenho a certeza de que nos obrigariam a casar.
     - Evidentemente, pediriam, mas no poderiam obrigar-me a isso. Assim como tu no podes. Eu tomo as minhas prprias decises, Dane.
     - Ns vamos casar, Julianna.
     - O qu? Gritou ela.
     Ele colocou o rosto diante do dela.
     - Ns vamos casar, amor.
     Ela levantou o queixo.
     - Podes ter um ttulo. Deves estar habituado a dar ordens, mas a mim no me ds ordens.
     Ela viu-lhe os dentes brancos.
     - Gatinha - forou as palavras, - consegues ser encantadoramente teimosa.
     - Ah, deixa-me! Se no te tivesse visto no baile dos Farthingale, isto nunca teria acontecido. No terias falado em casamento. Os nossos caminhos no se tinham 
voltado a cruzar nunca mais.
     Ele atraiu-a para si.
     - J tinha comeado a fazer as minhas investigaes, menina Julianna Clare... uma tarefa que teria sido muito mais fcil se soubesse o teu verdadeiro nome.
     - Ah, no te atrevas a censurar-me! - Os olhos dela brilharam. No conseguia manter o olhar dele. - Quero ir para casa, Dane.
     - Julianna. - Agarrou-lhe o queixo e forou-a a olhar para ele. Ela olhou ento, com os olhos lacrimosos.
     Os lbios tremiam-lhe. Dane amaldioou-se a si prprio. Nenhum deles falou durante o caminho para a cidade.
     Quando finalmente chegaram a casa de Julianna, a escurido comeava a envolver tudo. Dane virou-se para ela.
     - Vou entrar - foi tudo quanto ele disse.
     - Por favor, no faas isso - disse ela, num fio de voz.
     Julianna sentia o olhar dele cravado nela, como se fossem mil pequenas agulhas.
     Ela levantou a cabea lentamente.
     - Ser melhor no nos voltarmos a ver.
     No sabia o que dizer at que disse aquilo. Sentou-se na ponta do banco da carruagem.
     De repente, sentiu a tenso a invadir cada poro da pele do homem que tinha ao lado.
     Ele no lhe tocou. Se o tivesse feito, pensou, no teria tido a coragem de se manter em silncio.
     - Julianna, ouve-me. Posso dar-te tudo o que desejas. Dar-te-ei as coisas que queres. Os filhos que tanto queres.
     O corpo dela tremia. E o corao. Ai, especialmente o corao!
     Tinha prometido a si prpria que nunca conheceria a paixo, o desejo de estar nos braos de um homem. Mas nos de Dane, tinha-o feito. Doa-lhe tanto. V-lo 
de novo... estar com ele. Sentia que estava bem.
     Ele sentia alguma coisa por ela. No fundo do corao, sabia. Sentira-o no terno abrao. No calor dos seus beijos.
     Mas tudo via tudo  roda! Estar com ele na cabana, a dolorosa forma em que tinha sentido a falta dele... fora uma estpida ao confiar em Thomas, nunca tinha 
imaginado que se encontrava com Clarice enquanto estiveram comprometidos.
     E talvez tivesse medo de ser enganada mais uma vez.
     Abanou a cabea. Evitou olhar para ele.
     - Por favor - comeou cuidadosamente. Mas de repente calou-se. Fixou o olhar num ponto ao longe.
     - O que foi? O que se passa?
     - Aquele homem do outro lado da rua. Est ali de p, Dane, creio que olha para ns.
     Com um ligeiro movimento, Dane baixou-se por baixo do banco para agarrar em alguma coisa. Ao levantar-se, Julianna viu o brilho do ao.
     O homem que estava do outro lado da rua tocou a ponta do chapu e afastou-se a caminhar.
     - Est tudo bem. Eu conheo-o.
     Dane guardou a pistola entre as suas calas. Deu a mo a Julianna e ajudou-a a descer.
     Ela pestanejou.
     - Meu Deus, tinhas uma pistola durante todo este tempo?
     - Sim.
     O homem tinha caminhado para a esquina e continuava ali de p.
     - Est  tua espera?
     - Sim.
     - Bom, ento  melhor que no o faas esperar.
     Era como se tivessem forjado em ferro o queixo dele.
     - Isto no acaba aqui, Julianna.
     - Eu digo que sim.
     Dane reprimiu uma maldio.
     - Eu voltarei, Julianna.
     - No, Dane, no. Por favor, no o faas. - Engoliu como pde a dor no seu peito. - Ser mais fcil para mim se no o fizeres.
     E afastou-se dele.
     
     Dane deixou-se cair na cadeira do caf onde tinha combinado encontrar-se com Phillip.
     O amigou observou-o curiosamente.
     - No ests de bom humor, pois no?
     Dane emitiu um grunhido e pediu um whisky.
     - Tem alguma coisa a ver com a tua pequena borboleta?
     Dane levantou as sobrancelhas.
     - Achas-te muito esperto, no? Posso ver porque fazes o que fazes, Phillip. Apenas queria que o pudesses fazer mais rpido para poder acabar com este assunto 
o quanto antes.
      Phillip riu-se. Depois suspirou.
     - A verdade, Dane,  que comeo a temer que nunca encontraremos o nosso homem. Est a ser muito complicado.
     Dane batia ritmicamente com os dedos na mesa.
     - Isso no  o que eu queria ouvir, Phillip.
     O seu amigo fez uma careta.
     - Eu sei. Mas estamos a fazer tudo o que est nas nossas mos. - Olhou para Dane. - Vais sair esta noite?
     - Parece que no tenho outro remdio, no ? - Dane agarrou no copo.
     Phillip observou-o curiosamente.
     - Ests bem?
     - No.
     Phillip viu como esvaziava o copo.
     - No te podes dar ao luxo de te descuidares - disse Phillip suavemente, - isso  peridoso.
     Dane virou a cabea. Os taces das suas botas ressoaram no cho de madeira ao levantar-se.
     - Trata dos teus assuntos. - No era normal que fosse to rude. - Eu trato dos meus.
     
     Era uma noite calma. O cu estava escuro e pesado, com as nuvens a cobrir a lua.
     Dane deu um olhar nervoso ao caminho. Debaixo dele, Percival resfolegava e calcando a terra e espalhando as folhas com o vento sbito. Com uma palavra, Dane 
tranquilizou o seu cavalo.
     Phillip tinha razo, decidiu com pesar. No tinha a cabea onde devia. No tinha a cabea nem o corao no trabalho, como devia.
     Diabos. Diabos.
     No queria estar ali. Queria estar em qualquer lugar menos ali.
     No, isso no era verdade. Queria estar com ela. Com Julianna.
     Quase desde o incio, anunciara a si prprio que no deixaria que o desejo o dominasse. At ento, a qualidade do seu trabalho tinha-lhe exigido manter o seu 
corao intacto. Mas e se o seu grande medo se transformasse em realidade? E se perdesse a vida? No seria justo para nenhuma mulher... pelo amor de Deus, no seria 
justo para Julianna! J tinha sofrido demais na sua vida.
     Mas o desejo tinha transformado em mais alguma coisa. No conseguiu evitar o que tinha contecido entre eles. Nem conseguia agora. E tambm no queria!
     Senhor, era tudo muito complicado! Em que tinha estado a pensar? Tinha confiado demais em si prprio. Como ela dissera: tinha sido arrogante demais! A sua virilidade 
negava-se a aceitar que tinha sido recusado.
     No, pensou tristemente, fora uma proposta muito decente.
     Talvez no o tivesse feito da forma mais adequada. Devia t-la namorado primeiro. Devia ter esperado.
     A voz dela era mais doce do que o sol a brilhar na escurido da noite. Pura. Cintilante e inocente. No era normal que tivesse sido impaciente?
     Mas que raio podia fazer agora? No deixaria que o abandonasse. No, no se ia desfazer dele to facilmente. No ia sair da sua vida assim.
     Pelo amor de Deus, iria falar com ela directamente.
 distncia, ouviu o som de uma carruagem. As orelhas de Percival tambm reconheceram o rudo. Dane colocou uma mo no seu pescoo, sentindo a tenso na pele 
do animal quando lhe tocou.
     Quando o veculo ficou  vista, o condutor comtemplou a viso imponente de uma besta negra imobilizada mesmo no meio do caminho, uma figura mascarada no lombo 
de um soberbo cavalo.
     O cocheiro puxou bruscamente as rdeas. O barrigudo condutor olhou para ele boqueaberto.
     - Mos para cima - ordenou o mascarado. Um homem de meia-idade colocou a cabea pela janela do compartimento.
     - O que se passa, homem. Porque  que parou? - Saltaram-lhe os olhos ao ver Dane de negro. -  ele, Jane. O Urraca.
     Houve um grito agudo no interior.
     - Tenha calma, minha senhora. - Dane olhou para dentro enquanto colocava um avultado saco ao ombro. - J tenho o que queria.
     Saltou de novo para a sela e agarrou as rdeas do animal. Um aperto das suas pernas e Percival afastou-se.
     Dane olhou para trs.
     Diabo! O cocheiro procurava alguma coisa por baixo da sua capa. Precisamente quando precebeu o que se passava, uma bala passou rente  sua orelha e arrebentou 
com a ponta de um ramo prximo da sua cabea.
      Phillip tinha razo. No se podia descuidar. Estivera perto demais para se sentir confortvel.
     
     A mulher levantou a ponta do seu vu. Roxbury estava ocupado, examinando com respeito a sua ltima pea, uma delicada caixa de madeira com incrustaes de ouro 
e merfim, maravilhosamente conservada. Relutantenmente, colocou-a de lado e olhou para a sua visitante.
     - Porque olha para mim dessa forma, minha senhora?
     - Interrogava-me pela pala que usa no olho - disse ela de repente. - Lembro-me que no a usava quando era jovem.
     - Minha senhora, e eu pergunto-me como  que se pode lembrar de mim. - Riu-se bruscamente.
     - O que  que aconteceu?
     - Uma ferida de quando servia na Marinha Real, na batalha do Nilo.
     - A batalha do Nilo! Devia ter imaginado! - Ergueu as sobrancelhas. - No barco de lord Nelson?
     - No. No de Culloden. Como se deve lembrar, os ingleses derrotaram os franceses.
     Ela ignorou a ironia.
     - Pensava que a vida militar o favorecia na perfeio.
     - Ele tocou na prpria pele.
     - Os meus comandantes no pensavam o mesmo. - O sorriso dele era tenso.
     - No sei se sabe que o Franois comea a ficar impaciente pela falta do ouro. No posso continuar a desculpas pela falta de dinheiro.
     Ele fingiu surpresa.
     - Como? Um homem que no consegue fazer danar na palma da sua mo?
     - Voc disse que o atraso se devia quele bandido... como  que se chama?
     - Urraca.
     - Sim, sim. O Urraca. Ele roubou-lhe o dinheiro. Mas um homem da sua posio... como  que adquiriu a sua fortuna? No foi por meios legais, estou errada?
     - Muito bem, minha senhora.
     - Como foi, ento?
     Um sorriso apareceu nos lbios dele.
     - J que est to empenhada, minha senhora, permita-me que lhe mostre como.
     Abriu o cofre do escritrio e colocou duas notas sobre a mesa.
     - Olhe bem para elas, minha senhora. Veja-as de perto.
     Ento ela percebeu. Respirou com dificuldade.
     - Quer dizer que...?
     -  verdade. Quase uma cpia perfeita, no acha? Penso que s um empregado do banco de Inglaterra conseguiria ver a diferena. Envio as notas a um homem que 
as distribui por toda a Inglaterra. Claro que, assim como o Franois, prefiro que me paguem em ouro. Mas, veja, a lei da economia prevalece. Sa no h produo, 
no h dinheiro. Se os meus contactos no recebem o envio, no obtenho benefcios. E o Urraca est a tornar tudo muito difcil. Pelo que lhe sugiro que encontre 
forma de acalmar o Franois, minha senhora, porque ainda no terminei consigo. H muitas pessoas que ficariam interessadas em saber que Armand no foi o seu nico 
marido... - a gargalhada dele foi estridente, - nem o primeiro.
     A mulher enfureceu-se.
     - Pode ser que lhe faa o favor, replicou ela, - mas isso no significa que goste.
     Roxbury riu-se tnuemente.
     - Acalme a sua aflio, minha senhora. Ora, eu sou um homem razovel. O que a faria feliz?
     - Voltar a Paris!
     - Tudo a seu tempo, minha senhora. Mas gostava de saber: o que a faz to infeliz?
     - Estou cansada de Londres. Cansada de Inglaterra. E estou cansada da minha criada!
     - No choramingue, minha senhora.  ineficaz. No entanto, gostava de a poder distrair. O que gostava de fazer? Uma noite no teatro? - Acendeu um cigarro, encostou-se 
para trs no seu assento e observou-a traves de uma nuvem de fumo. - Sim, vejo que gostava. Somos parecidos, voc e eu. Ambos sabemos como conseguir o que queremos, 
no acha?
     
      
Captulo 17
     Apesar de tudo, Julianna quase esperava que, na manh seguinte, Dane aparecesse  porta de entrada de sua casa. Mas no o fez, e quando nessa tarde saiu para 
dar um passeio por Hyde Park, descobriu porqu. O senhor e a senhora Harrison pararam a sua carruagem ao ver que Julianna se detinha para colocar o lao amarelo 
do seu chapu.
     - No devia andar sozinha, menina
     Julianna forou um sorriso.
     - Costumo andar sozinha, senhor Harrison - replicou ela.
     - Ah, pois tenha cuidado porque ontem  noite o Urraca foi visto apenas a uns quilmetros da cidade. Creio que aquele malandro se aventura a cada dia que passa.
     O corao de Julianna contraiu-se.
     - No  assim to perigoso - protestou Eugenia, a mulher do senhor Harrison.
     O marido olhou para ela em sinal de desaprovao.
     - E como  que sabes?
     Eugenia, que era bastante bisbilhoteira, bateu as palmas com um brilho de satisfao nos olhos.
     - Ouvi dizer que  muito... - de repente pareceu lembrar-se que falava com o marido.
     - Lindo? - terminou o marido.
     Eugenia mordeu o lbio.
     - Sim,  verdade.
     Uma dor agridoce percorreu Julianna. "Claro que  - afirmou em silncio, - claro que ."
     O senhor Harrison bufou.
     - Bom, lindo ou no,  apenas uma questo de tempo para que o apanhem. O cocheiro levava uma pistola escondida e quando o bandido ontem  noite se afastava 
a cavalo, esteve prestes a explodir-lhe a cabea.
     O corao de Julianna encolheu-se. Estava to assustada que no conseguia dizer nada. A raiva e o medo confrontavam-se no seu corao. A vida que Dane tinha 
escolhido era demasiado precria. Como  que podia desafiar assim o perigo, com aquela facilidade e despreocupao?
     No o percebia. Nunca o entenderia.
     Quando o senhor e a senhora Harrison lhe desejaram os bons dias e se afastaramno veculo deles, estava a tremer.
     
     No baile dos Farthingale, onde na outra noite tinha visto Dane, Julianna tinha concordado em ir ao teatro com a sua amiga Caroline e com o marido desta. Na 
realidade, no tinha vontade nenhuma de ir. Tinha passado grande parte da noite a chorar, e no tinha a certeza se conseguiria estar acordada e alegre para o convite.
     Era evidente que no queria dar muitas explicaes. Alm disso, o que poderia dizer? Tinha pensado em enviar um recado a Caroline dizendo-lhe que no ia, mas 
se ficassem em casa, sabia muito bem o que aconteceria. Acabaria por passar a noite a chorar outra vez.
     Colocou um vestido claro que alegrou o seu rosto e tentou esquecer-se de tudo ao entrar no teatro com os seus amigos.
     De todos os teatros de Londres, o Teatro Real era o seu preferido. O edifcio tinha-se queimado completamente em quatro ocasies. No conseguiu evitar recordar 
a ultima vez que acontecera, h seis anos atrs. Ela e os irmos tinham ido ver a estreia de Hamlet depois da ltima reabilitao.
     A noite passou mais depressa do que imaginara. Desejou as boas noites a Caroline e ao marido e saiu do magnfico edifcio. Ao parar na rua Russell, olhou melancolicamente 
a fila de carruagens,  procura da sua.
     A multido apinhava-se ao seu redor. De p como estava, um calafrio percorreu a parte de trs do seu pescoo. Virou ligeiramente a cabea.
     Esplendidamente vestido com casaco e botas pretas, um homem sobressaa no meio dos outros todos. Julianna quase deixou escapar um grito.
     Era embaraoso, como da outra vez em casa dos Farthingale. Havia alguma coisa deliberada na sua pose arrogante quando avanava. Ela virou-se, lutando contra 
uma nova sensao de pnico.
     Uns dedos quentes rodearam o seu brao.
     - Vais a algum lado, amor? - Foi um alegre murmrio.
     O corao batia-lhe com fora no peito. Julianna esforou-se por olhar para o rosto dele, tentando acalmar-se. Nos olhos dele havia uma fasca de rebeldia.
     - Como  que me encontraste?
     - A senhora MacArthur foi muito simptica comigo.
     - Entendo. Terei que ter falar com ela. Lamentavelmente, fizeste a viagem em vo. - Sentia-se orgulhosa do seu comportamento. - Ah, ali esto. Desculpa, com 
licena.
     Ele no a libertou. Em vez disso, acariciou com os dedos o interior do brao dela, onde terminavam as luvas. Uma pontada de desejo atravessou-a.
     - Tenho que ir, Dane.
     - pois tens. Comigo. - A voz dele era amvel, mas havia uma nota de firmeza nele. Tinha um esgar no seu sorriso que no encaixava.
     - No. Eu... estou  espera da minha amiga Caroline e do marido dela. vamos jantar...
     Ele negava com a cabea.
     Julianna apertou os lbios.
     - O que ? O qu?
     - s sem duvida a pior mentirosa que eu j conheci.
     - Vindo de si, senhor, devia considerar um elogio!
     Ele mantinha aquele sorriso incmodo... e era muito irritante. Cumprimentou algum e depois, voltou a olhar para ele.
     - No vou contigo, Dane.
     - Se no o fizeres, ver-me-ei obrigado a contar a todos sobre aquelas sardas maravilhosas que tens no fundo das costas.
     Ela olhou para ele aborrecida.
     - Dane, o que ests a fazer? 
     - Tu tambm me ameaaste em casa dos Farthingale, querida. No  agradvel, pois no?
     - No gosto de ordens.
     - Excepto quando s tu a d-las.
     Ela olhou para ele seriamente.
     - Chegaste tarde ao teatro - disse ela de repente. - Roubou o relgio a algum, senhor?
     Os olhos dele entrecerraram-se. Apertou os dedos levemente no brao dela, como em sinal de advertncia.
     - Julianna - comeou.
     - Sim, sim, eu sei. Tudo numa noite de trabalho, suponho.
     Dane no disse nada, limitou-se a observ-la.
     Julianna engoliu em seco.
     -  verdade o que aconteceu ontem  noite? Que algum...?
     - Sim. - Os lbios dele nem se mexeram.
     - E ests bem? - No conseguia evitar de lhe perguntar.
     - Claro.
     Calro. Claro! Maldio, pensou furiosa. Ele no era invencvel. Aquilo era muito prprio dos homens. Muito prprio dele! Como se tivesse que provar que o era.
     Nessa altura a carruagem parou ao seu lado, guardando o lugar na fila que lhe correspondia. George, o condutor, abriu-lhe a porta.
     - Menina? - Disse alegremente.
     Dane ajudou-a a subir e deu um salto para a seguir. Antes que pudesse protestar, tinha-se sentado junto a ela. Colocou a sua coxa junto  dela, muito mais forte 
e comprida do que a dela.
     Ele agarrou-a fortemente com os dedos.
     - Ests a fugir, Julianna. Mas no precisas de o fazer. No precisas de ter medo.
     Estava a fugir? Estaria?
     Depois de Thomas, tinha fugido directamente para o continente. Mas no queria fugir de Dane. O que queria era atirar-se nos braos dele, sentir as mos fortes 
nas costas, e conhecer o esplendor dos beijos dele.
     Fascinava-a ver o contorno das mos dele enredadas nas suas. Percebia com toda a clareza a sua fora, o seu poder e, no entanto, o seu contacto era suave e 
carinhoso.
     Elevou os olhos, directamente para os dele.
     - Porque  que ests aqui, Dane?
     Observou atentamente a expresso dele. Um medo sbito invadiu-a. Teria ele percebido? Teria sentido? importar-se-ia com ela? A expresso dele era to imvel 
que  lhe doa o estmago como se fosse derreter-se.
     - No consigo estar longe de ti, gatinha.
     - Isto  uma loucura - sussurrou ela.
     Nuna se tinha sentido to confusa! Sentir a alegria de ter o abrao dele... de t-lo entre os seus braos. o corpo doa-lhe. Ele tinha razo: tinha medo. Estava 
horrorizada! O que aconteceria se confiasse nele e no final a enganasse? A dor seria imensa. No entanto, como conseguiria negar o que sentia? Como podia negar-se 
a ele?
     Tinha-se convencido que tinha de o esquecer. Era impossvel... ele invadia cada espao da sua cabea. No conseguia deixar de pensar nele. No conseguia afast-lo 
da sua mente. Ah, como detestava aquele estpido orgulho!
     Respirou exasperada. A sua expresso atraioava-a. E o seu corao? Dane devia ter lido o seu desespero no rosto, porque parecia estar a despi-la com o olhar. 
Era to intenso, que tinha a certeza de que conseguia ler a sua mente. Ele via o que mais ningum conseguia ver. Via at o que ela no conseguia ver.
     - Dizes que nunca te casars, Julianna.  uma relao passageira que queres?
     - No! - gemeu ela.
     - Eu tambm no - disse ele. - Ento, o que queres?
     Doa-lhe tanto a garganta que no conseguia emitir um som.
     - No sei - sussurrou com a voz quebrada. - No sei!
     O olhar dele era quase acusador.
     - Ests a mentir, Julianna. Eu sei que gostas de mim.
     - E se for assim? No percebes? No quero que seja assim.
     Os olhos dele escureceram.
     - O que  que isso significa? Dormimos juntos, Julianna. Como homem e mulher. Como um marido e uma esposa deveriam dormir. Isso no  uma coisa que esteja disposto 
a ignorar, e tu tambm no o devias fazer.
     - Ah! No te atrevas a dar-me lies, Dane! No menti quando te disse que no me casaria por dever ou por obrigao, muito menos pela honra. A minha honra impede-me. 
Espero mais do casamento do que isso, Dane. Espero mais de um marido!
     Ele emitiu uma profunda exclamao de impacincia.
     - Julianna...
     Julianna tremia da cabea aos ps.
     - No  apenas isso! - Gritou ela. - No  apenas isso!
     Dane revirou os olhos.
     - Ento, o que ?
     Sem saber como conseguiu recuperar algum do seu controlo.
     - Disseste que me darias filhos e todas as coisas que eu desjava. Mas o que eu quero  um marido que seja sincero e firme. Um marido que esteja connosco todos 
os dias da nossa vida... todos os dias da minha vida! Quero um marido que conte historias aos nosssos filhos e que os levante quando cairem. Talvez seja egosta, 
mas quero algum que me coloque  frente de tudo o resto.
     - Eu farei isso, Julianna. Deixa-me demonstrar-te...
     - No - disse ela aborrecida. - No consegues. No consegues! Dizes que tens medo de morrer, mas os teus actos demonstram o contrrio. Eu... eu no entendo 
porque fazes o que fazes... talvez estejas a tentar castigar-te. Talvez seja uma questo de coragem, de audcia. Dizes que a melhor maneira de superar o medo  enfrentando-o 
a ele. Mas eu no posso fazer isso... no consigo! No quero um marido que entre e saia da minha vida quando lhe apetea! No conseguiria viver sabendo cada vez 
que te vais embora, pode ser a ultima. No poderia viver assim. Odeio a forma como te arriscas de proprosito, Dane. Odeio!
     As palavras dela fluiram imparveis do corao.
     Dane estava perplexo. Podia ver pelo canto do olhos a linha delgada da sua boca. Ela tentou libertar as suas mos, mas o aperto tornou-se ainda mais decisivo.
     - Diabos! - Disse ele incmdo. - No posso fazer outra coisa. A brincadeira ainda no acabou. Tenho que a ver acabada. No posso abandon-la agora.
     - E a reside a diferena entre ns. Para ti  um divertimento, mas para mim, trata-se da tua vida! - Ela engoliu dolorosamente. - Sei que no podes deix-lo 
agora. Sei que  uma questo de honra, de lealdade. Eu entendo, sinceramente que entendo. Mas no consigo aceitar. No consigo. Eu quero um homem, Dane, no uma 
mscara.
     Dane chegou-se para trs.
     - Que lisonjeiro! - A sua voz foi abrupta e sarcstica.
     O silncio na carruagem era sufocante. Dane olhava para ela com o rosto franzido, o queixo to tenso que parecia que se ia partir em mil bocados.
     Finalmente, olhou para o exterior.
     - Santo cu - exclamou ele de repente, - porque raio no nos movemos?
     Julianna pensava a mesma coisa. Na rua, os espectadores continuavam a sair do teatro. A carruagem dela estava na esquina, mas com a interminvel fila de veculos, 
tinha-se formado um engarrafamento que mantinha toda a gente imobilizada.
     Julianna olhou atravs da janela. Viu passar a p um casal. Metade da cara do homem estava sombreada, mas algo na mulher captou a sua ateno.
     A mulher usava um alegre chapu coberto com um vu vermelho que condizia com o vestido de seda. Pararam diante de uma carruagem alugada na esquina. O condutor 
estava l, com uma lanterna na mo, pronto para a ajudar. A mulher colocou uma mo elegantemente enluvada sobre o brao do condutor e com a outra levantou o vu.
     Julianna pensou imediatamente que aquela mulher devia ter sido uma beleza na sua juventude. Bom, ainda era. No era jovem, mas tambm no era velha. O seu corpo 
era to elegante como o de algum mais novo do que ela.
     Mesmo antes de entrar na carruagem, deteve-se e olhou para o homem. A luz da lanterna iluminou o seu rosto por completo.
     Julianna no podia acreditar no que via.
     O mundo pareceu parar. E por uma momento, o seu sangue tambm.
     - Ai, Deus!
     Julianna procurou o puxador da porta para a tentar abrir. Na tentativa, perdeu o equilbrio e colocou um joelho no cho, segurando-se com as mos para no cair.
     Levantou orgulhosamente a cabea.
     A porta do outro carro fechou-se. Comeou a andar suavemente, a primeira vez na noite que o conseguiu fazer.
     Segurando-a pela cintura, Dane ajudou-a a levantar-se.
     - Julianna! O que ests a fazer?
     Julianna no olhou para ele.
     Espere - gritou ela. - Espere!
     Dane olhou em direco  carruagem que acabava de desaparecer na escurido da noite e depois centrou-se na expresso branca da sua companheira.
     - O que se passa? - Perguntou. - Conheces aquela mulher?
     Olhou para ele com o rosto desfigurado. O rosto que tinha visto era o de algum que mal conhecia. Um rosto que nunca acreditou que veria na sua vida...
     Mas por sua vez, um rosto que no tinha conseguido esquecer.
     - Era a minha me - disse dolorosamente. - Era a minha me!
     
      
Captulo 18
     - No  que queira duvidar de ti, gatinha, mas no eras uma criana quando viste a tua me pela ltima vez?
     Dane inclinou-se no sof da sala estofado com motivos dourados. Ele no esqueceria durante muito tempo a expresso de Julianna. Tinha feito com que o seu cabelo 
na nuca se eriasse. A expresso dela tinha sido como o de algum que acabava de var um fantasma.
      No tinha havido forma de alcanar a carruagem. Dane tinha tentado segui-la a p, mas tinha sido tudo em vo.
     Julianna concordou com a cabea.
     - Eu tinha trs anos.
     Ainda continuava perturbada. Dane encheu dois copos de vinho da bandeja que a senhora MacArthur acabava de deixar sobre a mesa. Encostou-se e deu um copo a 
Julianna.
     - Bebe. Ainda ests plida.
     Ele bebeu um golo.
     - Outro -ordenou ele.
     Julianna obedeceu. Os lbios de Dane desenharam um sorriso.
     - Isso - aprovou ele. - Est muito melhor.
     Ela devolveu-lhe o sorriso mas, de repente, afastou o olhar. Mordeu o lbio.
     - Como pode ser possvel? Como?
     - No sabes se  verdade- recordou-lhe. - S viste aquela mulher por um instante. E na escurido...
     - Eu sei. Eu sei!...  mas mesmo assim, quando aquilo aconteceu, tive a estranha sensao... no tenho a certezade poder explicar. Foi como se soubesse que era 
uma estranha, embora todo o meu ser me dissesse que me era familiar. Que poderia reconhec-la. E no entanto, reconheci.
     - Julianna - disse ele amavelmente, - tinhas apenas trs anos,  possvel que no te lembres dela com clareza.
     Alguma coisa iluminou o seu rosto.
     -  verdade que no me lembro dela. Nem me lembro de sentir tristeza por no ter me. Tinha os meus irmos a quem amava e... e que me amavam tambm. Mas h 
um quadro em Thurston Hall, na casa familiar, em que estamos todos, os meus pais, os meus irmos e eu. Foi pintado pouco tempo antes da minha fugir. Dizem que  
excelente, pela maneira em que o artista conseguiu captar a alma de todos ns. O sentido protector de Sebastian, a rebeldia de Justin, a severidade do meu pai, a 
frivolidade da minha me... depois de nos abandonar, o meu pai escondeu-o no soto. Eu costumava ir v-lo s escondidas. E quando o meu pai morreu e Sebastian se 
converteu em marqus, devolveu-o  galeria. Sempre me senti atrada por aquele quadro. Raro era o dia em que no passava por ali para o observar. Quando era muito 
jovem, pensava que a minha me era a mulher mais bonita do mundo. Acariciou uma madeixa que lhe caia pelo peito. - Uma vez, lembro-me que uma das minhas amigas disse 
que era uma pena que no tivesse herdado os olhos verdes da minha me, como Justin. Mas eu estava muito contente comigo mesma... no me lembro de uma nica vez em 
que no soubesse que tinha feito uma coisa horrvel. Admirava a sua beleza, mas no queria ser como ela. Nem como o meu pai.
     - Talvez seja uma estpida - disse ela em voz muito baixa. - Talvez a minha imaginao me tenha atraioado, ou meus olhos. Contudo, h uma parte de mim que 
me diz que a mulher que vi era a minha me. - Abanou a cabea. - Mas como  possvel? Como pode ser possvel?
     Estava longe de ser convincente. No tinha lgica nenhuma. Uma mulher morta ressurgia depois de um quarto de sculo... parecia impossvel. E no entanto, Julianna 
parecia to convencida...
     - Julianna - disse ele tranquilamente. - Dizes que morreu h anos. Conta-me o que aconteceu.
     - Fugiu com outro homem. O barco onde iam afundou-se no canal. Todos os que l viajavam afogaram-se. Isto  tudo o que sei.
     - E Sebastian e Justin?
     - No tenho a certeza. - Olhou para ele quanse impotente. - Dane...
     Dane afastou os copos.
     - Ests a tremer! - Exclamou ele. Por um momento, observou-a atentamente. No disse nada, mas colocou os seus dedos ternamente sobre a face dela. Alguma coisa 
brilhava nos seus olhos.
     Atraiu-a para ele e apertou-a nos braos.
     - Podes protestar o quanto quiseres - disse ele, - mas esta noite no te deixo sozinha.
     Ela mergulhou a cara contra a garganta dele. No queria protestar. Tambm no queria que ele se fose embora.
     J no quarto dela, Dane tirou-lhe o vestido. Sentiu-se agradecida ao ver que ele se punha de joelhos para lhe tirar os sapatos e as meias, enquanto ela matinha 
o equilbrio apoiando-se nos seus ombros. Com a mesma ansiedade, desfez-se da sua roupa. Ao pr-se de p, Julianna continuava sem se mover.
     Ele tambm no o fez quando ela estendeu ma mo para tocar o plo escuro do seu peito.
     Os olhos encontraram-se. Uma suplica silnciosa. Uma rendio. Estava nua  luz da lua, nua nos braos dele. Levantou a boca, procurando a dele. Ardia por dentro. 
A suavidade dos lbios dele queimava os dela.
     Sem deixar de a beijar, deitou-a na cama.
     Julianna passou uma mo sobre a dureza das ndegas compactas. Talvez fosse o vinho o que a fazia to ousada. No queria pensar. S queria sentir.
     E queria senti-lo a ele. A Dane.
     Os dedos tmidos percorreram a pele lisa do estmago dele. Chegou at ao lugar onde o plo se tornava mais forte. Mais espesso.
     Dane ficou tenso. Beijou-a no pescoo.
     - Sim, gatinha. Ah, sim!
     As palavras dele fizeram-na corar. Envolveu o pnis, quente e enorme, com os dedos, e comeou a acarici-lo com o polegar.
     - Impressionante - sussurrou ela.
     - Eu sei.
     Julianna abriu os olhos surpreendida.
     Dane riu-se.
     Fingiu sentir-se ofendida e retirou os dedos, libertando-o.
     - No te d prazer?
     - Garota atrevida e descarada. 
     A gargalhada ressou no seu peito. Uns dedos elegantes rodearam os dela, orientando-a novamente. Sem vergonha agora, olhou para baixo. Viu um corpo esfomeado... 
com fome dela. Por ela! E a viso da sua mo rodeando o seu membro com fora... a sensao de virilidade na sua mo... pareceu-lhe incrivelmente ertico.
     Os seus olhos dilataram-se surpreendidos, mais uma vez. Estava quente. Ardia. Mas sobretudo, estava muito duro!
     - Imploro-lhe, menina, continue.
     E ela assim o fez, at que ele gemeu e retorceu-se. At que o ouviu dizer que no conseguia aguentar mais.
     Dane virou-a para a deitar de costas. Deslizou a mo at um dos seus joelhos e comeou a acariciar-lhe a parte interior das pernas. A mo beliscou possessivamente 
a parte superior de uma delas. Beijou-a quase preguiosamente, acariciando os contornos do seu cltoris, mas sem o tocar.
     - O que foi que me perguntaste? - Sussurrou ele. - Se no me dava prazer?
     Intoduziu o indicador no calor das suas pregas rosadas e hmidas, para o retirar quase no mesmo instante. Julianna respirava com dificuldade.
     - O que , Julianna. No te d prazer?
     Empurrou os ombros dela em silnciosa frustrao.
     Desceu a boca at ao centro do seu ventre. A cabea dela preencheu-se de imagens de paixo, de momentos inesquecveis na cabana, naquela noite, a forma como 
lhe tinha aberto as pernas com a largura dos ombros. A escura cabea plantada ali, entre as suas pernas, o modo como afastou com os polegraes os plos da sua pbis 
para chegar ao centro secreto do seu prazer e mergulhar nele...
     - Dizes-me o que queres, amor?
     Na voz dele adivinhava-se o desejo. Traou com a lngua uma linha ardente junto ao tringulo de plo castanho. Levantou os olhos para a olhar com os olhos dourados.
     - No... no consigo dizer. - Tinha deixado de ter frio. O seu corpo ardia.
     - Continuas a ter vergonha? Claro que consegues. Consegues ter tudo o que quiseres, amor.
     - Dane! - Ele sabia, diabo. Ele sabia. - No consigo!
     Ele afastou a cabea.
     Podia sentir a respirao, envolvente e ousada. Por favor, pensou ela desesperada. Morria por sentir uma carcia ali. S mais uma vez. S mais uma...
     - Diz-me. Atormenta-me. 
     Ela molhou ao lbios.
     - Beija-me como o fizeste daquela vez.
     Dane sorria. Ela conseguia ouvi-lo da sua voz.
     - Como, amor?
     - Tu sabes como. - Sussurrou ela.
     - Assim? - Perguntou ele.
     Como uma chama de fogo, tocou a parte mais ntima e esfomeada do corpo dela, a parte que gemia e chorava.
     Ao primeiro toque da lngua dele, os msculos do seu corpo endureceram, enquanto o seu interior se fez lnguido e vulnervel. O ar saia dos seus pulmes numa 
corrente trrida. Derreteu-se contra a sua lngua. A sua boca. Contra ele. Retorceu-se at ferver por dentro, at que um gemido de dor saiu pela sua garganta. Incapaz 
de suportar por mais tempo a deliciosa tortura, agarrou o cabelo dele com os dedos e ergueu-o para o atrair para si.
     Ele levantou a cabea. Com as mos agarradas, e com os dedos entrelaados, a boca dele tinha um sabor insupotavelmente doce, era pura possessividade.
     S podia fazer uma coisa. S ele podia faze-lo.
     - Agora, Dane. Agora.
     Julianna sentiu a vibrao do riso dele.
     - Pacincia, gatinha. Isso far com que tudo seja mais doce.
     Mas deu-lhe o que queria, o que os dois queriam. Uma investida suave das suas ancas foi o suficiente para se afundar nela. A penetrao foi profunda. Dura. 
Vibrou em cada parte do seu corpo.
     Ele retrocedeu, mantendo apenas a ponta do pnis dentro dela. Ela elevou a pbis, como se no conseguisse suportar que ele a deixasse vazia.
     E no conseguia.
     - No pares. - era uma suplica desesperada, um lamento. - No pares.
     Ao beij-la, quase gritou.
     - Gatinha - murmurou ele. - Gatinha!
     Lentamente, Dane levantou a cabea. Os olhos dourados brilharam ardentes, como em chamas, incendiando-a com o seu calor. Julianna no conseguiu deixar de o 
olhar quando ele voltou a penetr-la. E desta vez gritou ao sentir a ternura do seu beijo.
     O prazer espalhou-se pelo seu corpo como plvora. Entre os poros. Cravou-lhe as unhas nos ombros, tremendo ao sentir a resistncia dos seus msculos e da sua 
pele.
     O momento do clmax estava perto. Estava ali, na rapidez quase frentica dos seus impulsos... e ela tambm estava quase l. Acudindo. Desejando.
     Os braos ficaram tensos. Uma onda de emoo inundou-a. E ento percebeu...
     Aquilo era o cu. A felicidade.
     Aquilo era o amor.
     
     Na primeira hora da tarde seguinte, Julianna entrou na sala da sua casa. Os irmos acabavam de chegar e seguiam-na pelo corredor.
     - O que se passa, Jules? O teu recado parecia bastante urgente. - Justin ia a um passo diante de Sebastian.
     Dane j ali estava, apoiado na prateleira da chamin. Ergueu-se quando eles entraram.
     - Sebastian. Justin. Este  o visconde de Granville. - Julianna fez as apresentaes, com a voz entrecortada.
     Os homems cumprimentaram-se. Os olhos cinzentos de Sebastian dirigiram-se a Julianna.
     - Podemos voltar depois se quiseres, Jules.
     Julianna esclareceu a garganta.
     - No. Na realidade, pedi a Dane para que estivesse presente enquanto falo com vocs.
     O nome de baptismo saiu dos seus lbios sem perceber. Tanta familiaridade no passou despercebida aos irmos, que trocaram um olhar. Tambm notaram no rubor 
das faces dela. Os olhos cinzentos uniram-se aos verdes.
     Sebastian sentou-se na poltrona que havia junto do sof. Justin sentou-se na que havia do lado oposto e estendeu as longas pernas para a frente. Dane moveu-se 
e ficou de p prximo da mesa de xadrez.
     Julianna, por sua vez, sentou-se na sua cadeira favorita estilo Rainha Ana e cruzou as pernas.
     Sebastian franziu o sobrolho.
     - No tens aquele tipo de problema?
     Ela negou com a cabea. Respirou profundamente e levantou o queixo.
     - Ontem vi a mam.
     A frase foi seguida de um silncio de incredulidade.
     Justin foi o primeiro a reagir.
     - Que raio ests a dizer! Jules, se esta  a tua forma de nos fazer uma brincadeira...
     Julianna abanou a cabea.
     - No brincava com uma coisa destas. A noite passada vi-a a subir a uma carruagem depois da pea, no Teatro Real.
     - Como podes ter a certeza?
     - No tenho - admitiu, - mas o quadro de Thurston Hall... Justin, ai, sei o quanto odeias isto, mas parecia-se tanto contigo que fez com o meu corao parasse.
     - Pelo amor de Deus. Imagino que v-la seria o suficiente para fazer parar o corao a qualquer um de ns.
     - Era ela. Oh, Deus, era ela! Sei que  um absurdo. Sei que  doloroso, que nos faz recordar coisas que todos preferiramos esquecer... mas mesmo assim,  muito 
misterioso. E se a tivessem visto, tambm o saberiam... era a mam. Senti-o em cada poro da minha pele!
     Justin no respondeu. Baixou os brilhantes olhos verdes. Era impossvel saber o que estava a pensar - o que estava a sentir - porque a sua expresso era impenetrvel.
     Dane deu um passo em frente.
     - Se quiserem, posso fazer certas... pesquisas.
     Sebastian entrecerrou os olhos.
     - De forma discreta? O nosso nome j se viu envolvido em escndalos suficientes. No tenho inteno nenhuma de expor as nossas esposas e os nossos filhos ao 
pesadelo pelo qual tivemos que passar quando ramos pequenos.
     - Sem duvida. - Dane inclinou a cabea. - A Julianna contou-me as circunstancias em que a vossa me partiu...
     Um sorriso fantasmagrico apareceu nos lbios de Justin.
     - No nos iludamos, homem. Daphne Sterling, marquesa de Thurston, deixou Inglaterra com o amante. O barco viu-se envolvido numa tempestade na costa de Calais. 
Todos se afundaram junto com a embarcao. - Virou-se e encaminhou-se para a janela, com passos slidos.
     Dane olhou para ele.
     - Ento, embora seja bastante improvvel, at inacreditvel,  possvel que Daphne Sterling pudesse ter sobrevivido. Mas, a ser assim, onde esteve este tempo 
todo?
     O silncio envolveu-os. Nenhum dos trs disse uma palavra.
     - Ela ia para a Europa - disse Sebastian em voz baixa passado um tempo. - Paris, Veneza... disse que l o tempo seria bom.
     Justin voltou-se.
     - Como? Sebastian, como  que sabes isso?
     - Porque a vi quando se ia embora. Vi-a a subir para a carruagem e deixar Thurston Hall... aos dois. A ela e ao amante.
     Os irmos olharam-se atnitos.
     - Eu sei - disse Sebastian tranquilamente. - Tinha dez anos, no? Ela e o pap tinham discutido tanto nessa noite! Sabia que ele se zangaria comigo se lhe tivesse 
dito que a tinha visto. Zangar-se-ia com ela. Zangar-se-ia comigo. Depois disseram que tinha morrido. - Calou-se. - Mais ningum sabe alm de Devon.
     Julianna continuava com a boca aberta. Tinha mantido uma coisa daquelas em silncio, durante anos. Ento, teve pena dele. No tinha sido fcil para nenhum dos 
trs, tiveram que crescer com o escndalo do abandono da me. Com a hostilidade do pai. Aquela noite tinha mudado as suas vidas... talvez os tivesse mudado a eles 
tambm!
     Mas nunca teria imaginado que Sebastian fora testemunha da sua fuga. Do seu abandono definitivo. Nenhuma criana devia ter que suportar uma coisa assim. Ai, 
que doloroso devia ter sido para ele!
     E que coragem tinha tido!
     - Sebastian - sussurrou ela. Antes de ele perceber, ela j estava ao seu lado.
     - No olhes para mim dessa forma, Jules. No aconteceu nada. A srio, estou bem.
     Ele deu-lhe um abrao, e depois encostou-se  poltrona. Julianna sorriu ligeiramente. Desviou o olhar para Justin, que os observava com amargura.
       Conseguiu esboar um sorriso mas o seu aspecto parecia demasiado demarcado, a sua expresso dolorosa.
     Julianna e Sebastian trocaram um olhar de preocupao, conscientes da dor que afligia o irmo.
     - O homem que estava com ela aquela noite - disse Dane. - O seu companheiro. Quem era?
     Sebastian abanou a cabea.
     - No fao ideia. ramos crianas. Acha que essas coisas importam para uma criana?
     Ele tinha razo, pensou Dane.
     Justin permanecera em silncio aquele tempo todo.
     - Supnhamos que est viva - disse ele de repente. - Supnhamos que est aqui em Londres. A questo no  onde esteve todos estes anos, mas sim, porque voltou 
de repente? Porqu agora?
     - Essa  uma boa pergunta. - Adiantou-se Dane. - E no apenas isso, mas tambm com quem estava ontem  noite?
     Olharam uns para os outros.
     Foi Julianna que proferiu as palavras que estavam na mente de todos.
     - O homem que estava com ela. Acham que pode ser o seu amante, o homem com o qual fugiu h tantos anos?
     
     Pouco depois, Julianna acompanhou os irmos at  entrada. Dane ficou em p  sua direita, perto da floreira que havia sobre a mesa.
     Sebastian virou-se para ele e estendeu-lhe a mo.
      -  simptico da sua parte que nos queira ajudar. - Olhou para ele nos olhos. - Posso perguntar-lhe que tipo de relao tem com a minha irm?
     Dane sorriu.
     - Claro que sim - respondeu suavemente. - Pretendo casar-me com ela algum dia. Se possvel, o quanto antes.
     Julianna pestanejou.
     Sebastian auqueou uma sobrancelha.
     - Devias ter-nos dito, Jules.
     - Parece-me - acrescentou Justin, - que tambm  uma surpresa para ela.
     - No - disse Dane suavemente.
     Sebastian tambm tinha percebido o ardor nos olhos de Julianna.
     - Ah - disse ele divertido. - Ento,  um motivo de discusso.
     O casal respondeu em unssono.
     - Sim! - Disse ela.
     - No - disse ele.
     - Entendo - assentiu Sebastian, como se o entendesse perfeitamente.
     O sorriso de Dane tornou-se mais aberto.
     - Ela s precisa de se habituar  ideia - explicou ele. Agarrou na mo dela e beijou-lhe os dedos amorosamente.
     - J tinha reparado - observou Justin.
     A senhora MacArthur apareceu com as bengalas deles e abriu-lhes a porta.
     - Bom - murmurou Sebastian quando saram para a rua, - este foi um dia de revelaes, no foi? - Olhou para Justin. - O que achas de Granville?
     - Um tipo seguro de si prprio.
     - Sim,  o que parece. - Sebastian voltou os olhos para a casa. - E ao sair, notei uma coisa diferente em Julianna. Quando falava com ele, a luz do sol parecia 
ter voltado  sua voz.
     - Achas que  assim? Eu teria dito de outra forma. - disse Justin num tom malandro. - Mas tens razo. Ela voltou a brilhar. S por isso devemos estar-lhe agradecidos.
     -  verdade. Acho que no nos devemos intrometer, Justin.
     - No - concordou ele. - A nossa irm  muito independente.
     Sebastian olhou para ele por uns minutos.
     - Podemos conversar um pouco?
     - Claro, posso aceitar um brandy.
     - Excelente ideia. Ento, vamos para o clube.
     Dentro do White's, Justin olhou para Sebastian.
     - Ento - disse ele, - achas que pode ser verdade? Acreditas mesmo possvel que Julianna viu a nossa me ontem  noite?
     Sebastian no podia deixar de ser honesto.
     - Que me crucifiquem se o sei!
     - Eu acho que  possvel, Sebastian. Sinto o mesmo que a Julianna. Tenho aquela estranha sensao de que era ela.
     Sebastian bebeu um golo de brandy e observou o irmo.
     - Ests bem?
     - Porque no havia de estar? - Justin deteve-se, com o brandy a meio caminho da boca.
     - Por nada, salvo pelo duro golpe que Julianna nos deu, no?
     - Duro golpe, no. Surpreendente, isso si. J no me di tanto pensar na mam como me doa antes. Ate conhecer Arabella, acreditava que era uma maldio parecer-me 
com ela. Durante muitos anos estive convencido de que era como ela.
     - Como se fosse a aparncia o que faz um homem... ou uma mulher - disse Sebastian com um expresso de cepticismo.
     Justin sorriu.
     - Sim, sim, eu sei. Mas teve que ser a minha esposa a mostrar-me que no sou como a mam.
     Sebastian estava perplexo.
     - Ento, o que ? Nas estars a duvidar outra vez?
     - Deus, no! - Justin encolheu os ombros. -  s que no sei se quero saber quem ela  - admitiu. - E, no entanto...
     Calou-se. Havia um brilho estranho nos olhos verdes.
     - O que  que te preocupa, Justin?
     Justin engoliu at  ltima gota do copo.
     - No  nada, a srio.
     Continuaram a falar sobre as suas famlias. Sebastian mencionou que Devon parecia entender perfeitamente o balbuciar dos seus filhos, enquanto que para ele 
continuava a ser incompreensvel. Justin riu-se e contou como a sua filha lhe molhado as calas precisamente na altura de para casa de Julianna,
     No disseram mais nada sobre a me, Sebastian conhecia bem o irmo. Se lhe quisesse confessar alguma coisa, f-lo-ia, mas quando ele achasse oportuno. Se no, 
no havia nada que pudesse dizer ou fazer para o convencer.
     
     Depois de se despedir dos irmos e fechar a porta, Julianna balanou-se preocupada e apertou a boca daquela sua forma to encantadora.
     Dane tinha voltado para a sala.
     - O que foi? - Murmurou ele.
     - Dane Quincy Granville...
     - Gatinha - grunhiu ele, - a minha me e as minhas irms chamavam-me assim quando queriam ralhar comigo.
     - E suponho que as ocasies deviam ser muitas e bem merecidas!
     - Ora... eu era um anjinho.
     - Tu? - Entrou na diviso e apontou ao peito dele com o dedo. - Dane, como pudeste dizer uma coisa daquelas? No aceitei casar-me contigo, e tu sabes!
     - Bom, eu sabia que no ias dizer. Alm disso, queria aliviar um pouco a tenso do momento. Parecia que os trs precisavam. E em minha defesa deves reconhecer 
que me contive. Limitei-me a dizer que nos casaramos algum dia quando podia ter dito que eras minha noiva.
     Ai! - Protestou ela como se fosse um caso perdido, - mas no sou. Devia ter-lhe dito que estive prestes a matar-te!
     - Recomendo que guardes esse detalhe para mais tarde, gatinha.
     - Ests louco! - Virou-se e afastou-se para a janela de onde se viam as rvores do jardim. 
     Estava louco? Ela no dito que no casava com ele, mas no conseguiu evitar a sensao de satisfao. No tinha certeza do porqu, mas apenas um momento antes, 
apercebera-se de uma coisa. No fora apenas ela a ter dvidas depois do que acontecera com Thomas. O que  que lhe tinha dito na noite anterior?
     "Quero um marido que me coloque  frente de tudo o resto."
     Ao v-la com Sebastian e com Justin - ao ouvi-los - entendeu muitas coisas de repente. Entendeu-a, como no o tinha feito antes. No assim to difcil de perceber. 
Queria estabilidade, uma coisa que nunca tinha tido em pequena. Queria o que ela e os irmo no tiveram em crianas, um pai e uma me que estivessem juntos e se 
amassem. Que estivessem l quando eles rissem ou chorassem.
     Os irmos j tinham encontrado o amor. E agora era a vez de Julianna.
     Dando um passo, aproximou-se dela. Afastou as madeixas suaves que caam pelas costas com a mo, e beijou-a com ternura na nuca. Depois, rodeou com as enormes 
mos os ombros dela. E ela no resistiu quando ele a virou para que olhasse para ele.
     - Ainda ests zangada, gatinha?
     -  difcil estar zangada contigo.
     No conseguiu deixar de se rir com a sinceridade dela.
     - Ah. ? - Com ternura, traou as duas linhas das sobrancelhas. - Ento, porque continuas com cara de aborrecida?
     Ela hesitou.
     -  por causa da tua me? - Adivinhou ele.
     - Sim - admitiu ela. - Agradeo-te por teres estado aqui, Dane. - Disse em voz muito baixa. - A tua presena faz com tudo seja mais fcil para mim.
     As palavras dela satisfizeram-no
     - Mas? H mais qualquer coisa que te preocupa, gatinha
     -  verdade - disse ela lentamente. - Perguntaste sobre o homem que estava com ela ontem. A minha cabea estava to centrada nela que nem sequer me preocupei 
em pensar nisso. Mas agora lembro-me que quando aquele homem passou ao nosso lado, houve uma coisa que me chamou  ateno. Uma coisa que o tornava diferente.
     - O que era diferente?
     Julianna respirou.
     - Ele usava uma pala.
     Dane ficou gelado.
     - O qu?
     - Do lado mais perto de mim. Sim, tenho a certeza absoluta disso. - Concordou com a cabea. - tinha uma pala no olho direito.
     
      
Captulo 19
     - Granville! No nos temos visto ultimamente. - Nigel Roxbury no parecia surpreendido de ver Dane entar no seu escritrio.
     Pelo amor de Deus! Roxbury no podia saber! Aquele simples comentrio foi o suficiente para fazer com que Dane estivesse prestes a deter-se. Recuperou-se a 
tempo.
     Tentou relaxar-se.
     - Sim - respondeu, -  uma pena. Inclinou-se sobre uma cadeira diante de Roxbury.
     Dane tinha ido directamente para o Ministerio depois de deixar Julianna. O escritrio de Roxbury era um casebre, mas a sua secretaria permanecia como o homem 
que ele era: escrupulosamente limpa e arrumada. Roxbury tinha sido seu superior em mais do que uma misso. Nunca sentira nenhum afecto por aquele homem, mas isso 
era irrelevante.
     - O que , visconde, aborrece-se por no lhe darmos nenhum trabalho ultimamente? - Roxbury deu-lhe um olhar do outro lado da mesa: com o olho esquerdo. Com 
o olho esquerdo!
     Dane cruzou as pernas e ofereceu-lhe um leve sorriso.
     - Estive a viajar pelo pas ultimamente.
     - Uma viagem sem incidentes, espero. Com aquele malandro do Urraca por ai, nunca se sabe, no ?
     - Tenho f em que "os melros" o apanhem depressa. Seno, podemos pr um homem atrs dele.
     - Estaria interessado em faz-lo?
     -  um trabalho que aceitaria com paixo, senhor. - Dane nem sequer pestanejou ao dizer aquilo.
     - Bom, j nos foi muito til no passado. E se est ansioso por utilizar os seus talentos de novo, terei que falar com o senhor Casey.
     - Eu agradeceria, senhor. - E, estendendo o brao, agarrou uma pequena esttua egpcia que Roxbury tinha no canto da secretaria. -  uma pea interessante - 
murmurou ele.
     -  uma reproduo. Maravilhosamente conseguida, no? - Roxbury agarrou numa pilha de papis, em sinal de despedida.
     Dane colocou a estatua onde estava e levantou-se.
     - De qualquer forma, creio que o vi  porta do Teatro Real, ontem  noite.
     Roxbury olhou para ele desconfiado.
     - A sua carruagem partiu antes que eu o conseguisse alcanar. Uma pena. Teria gostado de conhecer a sua esposa.
     - Ah, no  minha esposa - apressou-se a dizer Roxbury. -  minha irm.
     - Ah, desculpe.
     - No se preocupe. Ficaremos em contacto, Granville.
     
     Dane fechou a porta do escritrio de Phillip com a ponta da mo e encaminhou-se para o fundo para ver o seu amigo.
     - Preciso de um favor - disse ele sem prembulos. - Um favor pessoal. E no podes dizer a ningum o que te vou contar. A ningum, Phillip.
     Phillip riu-se e mostrou umas pequenas rugas no contorno dos seus olhos ao faz-lo.
     - Sim, claro, velho amigo, essa  a razo do que fazemos, no?
     Dane continuava absorto nos seus pensamentos quando arrastou uma cadeira e se sentou diante de Phillip.
     Em voz muito baixa, relatou tudo o que acabava de saber acerca da famlia Sterling.
     Ao acabar, Phillip arqueou as sobrancelhas.
     - No negou ter estado no teatro?
     -  verdade.
     - Ento, era ele. - Disse Phillip lentamente. - E quanto  mulher com o vu que a Julianna viu, ou acredita ter visto, deves admitir, Dane, que se estiver viva, 
 muito estranho que no tenha dado sinais de vida em todos estes anos.
     - Sim, eu sei, Phillip. Mas eu acredito nela. E a explicao de Roxbury foi to simples... quase, simples demais. E, contudo, que razo teria para mentir? A 
menos que seja verdade. A menos que tenha alguma coisa a esconder.
     - Uma interessante reflexo. Pensemos por momentos que a mulher que o acompanhava ontem  a me dos irmos Sterling. Supnhamos que ela  Daphne Sterling. Isso 
significa...
     - Que Nigel Roxbury mentiu - concluiu Dane - e que aquela mulher no pode ser irm dele. Julianna teria conhecido o seu tio, no?
     -  evidente. - Reconheceu Phillip.
     - O que  que sabes dele?
     - Trabalho com ele h tanto tempo quanto tu. Ele trabalhou para o Ministrio do Interior durante vinte anos, creio eu. Pelo que sei, a sua folha de servio 
 impecvel. Mas claro, no se poderia esperer outra coisa dele. - Disseste que nem a Julianna nem os irmos conhecem a identidade do homem que estava com a me 
quando deixou a Inglaterra?
     Dane concordou.
     - O meu primeiro pensamento foi que Nigel Roxbury podia ser o homem com quem ela escapou naquela noite. Que talvez talvez tivessem sobrevivido os dois...
     - Se fosse o Nigel - disse Phillip, - teria que ser uns quantos anos mais novo do que ela.
     - Sim - a expresso de Dne era de preocupao, - foi o que pensei. De todas as formas, eles eram umas crianas quando tudo aconteceu. Essa  uma porta do passado 
deles que ningum se atreveu a abrir. Por isso  que no posso arriscar-me a fazer demasiadas perguntas que possam agitar o escndalo. No os vou expor de novo a 
isso.
     - Vai-me levar algum tempo, mas creio que posso averiguar o nome do barco que ela apanhou para passar o Canal e a lista dos passageiros que morreram. Embora, 
como passaram tantos anos, ser muito difcil - admitiu Phillip. - Mas verei o que consigo descobrir.
     
     Ao cair da tarde, Phillip entrou com passos largos numa cafetaria assobiando uma melodia de natal. Dane esperava-o sentado num canto, apreciando ansiosamente 
o seu copo de whisky.
     Phillip sentou-se na cadeira em frente.
     - Porque pareces to deprimido?
     - No estou deprimido. Estou pensativo.
     - Ah - disse o seu amigo. - Fico contente por me esclareceres a diferena.
     Dane fez um sinal para que trouxessem outro whisky ao amigo.
     - Como  bvio, venho acrescentar mais lenha  fogueira - disse Phillip.
     Dane olhou para ele.
     - E isso que dizer?
     - Quer dizer - Phillip escolheu as palavras cuidadosamente - que  como disseste.
     - Disse muitas coisas, meu amigo, e garanto-te que no me consigo lembrar de todas.
     - Talvez te lembres de uma afirmao que fizeste esta tarde.
     Dane suspirou impaciente.
     - Phillip...
     Phillip chegou-se para a frente.
     - Tinhas razo, Dane. Roxbury no tem nenhuma irm.
     Dane dedicou-lhe toda a ateno.
     - Tinha um irmo.
     Tinha entrecerrado os olhos para o ouvir melhor.
     - Tinha? - repetiu.
     -  verdade. James Roxbury morreu h vinte e quatro anos. Afundou-se - Phillip calou-se para lhe dar mais emoo - no mar.
     - Deus bendito. Como raio  que investigaste isso?
     - Foi fcil, na verdade. Estive a dar voltas  cabea quando saste do meu escritrio. Ento, consegui dar uma olhadela ao historial de Roxbury. Nascido e criado 
em Westminster. Examinei os arquivos da parquia e estava l tudo, o que achas?
     A gargalhada de Dane dissolveu a sua expresso austera por um minuto.
     - Juro-te, Phillip, tu surpreendes-me. - O seu sorriso desapareceu e pareceu reflectir por um momento. -  estranho, isto  muito estranho. Por agora sabemos 
com toda a certeza que mentiu. E se Roxbury mentiu sobre isso, pode ter mentido sobre outra coisa qualquer! E se esconde amis alguma coisa?
     - Concordo contigo, Dane. Vou pedir um mandato de busca. Gostaria de o ter feito antes
     - Ainda no investigaste o Roxbury pelo assunto da falsificao? - Perguntou Dane lentamente.
     Phillip negou com a cabea.
     - No. Procurei entre aqueles que pareciam ter ganho muito dinheiro ultimamente. Aqueles que pareciam vestir-se melhor. Aqueles que podiam ter feito compras 
extravagantes nos ltimos anos.
     - Claro. Se fosse a ti, talvez precedesse de uma forma, digamos, menos cientfica, mas mais metdica.
     - E como  que o farias?
     Dane escondeu um sorriso.
     - Por ordem alfabtica?
     Phillip piscou os olhos e depois sorriu.
     - Visto que no h suspeitos e que todos so suspeitos, talvez essa no seja uma m ideia - disse Phillip. - E se o encontrssemos dessa forma, isso seria incrivelmente 
espantoso, no achas?
     
     Os ltimos raios de sol da tarde reflectiam-se na parede de paneis de madeira, enquanto Roxbury servia um copo de vinho  sua visitante.
     - Alegro-me de a ter encontrado em casa - disse ele.
     A mulher juntou as mos no colo. O homem seguiu o movimento com o olhar.
     - Parece nervosa, madame - observou ele. - e vem de mos vazias. No me traz nenhuma preciosidade desta vez?  muito imprudente da sua parte. Sobretudo, depois 
da nossa noite no teatro.
     - Tenho um recado do Franois para si. No haver mais "preciosidades" enquanto ele no receber o ouro.
     Roxbuty no perdeu o sorriso. Nem a expresso irnica nos seus olhos.
     - To autoritrio como um sbito gatuno, no?
     - Ele  um homem de negcios - disse ela secamente. - Limita-se a cuidar dos seus interesses.
     O homem abria e fechava o punho.
     - O Urraca anda atrs de mim - murmurou ele. - Rouba-me. Tenho quase a certeza que ele sabe.
     A mulher levantou o queixo.
     - O nosso acordo acabou.
     - O nosso acordo vai continuar at eu conseguir o que quero. No me diga quando nem onde deve acabar.
     - No quero fazer parte disto.
     - Querida, voc j faz parte disto.
     - No, quero abdicar.
     - No sou muito bom com aqueles que se metem no meu caminho.
     - No tenho medo de si.
     - Pois devia.
     - O que quer dizer?
     Ele falava de uma forma to suave...
     - O homem que me ajudava neste negocio... a mulher dele intrometeu-se. Atreveu-se a ameaar-me dizendo que contaria tudo! Mas a senhora... enfim, o marido j 
tinha servido os meus propositos. Digamos que ela j no poder dizer nada a partir da cova. E o marido tambm no.
     Olhou para ela fixamente. A sua gargalhada foi cruel.
     - Sim, j vi que percebeu o significado, madame.
     Ela pressionou muito os lbios ao ver que ele levantava um saco debaixo da mesa e o colocava em cima da secretaria. Abriu uma gaveta e meteu a mo l dentro.
     Um instante depois, colocava uma longa e sinistra pistola ao lado do casaco. Olhou para ela rigorosamente.
     - Volte para o seu hotel. Envie um recado a Franois dizendo que terei o seu ouro. Regresso a Londres daqui a dois dias. - Caminhou para a porta e abriu-a de 
par em par.
     - Onde vai? - De alguma forma, conseguiu que a sua voz no reflectisse o medo que sentia.
      Os olhos dele brilharam de forma sinistra ao agarrar o saco.
     - Bom, vou a Bath. Como acaba de dizer, minha senhora, um homem deve tratar dos seus negcios, no  verdade?
     
     
     Era tarde e o edifcio estava quase vazio quando Phillip voltou ao seu escritrio.
     Um empregado de rosto magro veio ao encontro dele.
     - H uma senhora  sua espera no seu escritrio, senhor - disse o empregado.
     Phillip franziu as sobrancelhas.
     - Uma mulher?
     - Sim, senhor. Diz que tem informaes que podem ser interessantes para si. Negou-se a dizer-me do que se trata e insistiu em que s falaria com um agente.
      - Obrigado.
     Assim que entrou, viu-a, embora o escritrio estivesse na penumbra. Era incrivelmente pequena, e vestia-se elegantemente. Com as costas orgulhosamente direitas, 
sentava-se na ponta da cadeira, segurando com as mos enluvadas o seu chapu e calava uma botas to pequenas que pareciam de criana e que escondia atrs da perna 
da cadeira. Tudo o que ela mostrava era elegncia.
     A porta fez um clique ao fechar-se.
     - Boa tarde, minha senhora. O meu nome  Phillip Talbot. Disseram-me que queria falar comigo.
     Apenas moveu a cabela para olhar para ele.
     -  verdade - anunciou. A sua dico era clara, concisa e culta. - Tenho feito muitas coisas na minha vida das quais no me orgulho. Mas no serei cmplice 
de um assassinato.
     O olhar de Phillip estava fixo na pena do chapu que usava na cabea. Tinha a cara coberta por um vu, o que escurecia as suas feies. De repente, lembrou-se 
da conversa que tivera com Dane naquela tarde. No, pensou, no pode ser verdade...
     O corao dele comeou a bater com fora, de repente.
     - O seu nome, minha senhora?
     Ela calou-se. Apesar daquele ar de arrogncia, Phillip teve a estranha sensao de que no sabia o que dizer...
     Ergueu o queixo e levantou o vu que cobria o seu rosto.
     - Sterling. O meu nome  Daphne Sterling. E fui uma vez marquesa de Thurston. - o comentrio foi acompanhado de uma ligeira elevao de sobrancelhas. - Talvez, 
ainda o seja.
     
      
Captulo 20
     A nvoa do crepsculo comeava a cair sobre os telhados distantes. Julianna estava sentada perto da janela da sua sala, com os olhos perdidos e o queixo introduzido 
entre as suas mos. Os olhos olhavam vazios para a o fio dourado da almofada. O ch que a senhora MacArthur trouxera h uma hora atrs esperava frio sobre a mesa 
e as bolachas continuavam intactas no prato. Tinham acontecido tantas coisas naquele dia que parecia impossvel tranquilizar a sua mente.
     No ouviu a porta, como tambm no ouviu a senhora MacArthur dizer que tinha uma visita. Na verdade, no foi ciente de outra presena na sala, at que por acaso 
levantou o olhar. Nem sequer sabia porque o fizera, mas... sim, ali estava ele. O seu corao comeou a fzer um rudo surdo, como se tentasse despertar de um sonho.
     Ele tinha uma imagem arrasadora, com um ar de superioridade que inundava tudo, a gravata muito branca agarrada  sua poderosa garganta. Com uma mo forte segurava 
o casaco junto da anca, e os msculos das pernas adivinhavam-se por baixo de umas calas apertadas de cor preta. A julgar pela expresso do seu rosto, devia estar 
ali h algum tempo.
     Cruzou a diviso, e f-la levantar-se. E se no tinha conseguido pensar antes, certamente no o faria agora. O ritmo do corao mudou de compasso ao senti-lo 
perto. A proximidade dele atordoava-a, acelerava-lhe o pulso. No conseguia pensar noutra coisa, seno naquela boca beijando a ponta dos seus seios, o calor daquela 
mo entra as suas pernas.
     Os olhos encontraram-se. Dane sorriu quase com insolncia. Mas Julianna j s conseguia rezar para que o corao voltasse a bater-lhe no peito.
     - Espero no ser a causa dessa expresso angustiada.
     - Hoje no. - um leve sorriso apareceu nos lbios dela. - Na realidade, desejava que reressasses.
     Dane fez uma sorriso aberto.
     - Ah, as boas vindas que eu gosto.
     Levantou a mo, e roou-lhe com os ns dos dedos as faces ruborizadas, sem deixar de reparar na linha de preocupao que persistia na sua testa.
     - Parecias perdida nos teus pensamentos. Em que estavas a pensar? Na tua me?
     - Sim - admitiu ela. - Mas, sobretudo, no meu irmo.
     - Consigo perceber porqu. Mas Sebastian pareceu-me...
     - No pensava em Sebastian. Pensava em Justin. - ela calou-se.  - Houve um instante em que vi que se sentia muito desconfortvel. E depois, foi-se embora to 
desanimado... como se alguma coisa o preocupasse. Sebastian tambm percebeu - reflectiu por um minuto. - Gosto de saber que Justin tem a Arabella.
     - Arabella?
     - A esposa dele. Ele beija o cho que ela pisa. E se o tivesses conhecido antes... - abanou a cabea com um leve sorriso nos lbios. - Aplacou a besta, foi 
o que ela fez. E suponho que  uma estupidez preocupar-me com problemas que no me pertence a mim solucionar.
     - s uma mulher muito sensvel.  natural que te preocupes com aqueles que amas.
     Os olhos voltaram a encontrar-se.
     - Obrigado - disse ela suavemente, - pela tua compreenso. - Houve um silncio. - Ficas para jantar?
     Dane hesitou.
     - Eu gostava - disse cuidadosamente, - mas acho que tenho de estar noutro lugar esta noite.
     O Urraca cavalgaria nessa noite. Percebeu pelo tom da sua voz.
     - Entendo. - Tentou afastar o medo da prpria voz.
     Ele estudou-a durante um momento, com um olhar estranho e penetrante.
     - O que ? O que aconteceu? - Perguntou ela.
     - H uma coisa que devias saber - disse ele lentamente. - O homem que estava com a tua me, Julianna, o homem do culo... eu conheo-o. O seu nome  Nigel Roxbury. 
Trabalhei sob as ordens dele em varias ocasies.
     Julianna inspirou.
     - O qu? Mas como...?
     - Phillip e eu acreditamos que  possvel que o homem que fugiu com a tua me h uns anos fosse o irmo dele. Ainda no unimos todas as peas, nem se tem alguma 
coisa a ver com o delito do Ministrio. Mas h algo estranho em tudo isto. Eu sinto-o.
     Julianna sentiu um clafrio nas costas. Olhou para ele fixamente.
     - Dane - disse nervosa, - ests a assustar-me.
     - No era minha inteno - apressou-se ele a dizer. - eu ficarei bem, garanto-te.
     Os olhos dele escureceram. Deu um passo para se aproximar dela e poder acariciar-lhe o cabelo suavemente.
     - Sei que no entendes. Mas no podia ir sem te ver. - Com um dedo ergueu o queixo dela, e obrigou-a a olhar para ele. O olhar dele penetrou no dela, com uma 
intensa expresso solene. - Amo-te, gatinha.
     Julianna sentiu uma dor na garganta. Que Deus a ajudasse, estava quase a chorar.
     - Meu Deus! - Sussurrou ela.
     Dane sorriu descaradamente.
     -  verdade, amor. Eu amo-te.
     Tinha perdido a batalha. As lgrimas resvalaram na sua voz.
     - Dane - disse ela impotente, - no podes dizer-me isso e... e ir embora.
     O sorriso dele desapareceu. Comeou a traar com o polegar a linha da sua boca, com a mais terna das carcias.
     - No posso deixar de te dizer, e partir.
     Beijou-a.
     E depois foi-se.
     Antes que se desse conta, j estava de p na janela da entrada, roubando a ultima imagem que as costas dele ofereciam. Ia com a cabea erguida, as costas direitas 
e os ombros fortes e amplos. 
     Era como se um alicate oprimisse o seu corao. Os seus piores temores tinham-se tornado realidade. Queria chorar de desespero, implorar-lhe para que ficasse. 
Mas tratava-se da honra e do orgulho... e no apenas o dele, mas o dela tambm. Conseguia ser corajosa, to corajosa como ele. Seria corajosa.
     Conteve um soluo e abriu a porta de um s estico.
     - Dane!
     Ele virou-se e, ao v-la sair, deteve-se antes da casa seguinte. Julianna correu para junto dele e atirou-se nos braos dele. Ento, levantou o rosto.
     - Tem cuidado - chorou. - Tem cuidado e volta para mim!
     Dane reteve a respirao... e reteva-a a ela contra o seu peito. Tinha os olhos escuros. Apertou-a com fora entre os seus braos.
     Baixou a boca para encontrar a dela, impetuoso. Ela devolveu-lhe o beijo no meio da rua... onde Londres inteiro podia v-los. Importaria que o mundo os visse?
     
     Ia ser, sem dvida, a noite mais longa da sua vida.
     No tinham passado dez minutos desde que Dane partira, e ela no conseguia deixar de andar de um lado para o outro da sala, diante da chamin.
     Doa-lhe o estmago. Como conseguiria aguentar aquela espera? Esperar e preocupar-se sem saber de nada? Como conseguiria aguentar, sabendo que ele estava em 
perigo? Que ele poderia...
     No meio daqueles pensamentos, algum bateu  porta. a senhora MacArthur saiu apressadamente com a intanao de a abrir.
     Ela sentiu um calafrio.
     - Espera! - Julianna quase deu um grito. Apanhou uma floreira na mesa da entrada e, com um salto, colocou-se ao lado da porta.
     Algum continuava a bater  porta:
     - Ol! - gritou um homem. - H algum ai?
     A boca da senhora MacArthur formou um pequeno "o" de surpresa, mas recomps-se quase de imediato. Julianna fez um sinal com a cabea para que abrisse a porta.
     Abriu-se de par em par, pelo que o homem que estava na rua conseguiu v-la antes de entrar.
     - Pelo amor de Deus, no aconteceu nada! O meu nome  Phillip Talbot e trabalho para o Ministrio do Interior.
     Phillip, o companheiro de Dane. Julianna respirou aliviada e baixou a floreira. Percebeu que estava a tremer. A tremer!
     - Tenho de falar com Dane. Ele est aqui?
     Ela abriu a boca.
     - No - hesitou, - ele... j saiu.
     Phillip compreendeu.
     - Maldio, era o que eu temia!
     Um frio glido entrou-lhe pelas veias.
     - H alguma coisa errada, no h?
     - H um passageiro na carruagem, um homem que espera apanh-lo...
     - Roxbury? - Exclamou.
     Phillip examinou-a com o olhar.
     - Eu sabia - gritou ela. - Eu sabia!
     - Ele leva uma arma. - Disse Phillip secamente. - Vai  procura do Urraca. Se Dane parar a carruagem, est bem preparado.
     Aquilo era tudo o que precisava de ouvir. De repente, teve uma premonio horrvel. Um medo glido percorreu as suas costas, um medo que no se parecia com 
nada que conhecesse.
     Phillip encaminhou-se para a porta. Julianna agarrou-o pelo brao.
     - espere! Para onde vai?
     Phillip abanou a cabea.
     - Dane vai precisar de ajuda. Vou procurar um cavalo e alguns homens.
     Nem se deu conta da sua partida. Ficou em p na parte superior das escadas da entrada, imvel, com a mente ausente. Dane estava em perigo. Roxbury queria mat-lo. 
     No podia permitir que isso acontecesse. No o faria!
     
     Depois de comprar o bilhete na bilheteira, Julianna caminhou pelo cho empedrado da pousada e dirigiu-se  carruagem. Vrios rapazes acabavam de colocar os 
arneses aos cavalos. Outro mantinha a porta aberta para que Julianna entrasse no interior.
     O homem do culo j estava la dentro: era Roxbury.
     Com a pulasaao acelerada, Julianna sentou-se com as costas viradas para os cavalos. Maldio! Teria sido melhor sentar-se de frente para eles, para poder ver 
o que se aproximava.
     Mas tambm queria poder ver Roxbury.
     O homem no era como ela tinha imaginado. Era alto, quase com uma aparncia distinta, embora o casaco que trazia estivesse em mau estado. Mas conseguia imagin-lo 
numa mesa de juzes, porque havia nele um ar autoritrio. Pensou que devia rondar os quarenta anos.
     Um som metlico de esporas chegou aos seus ouvidos.
     - Todos a bordo! - Gritou uma voz.
     - Espere! - Gritou uma voz infantil feminina. - No se v embora ainda!
     Uma criana subiu para o interior, seguida da sua me. Julianna afastou-se para um lado para dar lugar s recm chegadas. Queria avis-las para que no viajassem 
naquela noite, mas no se atreveu.
     O veculo afundou-se com o peso quando o condutor subiu para a cabine. As portas da pousada que davam para o jardim estavam abertas. O condutor afrouxou as 
rdeas e utilizou o chicote para colocar em marcha o veculo. A pequena ficou a olhar para Julianna. Por baixo da aba do seu pequeno chapu, viam-se uns brilhantes 
olhos castanhos.
     - Eu chamo-me Annabelle - anunciou alegremente. O seu rosto de diabrete ligava perfeitamente com a voz risonha.
     Julianna no lhe deu mais de seis anos. Devolveu-lhe o sorriso.
     - Ol, Annabelle.
     - Vamos ver a irm da minha mam. A minha tia Prudence.
     A me deixou escapar um sorriso de desculpa.
     - Vai ter que a perdoar. A Annabelle  uma conversadora incansvel.
     - No me importo - disse Julianna docemente.
     A menina olhava agora com ateno para Roxbury... e Julianna tambm. O homem no deu sinais de as ter visto ou ouvido. A sua expresso era distante, com o olhar 
fixo no caminho.
     Julianna agarrou-se ao punho para no cair numa curva e no muito depois comearam a ganhar velocidade. A cidade ficou para trs.
     Era estranho, era como da outra vez...
     A escurido envolvia tudo. Deparou-se a inspeccionar o exterior atravs da janela, procurando ansiosa entre as sombras do caminho, tentando ver alguma coisa 
atrs de cada rvore e arbusto. Cada segundo parecia um ano.
     E ento aconteceu.
     A carruagem parou depois de uma curva. E o chiar das rodas. E como da outra vez, Julianna no conseguiu evitar cair ao cho. Mas desta vez conseguiu no bater 
com a cabea. Tacteou pelos almofades e estava prestes a pr-se de p, quando ouviu o som de vozes masculinas que vinham de fora.
     Algum abriu a porta com fora. Deparou-se com o brilho de duas pistolas. Engolindo em seco, levantou os olhos para o homem que as agarrava.
      Vestia todo de negro, desde a envolvente capa at ao leno que obscurecia metade do seu rosto. Usava uma mscara de seda atada aos olhos, que eram a nica 
parte visvel do seu rosto. At na escurido no havia forma de se confundir a cor. Brilhavam como um fogo dourado e cintilante...
     Os olhos do seu amante.
     Uma corrente de ar frio da noite entrou no carro. Conhecia aquela voz, conhecia-a to bem... suava e por sua vez to potente, como o ao que rasga a seda.
     Ficou com pele de galinha. No se conseguia mexer. Muito menos falar. Nem conseguia engolir o n que bloqueava a sua garganta. O medo atordoava a sua mente, 
secava-lhe a boca como nunca o fizera antes.
     Mas desta vez no tinha medo dele, mas da sua segurana.
     
     Dane conduziu Percival por entre a erva e o arbustos que rodeavam o caminho, e disps-se a espera ali. Como sempre, Percival sentai a carruagem ante que Dane 
ouvisse o som das rodas ao longe. O animal esticou as orelhas e Dane agarrou as rdeas com fora. Ajustou a mascar e baixou a aba do chapu para cubrir a cara. Quando 
chegou o momento, o seu tiro ressoou no meio do sossego da noite.
     - Mos para cima!
     Saltou de Percival e tocou o solo.
     - Atire os mosquetes e as armas que tiver ao cho - oedenou ao condutor, - e depois levante as mos... mais para cima.
     O condutor, assustado e a tremar, fez o que lhe pediram. Dane revistou a mala. Maldio, no havia sacos! Apressou-se a abrir a porta do carro.
     - Desam da, se tiverem a amabilidade.
     Trs figuras foram bruscamente empurradas para fora por algum dentro do carro. Uma mulher, uma me e uma menina. Ficou perplexo ao v-las, e depois retrocedeu 
a cambalear.
     Era como se o corao tivesse parado naquele momento. Julianna! Que raio estava ela a fazer ali?
     Tinha os olhos cravados nele, e a expresso dela era estranha, com os olhos escuros e dilatados. Como se estivesse desesperada. Como se lhe suplicasse alguma 
coisa. Como se implorasse...
     Ento apareceu outra figura.
     Roxbury!
     Na mo tinha uma pistola... levantada mesmo ao peito de Dane.
     Roxbury sorriu.
     - O Urraca - disse lentamente. - Ah, no sabe o quanto ansiava conhec-lo!
     No momento em que os passageiros saram do veculo, o aterrorizado condutor agarrou nas rdeas. Com um som do chicote, a carruagem desapareceu pela curva.
     A cara de Roxbury contraiu-se de raiva. Umas palavras de dio enraiveceram o ar. Depois, gritou para as trs mulheres.
     - Fiquem onde esto! Impecilhos!
     Dane deixou escapar uma gargalhada.
     - Ora, ora, Roxbury, o condutor no podia, pelo menos, deixar os teus pertences?
     A expresso de Roxbury era de total surpresa.
     - Quem s tu?- perguntou. - Cobarde, mostra a cara!
     Dane tirou a mscara.
     Os lbios de Roxbury tremeram.
     - Granville! - Grunhiu. - Ento eras tu!
     Dane sorriu duramente.
     - Pareces surpreendido. Mas apanhmos-te, Roxbury. At o Primeiro-ministro sabe o que est a acontecer.
     - Os Boswell, suponho. - Roxbury pareca amargurado.
     - Sim. Ela ouviu-te a falar com o marido. Sabamos que algum do departamento estava implicado. Sabamos como se estava a transportar a mercadoria, s nos faltava 
saber o nome do responsvel.
     - Aquela infeliz... ento, o teu disfarce de bandido... os roubos... tudo no passava de uma farsa, suponho. Um plano concebido por Talbot e por ti para poderem 
fazer as vossas investigaes?
     Separava-os uma distncia de dez passos. A luz da lua iluminava as armas. As trs mulheres permaneciam imveis,  direita de Dane e  esquerda de Roxbury.
     - O que no entendo  porqu, Roxbury. Porque te prestas a um delito de falsificao?
     Roxbury tocou na pala.
     - Nelson conseguiu pelo menos um ttulo e a gloria. Eu no tive tanta sorte. Fui despedido e mandado para casa. No entanto, nunca foi uma questo de lealdade 
ao rei e  coroa.
     - Ento foi porqu?
     - Ah, vamos. Pensa um pouco! Eu no venho de uma famlia como a tua!
     Dane revirou os olhos.
     - O que queres dizer com isso?
     O sorriso de Roxbury era repugnante.
     - Tiveste-o diante do teu nariz, homem. Diante dos teu olhos. Est diante dos olhos de todos e ningum suspeitou de nada
     Algo passou pela cabea de Dane. "Estive  procura entre os que pareciam ter ganho muito dinheiro ultimamente - dissera Phillip. - Entre os que pareciam vestir-se 
melhor. Entre os que pudessem ter feito compras estravagantes nos ltimos anos."
     Ento percebeu.
     - A estatua do teu escritrio. - De repente, tudo parecia encaixar. - Onde a conseguiste?
     - Um velho amigo de Frana, que conhece bem o assistente de um museu e que, como eu, no hesita em arranjar dinheiro extra, ou melhor dizendo, til.
     - Daphne Sterling - disse Dane sem se alterar.
     Roxbury revirou os olhos.
     - Bom, parece que tenho de te mais crdito do que pensava. Mas creio que a coroa agradecer que lhes entregue o Urraca.
     - Vo encontrar-te, tenho a certeza de que sabes disso.
     - Posso tratar das testemunhas. Talvez o Talbot consiga deparar-se com um acidente, como aconteceu com os Boswell. E agora, chega de conversa, Granville. Atira 
as armas ao cho.
     Os olhos de Dane brilharam.
     - Creio que no.
     Roxbury moveu-se antes que Dane pudesse det-lo. Antes que pudesse disparar.
     Agarrou na menina e tapou o peito com ela.
     O canho da pistola descansava agora na testa da pequena criana.
     A me dela gritou.
     - Annabelle! - A menina comeou a chorar.
     Roxbury fixou o olhar em Dane.
     - Faz o que te disse! - Roncou.
     A raiva e o medo apoderaram-s de Dane. Queria lanar-se ao pescoo de Roxbury, embora o medo lhe desse vontade de vomitar.
     - Est bem! Est bem! - Lentamente, deixou de lado as pistolas, primeiro uma, depois a outra. - Deixa a menina ir embora.
     Roxbury libertou a pequema. Chorando, a me correu para ela e agarrou-a nos seus braos. Julianna permanecia imvel. Dane conseguia sentir o terror dela. Disse 
com tristeza:
     - s realmente um monstro, Roxbury? Se me vais matar, no o faas  frente delas. F-lo noutro sitio.
     - Como queiras. - Roxbury mostrou-se condescendente. - Respeitarei a sensibilidade das senhoras. - Desviou o olhar para o bosque de olmos onde Percival estava 
 espera preso numa rvore. - Ali, atrs daquelas rvores, perto do teu cavalo. No me vires as costas e caminha.
     Dane olhou um momento para Julianna. Por uma fraco de segundo, os seus olhos encontraram-se. Os dela estavam dilatados, parecia aterrada e meio louca. Com 
as mos no ar, Dane comeou a andar para trs.
     -  o suficiente - rugiu Roxbury.
     A lua apareceu no meio das nuvens e brilhou resplandecente iluminando o lugar que os rodeava.
     Roxbury sorriu. Acariciou o gatilho com a ponta do dedo. O seu tom de voz era fraco.
     - Espero que saibas que isto me vai dar um grande prazer.
     Roxbury nunca viu a sombra que se aproximava por trs. Dane centrou-se num punho por trs do ombro de Roxbury, com um movimento quase imperceptvel nos olhos.
     - Dispara - disse suavemente. - Dispara!
      
     
Captulo 21
     No era o momento de pensar muito. Tambm no era o momento de ter medo. No podia hesitar: nem com a sua cabea, nem com o corao...
     O canho da pistola espalhou uma nuvem de fumo branco e de fascas. Um rugido aterrador rompeu a tranquilidade da noite, um som que se repetiu como um eco entre 
a copa das rvores. Depois, houve uma nuvem de fumo que envolveu tudo.
     Roxbury caiu para trs sem um som.
     Dane ajoelhou-se ao seu lado, tentando encontrar-lhe o pulso. Depois, levantou-se satisfeito.
     A Julianna tremiam-lhe as pernas. Teria cado se ele no a tivesse segurado e apoiado contra o seu peito. A voz de Dane era como um murmrio de gua na sua 
frente.
     - Tem calma, j acabou tudo.
     Julianna no conseguia afastar os olhos de Roxbury.
     - Est...?
     - Sim. E tu, gatinha, como ests? Ests bem?
     Ela concordou inquieta.
     - Meu Deus - disse enjoada. - Meu Deus, Dane. - Levantou a mo e tocou na face dele. - Ele ia disparar... ter-te-ia... - no conseguiu dizer mais nada. No 
conseguia dizer em voz alta. Sentia calafrios.
     Ele acariciou-lhe a cabea com a mo. Tinha o cabelo despenteado. Com os dedos, Dane comeou a pentear suavemente aquela massa envolvente de cabelo castanho.
     - Minha valente menina - sussurrou ele.
     Ela fundiu-se nos braos dele. Dane apertou-a com fora, num abrao que era ao mesmo tranquilizador e desesperado. Com os olhos fechados, Julianna procurou 
o calor que s podia encontrar nas carcias dele.
     
     O ritmo sonoro de cascos f-lo levantar o olhar. Phillip e dois homens aproximavam-se a cavalo.
     - Ouvi o tiro - disse Phillip, enquanto descia do cavalo. - H algum ferido?
     - No - murmurou Dane, - mas h uma mulher e uma criana. Algum divia ir ver como esto.
     Phillip fez um sinal a um dos seus homens.
     - Devia ter imaginado que perderia o mais interessante! - Phillip olhou para o corpo de Roxbury e assobiou. - Bom tiro, meu amigo.
     - No - disse Dane com uma sobrancelha arqueada, - no fui eu.
     Retrodedeu e olhou para Julianna.
     Phillip moveu a cabea.
     - Um tiro impecvel. Achas que a conseguimos convencer para ser uma de ns?
     O seu amigo apressou-se a censur-lo com o olhar.
     Phillip suspirou.
     - Acho que no.
     Dane segurou Julianna pelos ombros.
     - Julianna - disse com voz severa, - embora te agradea por me teres salvo a vida, gostava de saber o estavas tu a fazer na carruagem.
     Julianna mordeu o lbio e desviou o olhar para Phillip.
     Dane olhou para ele admirado. Os olhos desviaram-se de um para o outro.
     Phikkip esclareceu a garganta.
     -  uma longa historia. Mas h uma mulher fechada no meu escritrio com um empregado a vigi-la. - Deteve-se. - Creio que devias conhec-la.
     
     A noite ainda no tinha acabado.
     Julianna sentou-se num banco do estreito corredor do Ministrio. Sebastian e Justin tambm estavam l; Sebastian no final do banco e Justin com o ombro apoiado 
na parede. Tinham sido chamados na precipitao dos acontecimentos. Uma hora antes, Dane, Phillip e outro homem alto e austero chamado Barbaby estavam do outro lado 
da diviso prxima.
     Os trs sabiam bem o que estava a acontecer naquela diviso. Era impossvel no perceber a incerteza que se respirava. No era tenso, decidiu Julianna, era 
sobretudo... expectativa. A me deles estava naquela diviso. A me que no viam e da qual no sabiam nada h vinte e quatro anos. Mas de momento, tinham que esperar.
     A porta abriu-se com um rangido. Phillip saiu com um sorriso nos lbios, seguido do senhor Barnaby. Dane saiu em ultimo.
     Enquanto os dois homens se colocaram no fim do vestbulo, Dane situou-se ao lado dos Sterling. Justin voltou-se para lhe ver a cara. Sebastian e Julianna levantaram-se.
     A indeciso de Dane era evidente.
     - Por favor, no tente ser amvel - disse Justin com um sorriso nervoso. - a verdade  sempre o melhor.
     - Aparentemente, ela sabia do plano de falsificao de Roxbury. Por essa razo, todas as culpas que se imputarem sero srias. No entanto, o facto de ter vindo 
denunciar os factos,  a favor dela.
     - Ela sabe que estamos aqui? - Perguntou
     - Sabe.
     - Gostvamos de a ver.
     Dane concordou.
     - Na ralidade, ela pediu para vos ver. Mas acho que tm apenas uns minutos antes de Barnaby a vir buscar.
     Dane abriu a porta e Sebastian entrou. Julianna seguiu-o.
     Justin foi o ultimo a entrar.
     Estava senatda junto de uma pequena mesa, com as mos finamente enluvadas sobre o seu colo. Apesar de parecer pequena e delicada, havia uma astcia nos seus 
olhos verdes que atraioava a esperteza que tinha ganho em todas as suas viagens.
     A diviso estava em silncio, um silncio que parecia que ia durar para sempre.
     Foi Dapnhe a primeira a romp-lo
     - Bem - disse insegura. - Isto  muito estranho, no ? Claro que eu nunca imaginei que os voltaria a ver, tendo em conta as circunstncias.
     - Imagino que no pensavas ver-nos sob qualquer circunstncia - disse Sebastian com altivez. O seu comentrio no era para ser ofensivo. Era a constatao de 
um facto
     - No - disse ela, elevando as cobrancelhas. - Francamente, no pensava.
     Pelo menos, era honesta.
     - Vejo que esto muito bem. Os trs.
     Foi Justin quem fez a pergunta que todos tinham na cabea.
     - Pensmos que estavas morta. Todos estes anos... porque  que nunca regressaste?
     O sorriso dela evaporou-se.
     - No podia! Nunca mais! No  que no tenha pensado em vocs. Mas o vosso pai e eu... bom, ele abafava-me. E eu... sou o que sou. Foi o que eu descobri. No 
sou perfeita, mas ele nunca me teria aceitado. Destromo-nos um ao outro. E depois de me ir embora... depois de o ter feito, era impossvel voltar atrs. James 
Roxbury entendia-me como o teu pai nunca o fez. Ele amava a vida como eu. Mas quando se afogou... foi a oportunidade de comear uma nova vida, para comear o que 
era para sempre. No podia voltar. No podia olhar para trs. E fi-lo. Sim, havia alturas em que vos queria ver, alturas em que me perguntava... mas sabia que os 
trs conseguiriam ir em frente. Tinham amas que cuidavam de vocs, tinham-se uns aos outros. Mas eu no tinha ningum. E tive que refazer a minha vida. Se queria 
ser feliz, tinha que conseguir por mim prpria.
     Sem saber porqu, Sebastian compreendia-a. Talvez fosse porque era o mais velho e tinha-a conhecido como era: uma criatura bela e frvola. No viu as sombras 
que atravessaram a expresso de Justin. Tinha a cabea baixa, mas de repente, levantou-a.
     - Espera - disse ele, em voz muito baixa. - No pensava nisto h muito tempo, mas agora que ests aqui... tenho uma pergunta que apenas tu podes responder.
     Ela olhou para ele com a cabea inclinada.
     - No  nenhum segredo que houve outros homens na tua vida. James Roxbury, o homem com quem te casaste em Frana e outros antes dele, suponho.
     Ela no confirmou nem negou nada.
     A voz de Justin era forada.
     - Na noite que o pap morreu, eu meti-me com ele dizendo-lhe como a sua esposa o tinha deixado para fugir com o amante. Disse-lhe que talvez ele nem fosse meu 
pai, nem o pai de nenhum de ns. E que, no entanto, estava obrigado a cuidar de nos pela vida toda, sem saber se ramos dele. Disse-lhe que nos culpava porque, simplesmente, 
ele no sabia.
     - Seria? - Um leve sorriso desenhou-se no rosto dela. - Sempre to estpido, no?
     Sebastian dirigiu um olhar glido a Justin. Julianna conteve a respirao.
     - Era? - Continuou Justin. - William Sterling era o nosso pai? Ou  possvel que no sejamos dele? Nenhum de ns... todos ns, um...
     Houve uma pancada saca na porta. Abriu-se e um guarda de rosto severo entrou no escritrio.
     - Est na hora - anunciou, e agarrou-a por um brao.
     Justin olhou para ela enquanto se levantava. Olhou fixamente para ela.
     - Tu por acaso sabes? - Perguntou em voz baixa.
     Ela j estava na porta. A sua expresso continha um curioso ar inesperado ao voltar o rosto para ele por cima do ombro. Ento, algo se incendiou naqueles olhos 
esmeralda to parecidos com os dele.
     - Justin...
     - Vai ter de esperar. - O guarda olhou para ele. - O senhor Barnaby quer que a leve perante o juiz precisamente neste momento.
     Viu-se obrigada a separar o olhar que a unia a Justin. Despediu-se dos trs.
     - Adieu, meus pequenos. Adieu.
     Talvez fosse o estado de perturbao em que se encontaram pelo que acabava de acontecer... a verdade  que apenas puderam ver como a me desaparecia da vista 
deles...
     Quando Dane apareceu - tinha estado  espera todo este com Phillip no corredor, - Julianna no conseguiu evitar olhar para ele com os olhos azuis dilatados.
     - Dane - disse desesperada, - o que lhe vai acontecer?
     Ele acariciou-lhe o cotovelo com a mo.
     - No h nada que possam fazer neste momento. Vo para casa, descansem... e esperem l ate eu regressar.
     A verdade  que Dane tinha um grande domnio sobre a situao...
     E faria tudo o que estivesse na sua mo.
     Pelo menos, tudo o que se pudesse fazer.
     
     
      Captulo 22
     
     
     Tardiamente, na manh seguinte, Sebastian subia as escadas da entrada de Julianna. Justin seguiu-o pouco tempo depois. Os dois tinham tomado banho e mudado 
de roupa. A senhora MacArthur servira um leve pequeno-almoo na sala. Aparentemente, ningum tinha muita fome, e no demorou muito tempo para passarem para o salo. 
Embora nenhum dos trs tivesse falado muito, justin permanecera particularmente calado. Julianna sentou-se junto de Sebastian e respirou fundo.
     - Bem - disse ela, - est na hora de falarmos sobre a mam, no acham? Acho que no fim acabou por ser uma situao muito desagradvel.
     - Tenho medo que o nome da famlia volte a ser o centro dos cochichos da cidade. - Sebastian tinha uma expresso perturbada. - Devemos enfrentar a possibilidade 
da nossa me ser encarcerada. Honestamente, no consigo imaginar como poder sobreviver ali. Mas creio que deveramos dar-lhe o nosso apoio para garantirmos de que 
a defendem bem.
     Julianna brincou com a chvena de ch.
     - Acho que tens razo. Embora ela nos tenha abandonado, no acho que devamos fazer o mesmo, muito menos num momento destes.
     Sebastian olhou para Justin.
     - Concordas connosco?
     Pela primeira vez naquela manh, um sincero sorriso saiu dos lbios de Justin.
     - Desculpem, achavam que no estaria? Ela continua a ser a minha me.
     - Para te ser sincero, Justin, no tinha a certeza - admitiu Sebastian. - A mam sempre foi muito teimosa, to obstinadamente impulsiva. E o pap era... impossvel, 
no era? No pretendo desculp-la do que fez, mas ela s queria que a adorassem, que a admirassem. Acho que os amava  sua maneira. E talvez seja um estpido, mas 
deixei de a julgar h uns anos. De alguma forma, apesar de tudo o que nos fez, creio agora que no e nenhum demnio.
     Justin abanou a cabea.
     - No s nenhum estpido, Sebastian. s... numa frase: o melhor homem que conheo. 
     Sebastian riu-se com uma espcie de esgar.
     - Obrigado. - O seu sorriso desvaneceu-se ao olhar para o irmo. - Posso perguntar-te uma coisa?
     - Claro.
     - O que disseste  mam. Sobre o pap. Sempre soube que tinha acontecido alguma coisa... mas no tinha a certeza - observou-o atentamente. - Estavas l na noite 
em que morreu, no estavas?
     - Estava com ele quando morreu.
     Sebastian estava perplexo.
     - Porque  que no disseste nada?
     - Culpei-me durante muito tempo da sua morte, Sebastian. Durante anos. De facto, at me ter casado com Arabella. Estava envergonhado. - Deixou descansar as 
mos nos joelhos, entrelaadas. - Era jovem, e era indomvel. E tivemos aquela horrvel discusso.
     - Sobre a mam?
     - Sim.
     - Sempre soube que foste o que mais sofreu quando a mam partiu - disse Sebastian carinhosamente. - Mas nunca o demonstraste.
     - at quela noite - confessou-lhe, em voz baixa, - nunca tinha duvidado do que nos tinham dito: que a mam no tinha sido infiel at ao nascimento de Julianna. 
At que crescemos... mas depois daquela noite com o pap - uma sombra enevoou a sua expresso, - perguntava-me se seria verdade. Foi-lhe infiel antes de ns nascermos? 
O pap odiava-me porque me parecia tanto com a mam? Ou porque talvez apesar de tudo no fosse meu pai?
     Ouvindo-o, Julianna comeou a sentir-se mal.
     - Justin - disse amavelmente, - ele no te odiava. Castigava-nos porque no podia castig-la a ela. Simplesmente no sabia como amar.
     - A vida dele estava consumida pela amargura - acrescentou Sebastian, - pelo compromisso. Creio que ele, na verdade, no sabia como ser feliz.
     A expresso de Justin ficou pensativa.
     - Talvez tenham razo. Talvez fosse isso o que acontecia.
     Ficaram em silncio durante um momento, tentando pr em ordem o remoinho de emoes que tinham sofrido nos ltimos dias. Ordenando os seus prprios pensamentos 
e recordaes.
     Ento, algum bateu  porta.
     Julianna levantou-se imediatamente.
     -  o Dane - disse ansiosamente.
     E de facto era. Entrou dando grandes passos no salo.
     - Bom - disse tranquilamente. - Tudo arranjado. No que diz respeito  situao da vossa me est... resolvida.
     Julianna no afastava os olhos dele.
     - O que aconteceu? - Perguntou. - O Barnaby decidiu retirar as acusaes?
     - No exactamente.
     Sebastian olhou para os irmos e depois para Dane.
     - Ento o que foi... exactamente?
     Dane escolheu as palavras cuidadosamente.
     - Como  que posso dizer...? Convenci o guarda para que me deixasse escolt-la at ao juizado. No caminho houve...
     - O que ests a dizer?
     - O que estou a dizer  isto. Se me perguntarem, responderei que a vossa me  uma mulher de recursos. Enquanto a acompanhava, foi capaz de iludir a minha vigilncia 
e... escapar. Foi muito estranho, na verdade. Num minuto estava ali, no seguinte j no estava. - Calou-se. - Se me perguntarem, claro.
     Durante a sua explicao, Dane foi observando um a um nos olhos. Julianna olhava para ele boqueaberta, assim como os irmaos. "desapareceu - tinha dito Dane 
- tinha desaparecido."
     Julianna colocou a chvena de ch de lado.
     - Deus santo - ela parecia preocupada, - ests a dizer que...
     - Posso at dizer que, sem duvida nenhuma, j vai a caminho de Frana.
     Tinha-a deixado escapar. No, mais do que isso, percebeu Julianna. Tinha-a ajudado a faz-lo. Tinha deixado que se fosse embora. De alguma forma, tinha-a ajudado 
a fugir.
     Ficou claro - embora no pela palavras que tinha dito, - mas sim pelo verdadeiro significado que tinham.
     E ao salv-la, tinha-os salvado a todos eles: a ela, a Justin e a Sebastian.
     Ai, Deus, como o amava!
     - Nunca poder voltar a Inglaterra, pois no? - Perguntou Julianna.
     - No. - Dane falava muito devagar. - Seria certamente presa e acusada de cumplicidade. E quando fosse julgada, descobrir-se-ia tambm a sua bigamia. Mas tenho 
de vos esclarecer uma coisa... o que aconteceu com Nigel Roxbury no sair do gabinete do Primeiro-ministro nem do Ministrio do Interior. Ningum tem de saber o 
que aconteceu com ele... nem o que aconteceu com a vossa me.
     - Ento, para o todos - disse Sebastian, -  Daphne Sterling continua a estar morta.
     Dane manteve o olhar no dele.
     - Sim. Ningum tem se saber do contrrio.
     - Estamos-lhe muito agradecidos - disse Sebastian com uma vnia.
     Julianna inclinou a cabea e olhou para os irmos.
     - No voltaremos a v-la, sabem? - Murmurou ela.
     - No - concordou Sebastian, - mas no importa. Ela ficar bem - sorriu. - creio que a mam deixou bem claro que  capaz de se cuidar de si prpria.
     Julianna virou-se para Justin. Estava sentado na beira do sof. Com um dos pulsos apoiado no joelho. No tinha dito uma palavra desde que Dane entrara. As feies 
dele, era metade de dor, metade de alivio...
     Julianna estendeu secretamente a mo entre a de Dane. Ele apertou-a com fora, mas sem olhar para ela.
     Dane esclareceu a garganta.
     - Ela pediu-me que vos desse isto. - Meteu a mo no bolso do seu casaco e tirou um envelope cuidadosamente selado. - Pediu-me que vos dissesse que esta carta 
era para os trs - olhou para Justin, - mas que Justin poderia l-la primeiro.
     Dane caminhou para a porta.
     - Deixo-vos sozinhos, creio que isto  um assunto de famlia.
     Em silncio, saiu da diviso.
     Justin tinha aceitado a carta com expresso preocupada, quase como se tivesse medo de a agarrar.
     Levantou os olhos em direco ao irmos.
     - Meu Deus - disse com uma voz estranha. - Sabem o que  isto, no sabem?
     Julianna mordeu o lbio. De repente, doa-lhe a garganta. Aquilo era to estranho em Justin, ele estava sempre to seguro de si prprio... nunca o tinha visto 
to vulnervel! E por alguma razo, v-lo assim partia-lhe o corao.
     - Parece que apesar de tudo vais ter a tua resposta. - O tom de voz de Sebastian era afvel, a sua pose, relaxada enquanto apoiava um ombro nas costas da cadeira.
      Justin olhou para ele.
     - Sebastian? No queres saber? No queres saber a verdade acerca dos nossos pais? Do pap?
     Sebastian encolheu os ombros.
     Justin voltou os olhos para Julianna.
     Ela abanou levemente a cabea.
     - Justin - disse ternamente - no se trata de querermos saber. Trata-se de se tu queres saber
     Justin levantou-se com pesar, com a carta nas mos.
     - Diabo - disse quase com um rugido. - Diabo! Pensava que era isto que queria. Pensava...
     Antes de se aperceber, estava de p diante da chamin. Engoliu em seco. Com a cabea baixa, olhou com raiva o selo de cera que fechava a carta.
     Ficou tudo em silncio.
     Tanto Sebastian como Julianna sabiam exactamente o que Justin estava  procura. O que esperava. Tentava encontrar um sentido mais profundo do seu corao... 
da sua alma.
      procura de uma resposta que s ele podia encontrar.
     Os irmos esperaram... dir-se-ia que uma eternidade!
     Virando-se, Justin ps-se de ccoras. Suavemente, colocou a ponta do pergaminho no lume, observando com o fogo devorava o papel, primeiro lentamente, e depois 
com chamas altas e brilhantes.
     Umas lgrimas caram pelas faces de Julianna. Com um n na garganta, limpou-as com as costas da mo.
     Quando a carta desapareceu, Justin deu meia volta.
     - Ela tinha razo - disse em voz muito baixa, - a mam tinha razo. Tnhamo-nos uns aos outros, no era? Creio que no tinha pensado dessa forma at agora... 
mas somos mais fortes, os trs, porque ela fugiu. Graas a isso estamos mais unidos, porque s nos tnhamos a ns prprios. Deus, no me posso queixar por isso. 
E o contedo da carta, fosse qual fosse, nunca podia ter mudado o que sinto por vocs os dois.
     Olhou para Juliannna com os brilhantes olhos verdes.
     - Adoro-te, Jules. - e olhou depois para Sebastian. - E a ti, irmo.
     A sua voz era sria, mas estava a sorrir, um sorriso que tocou o corao de Julianna. E ento, ela no conseguiu evitar. Um som angustiado saiu da sua garganta 
at que o pranto foi incontrolado e a emoo intensa demais para a conter.
     Os irmos cercaram-na imediatamente, Justin  direita e Sebastian  esquerda. Justin rodeou-a com um brao.
     - Jules, no chores! Est tudo bem, melhor do que alguma vez esteve.
     - Eu sei, eu sei.  precisamente por isso, no percebes? Estas so lgrimas de felicidade! - Sussurou.
     Quando levantou a cabea, os seus olhos estavam enevoados... assim como os de Sebastian.
     Ficaram de p formando um crculo. Um circulo de unio... um circulo de amor.
     Foi Justin o primeiro a rir baixinho.
     - E agora, acho que me devo ir embora. De repente, sinto uma grande necessidade de ir para casa e abraar a minha mulher e a minha filha.
     - Eu estava a pensar no mesmo - murmurou Sebastian.
     Na porta, Justin arqueou uma sobrancelha.
     - Jantamos amanh? - Perguntou. - Em Sevenish?
     Sebastian inclinou a cabea.
     - Excelente ideia.
     Justin deu um olhar para Dane, que tinha aparecido no salo ao ouvir os soluos de Julianna. Ao verificar que a situao estava sob controlo e que no precisavam 
da sua presena, tinha regressado  outra sala. Mas ao ouvir que os trs saam, deteve-se.
     Julianna j tinha cruzado o corredor e tinha-o agarrado pelo brao.
     Justin dirigiu-se a Dane.
     - Tambm vem, no  verdade? Est na hora de conhecer o resto da famlia.
     - Mas tenha cuidado - avisou-o Sebastian - com os trs pequenos. conseguem ser muito barulhentos.
     Dane tinha entrelaado os seus dedos com os de Julianna. Agora perguntava-lhe em silncio com o olhar.
     Justin e Sebastian olharam-se, tentando conter um sorriso. Os dois sabiam perfeitamente o que significava aquele olhar. Dane j agia como um marido!
     Julianna concordou levemente.
     - Ficarei encantado por ir - disse Dane alegremente.
     Quando finalmente ficaram sozinhos, Dane agarrou-a e colocou-a diante dele. Com o polegar, desenhou a curvas de uma das suas sobrancelhas.
     - Ests bem?
     - Estou.
     O olhar dele torno-se mais intenso.
     - Tens a certeza?
     - Nunca tive tanta certeza em toda a minha vida - sussurrou, - Dane... o que fizeste pela minha me... no sei como te poderei agradecer...
     Dane calou-a colocando um dedo nos lbios. Abanou a cabea.
     - Tinha que o fazer, gatinha. Tinha que o fazer. No sei se  culpada, no sou em quem a deve julgar, mas sem saber ao certo e deix-la ir a julgamento... no 
podia permitir. No podia permitir que a me da mulher que eu amo fosse para a priso. No seria correcto. So tinha uma oportunidade, gatinha. Eu era tudo o que 
ela tinha.
     O corao de Julianna deu um salto. Ali estava novamente. Tinha voltado a dizer. Ele amava-a.
     - S tenho pena que no se pudessem despedir dela.
     - Ah, mas ns despedimo-nos, Dane! Fizemos como se nos tivssemos despedido dela. Agora estamos em paz. Todos ns, e... e sem tristeza! - Colocou uma mo no 
peito dele. - E tu? o Barnaby no se aborrecer por a teres deixado escapar? No ameaar a tua reputao dentro do Ministrio?
     O rosto dele foi iluminado por um sorriso.
     - No.
     Julianna estava confusa.
     - Porque no?
     - Gatinha - disse ele, - o Urraca estava a cavalgar pela ultima vez. E quanto ao Ministrio do Interior... bom, esse  um captulo encerrado na minha vida, 
a partir de hoje.
     Ela no acreditava no que ouvia.
     - Dane - disse, ela abanando a cabea, - no tinhas que...
     - Sim, tinha que o fazer, e fi-lo. J tomei uma deciso. Pretendo dedicar-me por inteiro  minha mulher e aos meus filhos.
     - Ah, - disse ela brincalhona, - mas ainda no tens mulher nem filhos.
     - Ainda no - disse ele com uma careta infantil, - mas assim que tiver uma esposa, pressinto que os filhos viro depressa. Estou determinado a fazer todo o 
possvel para que assim seja.
     Os olhos dela brilharam.
     - Ai! - gritou Julianna. - Mas tens muita certeza!
     - E tu ainda tens que me dar uma resposta.
     - Queres dizer uma resposta que seja do teu agrado - brincou.
     -  verdade. Mas s aceito uma resposta.
     - E que resposta  essa?
     Ele olhava para ela daquela forma que a fazia arder por dentro. Apertou-a nos braos, at os seus ps se elevaram do cho. Os lbios cobrindo os dela.
     Dane reposndeu-lhe com outra pergunta. O seu olhar tornou-se profundo e intenso.
     - Tu amas-me, gatinha?
     No teve que pensar.
     - Amo - sussurrou. - Amo-te loucamente!
     - Ento, diz-me que sim, amor. Diz que casas comigo.
     - Sim - sussurou ela, - ah, sim, caso contigo...!
     O beijo dele foi doce e furioso ao mesmo tempo. Carregado de todo o amor que o seu corao continha. Julianna rodeou-o com os braos e pendurou-se nele.
     Mas, de repente, Dane retrocedeu com um sorriso.
     Um movimento que no agradou minimamente a Julianna.
     - O que foi? - Grunhiu. - O que aconteceu?
     - Quase me esqueci. Tenho uma coisa para te mostrar.
     Para surpresa dela, conduziu-a para o exterior e levou-a ao outro lado da praa. Julianna levantou o olhar para a impressionante casa de tijolos com colunas 
gregas na entrada. Era a sua casa, a que sempre tinha admirado ao longe. E agora ia ser finalmente sua. Embora isso no lhe importasse demasiado, pensou com um sorriso 
nos lbios. Tudo o que queria era que ele a agarrasse nos seus braos e a levasse pelas escadas, para sentir o pesso do seu corpo sobre ela e fazer amor...
     Mas ele no a levou para a porta. Nem a fez subir as escadas at ao quarto.
     Em vez disso, conduziu-a pela lateral da casa atravs de um lindo jardim, at ao estbulo da parte detrs. Entrou e Dane ficou atrs dela.
     Julianna pestanejou.
     Dane! O que...?
     Ele apontou para a esquina. Julianna olhou atnita. Ali, numa manta estendida no cho, havia um gato de plo castanho e de olhos verdes. Aninhados na sua barriga 
estavam trs pequenas bolinhas negras. Sentiu roar na perna. Julianna olhou para baixo.
     - Maximilian! s um bandido! - Com uma gargalhada, moveu os olhos de Maximilian at  gata canela.
     - Parece que Maximilian andou a vadiar por ai sem que eu soubesse - disse Dane.
     - Nunca tinha visto nada to maravilhoso - exclamou Julianna. - Sabes se so...?
     - Dois meninos e uma menina - informou ele, fazendo uma careta. - E ocorreu-me uma coisa.
     - O qu? - Julianna estendeu uma mo para a gata e a sua prole.
     - Talvez gostassem de estar em Somerset. No campo, onde podem correr e brincar. Podamos chamar-lhes...
     Julianna sobressaltou-se. Senhor, no era possvel que se lembrasse...
     - Alfred, Rebecca e Irwin - disse ele com ternura.
     Emocionada, incapaz de dizer o que fosse, Julianna atirou-se directamente nos seus braos.
     Dane acariciou-lhe a fina cabeleira de cor mel. F-la subir a cabea para lhe poder ver a cara.
     - O que achas? - Sussurou.
     Ela tentava conter as lgrimas... mas eram lgrimas de alegria, na verdade! Julianna sorriu.
     - Parece-me  - sussurrou ela - que te amarei eternamente.
     
     Foi muito mais tarde nessa noite quando Dane ouviu o eco de cascos na rua. Levantando-se, agarrou num robe e deu um beijo nos lbios da sua futura esposa, antes 
de sair para se reunir com Phillip.
     - Est tudo bem?
     - Sim - confirmou Phillip. - Daphne Sterling, ou a senhora Lemieux, como preferires, vai no barco a caminho de Frana pela segunda vez. E devo dizer que acompanh-la 
foi a coisa mais excitante que me aconteceu ultimamente.
     - Ento morres por um pouco de aventura, no ?
     Phillip apenas riu.
     - No  o que todos queremos?
     - Lembras-te quando disseste que gostavas de estar no meu lugar?
     - Sim.
     - Bem - disse Dane dem lhe dar importncia. - Espero que o tenhas dito sinceramente. - Meteu as mos nos bolsos e sorriu perante a expresso estranha de Phillip. 
- Porque te recomendei a Barnaby quando apresentei a minha demisso. Quer falar contigo amanh... ou melhor, hoje.
     Phillip no queria acreditar.
     - A srio?
     - Evidentemente.
     Phillip desatou a cantar de alegria.
     - Sou um agente secreto, um verdadeiro agente secreto!
     Dane abanou a cabea e desatou a rir.
     - Meu Deus, como  que pude? - Brincou ele. - Inglaterra estar segura novamente?
     - Ah! Mais segura do que nunca - concordou Phillip.
     - Ento, ests feliz?
     - Precisas de perguntar? Mas, e tu, Dane? Tens a certeza de que  isto que queres? No haver mais sadas secretas a meio da noite, nem mais reunies secretas.
     - Nem mais perigo.
     - Mas... que raio pensas fazer? Como vais preencher os teus dias e as tuas noites?
     Dane riu-se.
     - Ah, garanto-te que estarei a fazer algo muito mais excitante.
     - E que ?
     Dane sorriu.
     - A fazer pequenos Granvilles.
     
      
     Eplogo
     O casamento teve lugar um ms mais tarde de Saint George de Hannover Square, em circunstncias muito diferentes das que Julianna tinha vivido da ltima vez 
que ali estivera. No entanto, no houve memrias do passado, porque o seu corao estava demasiado ocupado no futuro.
     Entrou na igreja pelo brao de Sebastian, levando um ramo de lirios e rosas na mo. Gradualmente, os murmrios dos convidados foram desaparecendo  medida que 
a musica comeava a tocar. E quando chegou o momento em que teve que teve que avanar pelo corredor da igreja, todos os olhos se voltaram para ela... e os dela mantiveram-se 
sempre fixos no futuro marido, que a esperava no altar.
     Ele observava-a com ternura e completa devoo.
     Julianna pensou que no conseguiria conter as lgrimas, mas o que sentia era um n enorme na garganta. Os olhos dele eram to ternos que acreditou que se ia 
derreter. Mas quando deslizou a sua mo junto  dele, ouviram a duquesa viva de Carrington atrs deles, dizendo em voz alta como tinha sido ela que os unira.
     Claro que no houve uma alma em toda a igreja que no ouvisse o seu comentrio.
     Julianna reprimiu uma gargalhada. Olhou ento para Dane, que tambm tentava conter o riso. Foi um momento to mgico que sabia que o recordaria para o resto 
da sua vida.
     E no foi s isso.
     A sua sobrinha Sophie, que na tenra idade de dois anos tinha sido perdoada por se negar a atirar ptalas de rosa diante da noiva, lembrou-se de repente da cesta 
e atirou o seu contedo ao cho a meio da cerimnia. Como se estivesse sozinha na igreja, sentou-se, e depois comeou tranquilamente a brincar com ele.
     Em pouco tempo, o seu irmo Geoffrey juntou-se a ela.
     O pai suspirou. Tossiu levemente e ralhou com as crianas com o dedo quando olharam para ele. Geoffrey, sem mostrar o mnimo sentimento de culpa, levantou-se 
muito direito, com as mos cheias de ptalas, e escondeu-se entre Julianna e Dane quando viu que Sebastian levantava o dedo novamente. Sophie encolheu-se e correu 
para junto do seu irmo.
     Era um autntico caos. Verdadeiramente imperdovel.
     E verdadeiramente perfeito.
     
     Foi quase um ano depois que Dane ouviu o pranto do seu filho no quarto contguo ao do casal. A sua esposa espreguiou-se e deu meia volta. Beijando-a na boca, 
levantou-se da cama e caminhou para o quarto da craiana.
     O menino tranquilizou-se no momento em que sentiu as mos do pai levantando-o do bero. Depois de acender uma vela, Dane beijou a cabea de Christian Elliot 
Granville - chamado carinhosamente pelos seus pais de Kit - e aninhou-o nos seus braos. A seguir sentou-se com ele numa cadeira prxima.
     Os dedinhos do pequeno agarram-se com fora ao dedo forte do seu pai. Com ternura, Dane agarrou o diminuto punho do filho e levou-o  boca para o beijar.
     - Ento, meu filho, achas que h coisas melhores para fazer durante a noite do que dormir, no ?
     O beb fez aquele som doce que tanto entusiasmava a sua me e que fazia com o pai se enchesse de orgulho. Depois, fez uma careta esquisita elevando as sobrancelhas 
ao mesmo tempo.
     Dane sorriu.
     - O que foi, ests a questionar-me? Pois deixa-me contar-te uma histria, pequeno. Era uma vez um bandido imprudente que cavalgava sozinho durante a noite. 
Chamavam-lhe Urraca. Era um tipo muito destemido e elegante, aquele Urraca. Mas nem tudo  o que parece, meu filho. Deves saber que, apesar de tudo, aquele bandido 
no era assim to mau.
     O filho observava-o extasiado.
     - Uma noite, o Urraca salvou uma senhora. Ah, se soubesses como ela era linda, com o cabelo castanho e olhos azuis cor de safira! Como os teus, meu filho! O 
bandido levou a mulher para uma cabana prxima. Esperou e esperou que a senhora acordasse e, quando finalmete acordou, percebeu que ela era a mulher dos seus sonhos, 
o seu nico e verdadeiro amor! Mas, quanto  senhora, sabes o que  que ela viu?
     Pai e filhos estavam to extasiados com a histria que no ouviram o som da porta a abrir-se.
     - Ela viu o seu marido... o seu heri.
     E da porta, Julianna sorriu.
     Na verdade, tinha sido assim.
             
     Fim
     
      
     
     
     
     
     
     
     
     
      
Nota da autora
     Queridos leitores:
     Espero que se tenham divertido com o final da trilogia da famlia Sterling. Escrever esta srie foi para mim uma experiencia inesquecvel, e espero que vocs 
a achem to memorvel quanto eu. Sebastian, Justin e Julianna j fazem parte do meu corao e vivero nele para sempre.
     Escrever  um procasse de descoberta continua, algumas vezes tanto para o escritor como para o leitor. Na realidade, no decurso desta triloga, a escrita parecia 
fluir de forma bastante espontnea. O argumento ganhou vida prpria como nunca teria imaginado... e sou responsvel por vrios protagonistas! Algumas coisas que 
descobri da famlia Sterling apanharam-me de surpresa.
     Refiro-me, claro, ao assunto da paternidade. Sim, Sebastian, Justin e Julianna partilham a mesma me. Mas so filhos do mesmo pai? Quando escrevi o primeiro 
livro, "Uma esposa perfeita", estava convencida que de assim era. Mas depois, Justin fez a pergunta no segundo livro, "Um noivo perfeito", e comecei a questionar-me... 
teriam de descobrir a verdade? O que aconteceria se isso acontecesse?
     Projectei estas trs personagens. Por isso, na minha mente, ningum merece um final mais feliz do que eles.
     Quanto ao enigma dos irmos Sterling sobre a sua origem, devo confessar que lutei muito com esse assunto... mas, como se consegue lutar com um assunto desses?
     Mas no final ganhou a historia, a deles. E foram eles, Sebastian, Justin e Julianna que desenvolveram e me orientaram. Que me falaram e me disseram o que queriam 
e o que precisavam... e o mais importante: disseram-me como devia terminar a histria deles. Eles sabiam que o vnculo que os unira em criana nunca se poderia partir, 
que nunca poderia mudar. Quanto muito, podia fortalecer-se. E assim a mensagem que prevaleceu ao longo de toda a trilogia tambm no mudou no momento do desenlace.
     Fala-se da famlia... fala do amor. 
     Com todo o meu carinho,
      SAMANTHA J.
      
     
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Samantha James                                                                          
Um heri perfeito
      
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